United of Manchester resiste à força da TV e recusa pedido para mudar horário de jogo
Entre as muitas discussões milenares do futebol brasileiro, está o jogo das 22h de quarta-feira, o pior horário praticado por essas terras para a bola começar a rolar. É tarde para quem trabalha cedo no dia seguinte e para quem depende de transporte público para voltar para casa. Mas a televisão, no papel dela, quer fazer a transmissão depois da novela, e os clubes acatam sem grandes oposições. O dinheiro manda, afinal de contas. Isso acontece no Brasil, mas também em outros países, e da sexta divisão da Inglaterra saiu um bom exemplo de resistência.
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O United of Manchester surgiu, dez anos atrás, como uma dissidência de torcedores do Manchester United, que ficaram contrariados quando o americano Malcolm Glazer comprou o clube. Ele é gerido por aproximadamente 4 mil sócios. No sábado, o time enfrenta o Sporting Khalsa, pela quarta rodada classificatória da Copa da Inglaterra, às 15h (horário local), e a BBC pediu que o horário da partida fosse modificado para favorecer uma nova forma de transmissão que ela está tentando implementar, a “Experiência de Dia de Jogo Mobile” ou algo assim. A resposta foi a mais clara possível.
“A diretoria do FC United respondeu ao pedido com um retumbante ‘não’. Os torcedores que vão aos jogos não devem ser incomodados em benefício dos que raramente comparecem ou não comparecem de jeito nenhum”, afirmou em um comunicado. O clube disse que não se opõe, por princípio, a discutir mudanças de horário com a TV, desde que elas favoreçam os seus próprios torcedores.
Em comunicado, a BBC afirmou que o objetivo “era, e continua sendo, transmitir a quarta rodada classificatória da FA Cup de uma maneira única e inovativa, levando a audiência mais para perto do jogo e nos bastidores de uma partida da competição mais velha do mundo”.
Essa nova experiência implicaria atrapalhar o aquecimento dos jogadores reservas e o trabalho dos voluntários que ajudam a organizar as partidas todos os finais de semana, e segundo a nota do United of Manchester, em crítica à federação inglesa, “não reflete bem nos guardiões do nosso jogo saber que eles desvalorizariam a integridade do esporte e da competição encorajando apresentadores de televisão a interferirem com quem está nos túneis de acesso ou nos vestiários trabalhando para produzir os melhores elementos competitivos do jogo”.
O clube também afirmou que, como uma empresa de serviço público, a BBC deveria estar liderando a promoção do jogo sem interferir nos torcedores que vão estádio, e que os seus telespectadores, caso queiram conhecer a atmosfera de um jogo de futebol, têm diversas oportunidades para comparecer pessoalmente, em diversas divisões ao redor do país.
“A exposição da TV e o dinheiro que ela paga são importantes para o futebol. No entanto, nós acreditamos que a balança está pesando muito mais a favor das empresas de televisão e desfavoravelmente aos torcedores que vão aos estádios, pagam ingresso e frequentam o futebol regularmente”, disse o mesmo comunicado. “O FC United busca mudar a maneira como o futebol está sendo administrado, colocando os torcedores no coração de tudo”.



