Futebol inglês

Um mesmo dono, dois mundos diferentes

O dono do Liverpool se chama Fenway Sports Group. Como sabem os mais fanáticos – e/ou viajados –, Fenway Park é o nome da histórica casa do Boston Red Sox, tradicionalísima equipe de beisebol americana. Red Sox, aliás, que guardam uma série de semalhanças com o Liverpool além do Red do nome: equipe tradicional, com uma torcida enorme, ficou na fila por um longo (no caso longuíssimo) tempo, e tem um estádio charmoso, histórico, mas que, quando os atuais donos compraram a equipe, não conseguia competir com os rivais em termos de geração de receitas.

Na semana que passou, o Guardian publicou – em partes – uma longa entrevista com John W Henry, principal acionista da empresa. Além de revelar que não tinha qualquer conhecimento sobre futebol ou sobre o Liverpool antes de se interessar por comprá-lo, Henry conta histórias interessantes, que jogam uma luz sobre sua maneira de enxergar o esporte e sobre o que espera o Liverpool no futuro.

Assim que assumiu o clube, Henry passou a conviver com duas acusações: a dos torcedores dos Red Sox, de que agora só pensa no Liverpool, e a dos torcedores dos Reds, de que só se dedica a seu time de beisebol. O próprio Henry afirma que, por conta disso, acabou gastanto dinheiro demais em contratações tanto em Boston como em Liverpool. Não é outra a razão pela qual aceitou pagar o que pagou por Andy Carroll – e que continuou gastando em jogadores de qualidade, como Downing, Adam e José Enrique, mas caros.

Em Boston, porém, não foram os jogadores caros que resolveram. Se há dois fatores a ressaltar no sucesso dos Red Sox, principalmente de 2004 a 2007, quando o time conquistou duas World Series, estes são a receita extra que o clube conseguiu extrair de seu estádio; e o uso de novas técnicas de recrutamento para formar seu elenco.

Começando pelo último, para supervisionar suas contratações em Liverpool o Fenway contratou Damien Comolli, ex-diretor de futebol do Tottenham. A contratação, incrivelmente, se deu por indicação de um especialista em beisebol, Billy Beane. Beane é o ícone da “geração Moneyball”, cujo nome vem do livro que a descreve – e que neste ano virou filme com Brad Pitt no papel principal. A grande característica desta geração é a mudança na maneira de encarar estatísticas tradicionais para avaliar jogadores, e que fez com que os Oakland A’s, equipe de Beane, pudessem se manter entre os principais times da liga mesmo tendo muito menos dinheiro que seus concorrentes.

Comolli, portanto, foi contratado por seu conhecimento dos números? Henry diz que não, e que o futebol é diferente, que, no final, é preciso confiar nos olheiros. Os olheiros de Comolli, é verdade, accharam Gareth Bale, Luka Modric e Dmitar Berbatov para o Tottenham. A lista de fracassos, porém, é muito mais extensa: e inclui Giovanni dos Santos, Kevin-Prince Boateng, Adel Taarabt e Roman Pavlyuchenko. Se é sinal de algo, Comolli saiu chutado de White Hart Lane.

O segundo aspecto do sucesso de Henry nos Red Sox, o estádio, tinha tudo para ser repetido em Liverpool. Ou pelo menos assim lhe parecia no primeiro momento. Anfield, como o Fenway Park, é antigo, charmoso e tem pouca capacidade de gerar receita para o clube, o que fez com que todos os donos do clube nos últimos 20 a 30 anos considerassem a construção de um novo estádio como prioridade – assim como era nos Red Sox.

Em Boston, a solução foi praticamente reconstruir o estádio velho, dando a ele novas áreas para lojas, lanchonetes e, principalmente, camarotes corporativos. Em Anfield, porém, os americanos descobriram que suas leis são diferentes das dos comuns mortais europeus. Que, na Inglaterra, se alguém não quer vender sua casa, não vende. E que você não pode aumentar um nível de arquibancadas no estádio se elas impedirem alguma residência vizinha de receber a luz do sol. Sim, os ingleses têm garantido por lei o direito à luz do sol. O que faz com que o projeto de reforma de Anfield pareça cada vez mais difícil de ser executado.

