Unfair Play

Sim, é verdade que o jogo ia por seus momentos finais. Que o United dominava o Tottenham completamente, sem dar nenhum sinal de que poderia ceder o empate. Que naquele momento a discussão toda já era sobre se Chicharito Hernandéz é o novo Owen ou o novo Francis.
Nada disso, porém, justifica Nani e a arbitragem no lance do segundo gol dos Red Devils. Para quem não viu o lance, o português simulou um pênalti e segurou a bola ao cair no chão. Como o pênalti não foi dado, Gomes pegou a bola e a posicionou para cobrar a infração cometida – as duas, aliás. Só que o juiz não deu nenhuma delas. Nani, assim, chutou a bola em direção ao gol. Que foi escandalosamente validado pelo mesmo árbitro que em 2005 deixou de dar um gol claríssimo de Pedro Mendes para os Spurs.
Mais uma vez: o jogo não teria dez minutos pela frente, e nada levava a crer que Tottenham poderia empatá-lo. O gol da Nani não fez a diferença, portanto, no resultado final. O resultado final, porém, aqui é o que menos importa. O que importa é que isso aconteça em uma liga que se orgulha de sua atenção ao fair play. Uma liga na qual jogadores que simulam faltas ou pênaltis são chamados de “cheat”, e discriminados por isso.
Nani foi desonesto três vezes: simulou um pênalti, colocou a mão na bola e, depois de tudo isso, chutando ao gol uma bola que não deveria estar em jogo. A foto do site da BBC em que o jogador aparece ao fundo mostrando a língua e, em primeiro plano, vemos o estarrecido Gomes, diz tudo.
Não faz o menos sentido discutir se o goleiro deveria ter prestado atenção ao fato de que o juiz não apitara e, portanto, a bola estava em jogo. Porque ela não deveria estar, e Nani, mais que qualquer outro, sabia disso.
Se fosse no Brasil, iam dizer que era esquema. Se fosse na Itália, diriam que o jogo não é limpo. Como é na Inglaterra, e até há motivos para isso, não se desconfia da honestidade do árbitro. Por outro lado, como é na Inglaterra não deveria ter acontecido. E, tendo acontecido, o time inglês no qual joga o atleta desonesto deveria tomar uma atitude. Que não a de dizer que a culpa foi de Gomes.
Pode parecer pouco, mas não é. É um ataque frontal às melhores tradições do jogo na Inglaterra. Que não pode ficar em segundo plano por causa da desimportância do lance para o resultado final. Nani tem que ser punido, pelo bem do futebol inglês.
Owen ou Jeffers
Michael Owen todos conhecem: o atual atacante do Manchester United surgiu no Liverpool aos 17 anos e, em sua primeira temporada, acabou como co-artilheiro do campeonato. Foi a grande promessa do futebol do país até que as lesões interrompessem precocemente sua evolução. Ainda assim, tem números expressivos e deixou seu nome na história dos Reds e da Inglaterra.
Francis Jeffers também surgiu em Liverpool, mas do outro lado do muro, e apareceu no mesmo ano de 1997. Embora seu início não tenha sido tão espetacular quanto o de Owen, fez o suficiente para que Arsène Wenger, em uma daquelas transferências que seus fãs quase sempre se esquecem de mencionar, pagasse 8 milhões de libras por ele. Que, depois disso, nunca mais foi nem uma sobra de um grande jogador.
Chicharito Hernández começa sua carreira no futebol inglês em estilo semelhante. Com a diferença, talvez bastante significativa, de que não tem 17 anos, mas 22. Seus números, entretanto, são para deixar animado o torcedor – e preocupado Wayne Rooney: de seus seis gols marcados até aqui, três decidiram partidas. Em pelo menos um deles, o primeiro contra o Stoke – ele marcou os dois –, a categoria de Chicharito ficou evidente, como já comentamos na semana passada.
É cedo, claro. A temporada não tem dez jogos, não chegou a sua metade. Chicharito não foi testado em momentos decisivos. E, como também já dissemos aqui no preview do campeonato, para valer as 9 milhões de libras que custou, o ainda jovem atacante terá que ser o segundo maior jogador da história de seu país, que, até aqui, deu ao mundo Hugo Sanchez e… Jared Borgetti.
Sir Alex, assim como Wenger, também tem sua cota de Djemba-Djembas, embora esta seja bem mais alardeada. Pagou caro pelo jogador do Chivas. Até aqui, pelo menos, parece ter acertado. O problema é que isso também aconteceu com Nani. E Anderson. Esperemos, portanto. Wayne Rooney, porém, que trate de colcoar a chuteira para treinar.