Daí não virá, pelo menois por enquanto, mais dinheiro. Neste sentido, chamaram a atenção na semana passada as declarações de Ian Ayre, diretor-executivo do Liverpool, de que a divisão das receitas dos contratos de TV para fora da Inglaterra é “injusta”. Já comentamos o assunto em post no blog, mas o argumento de Ayre é o de que “ninguém paga para assistir o Bolton”, e que portanto o Liverpool não deveria ter que dividir igualmente seu dinheiro com os Trotters – ainda que seja apenas uma pequena parte de seu dinheiro.

Se vai funcionar o modelo proposto pelo Fenway é algo que só saberemos pelo menos no médio prazo. Vale a pena, porém, olhar para os Red Sox. Depois de nada menos que 86 anos sem chegar so título das World Series, a equipe conquistou dois em quatro anos. Em 2011, entretanto, o time simplesmente “derreteu” no final da temporada regular, e acabou com um novo recorde depois de levar a maior virada da história e acabar fora dos playoffs. Isso com um time que, em tese, era um dos melhores de todos os tempos.

Talvez em  Liverpool dois títulos seguidos de um fracasso épico não sejam nada para se reclamar. Por mais vergonhosa que tenha sido a última temporada, o modelo implantado em Boston ainda é amplamente vitorioso, e os fundamentos para mais alguns anos de bom beisebol ainda estão por lá.

A diferença é que John W Henry entende de beisebol, e que contratou os caras certos para vencer. Em Anfield, por enquanto, tem um diretor-executivo fanfarrão, um diretor de futebol com um histórico suspeito e um técnico que já foi um estrondoso sucesso, mas há muito tempo atrás. Pode dar certo, mas só saberemos se o instinto de Henry funciona também para o beisebol em alguns anos.

CURTAS

  • Com o empate entre United e Liverpool, o Manchester City abriu dois pontos na liderança da tabela.
  • Quem segue bem são Stoke e Norwich, que voltaram a vencer no final de semana e ocupam reespectivamente sétimo e nono lugares – ambos à frente do Arsenal, portanto.
  • Além da volta de Gerrard, a maior notícia do dérbi vermelho foram as acusações de Patrice Evra de que ouviu durante toda a partida uma série de insultos raciais de Luis Suarez.
  • O uruguaio nega com veemência, e pede punição ao acusador.
  • No primeiro jogo de relativa dificuldade do ano, o Newcastle sobreviveu: esteve atrás no placar duas vezes diante do Tottenham, mas acabou empatando em 2 a 2.
  • Para os Spurs, a má notícia, além da perda de dois pontos, é que Ledley King saiu machucado ainda no primeiro tempo.
  • King esteve em campo nas quatro vitórias da equipe até aqui.
  • E quem voltou a vencer foram West Brom e Bolton.
  • Os Baggies estão em 12º, mas o Bolton é o 18º, e cairia – junto com Blackburn e Wigan – se o campeonato acabasse hoje.
  • A vitória sobre o Wigan, porém, apenas a segunda, e depois de cinco derrotas consecutivas, manteve o emprego de Owen Coyle por pelo menos uma semana.
  • No Championship, o Southampton empatou com o Derby, e viu sua vantagem para o West Ham, que goleou o Blackpool, diminuir.
  • O Southampton venceu apenas um de seus quatro últimos jogos, enquanto os Hammers venceram dois dos últimos cinco.
  • O terceiro colocado, porém, o Middlesbrough, vem de quatro empates, o quarto, Derby, de três jogos sem vencer, o quinto, Brighton, não vence há cinco, e o sexto, o Hull, também ganhou uma das quatro últimas.
  • Um ar de Brasileirão na Segundona inglesa, não?
  • Quem sobe nestas circunstâncias é o Leeds, que perdeu as duas primeiras mas ganhou quatro das cinco últimas, e já ronda a zona dos playoffs.
  • Na parte de baixo da tabela, o Nottingham Forest perdeu mais uma, a terceira seguida e sexta nas últimas sete partidas, e mergulhou na zona do rebaixamento.
  • Enquanto isso, o Derby County, renovou com seu treinador Nigel Clough (sim, o filho de Brian Clough,), por mais quatro anos.
  • Na League One, o Charlton perdeu pela primeira vez no final de semana, 1 a 0 para o Stevenage. Foi a terceira vez nos últimos quatro jogos que os londrinos não venceram.
  • Quem aproveitou foi o Huddersfield, que agora tem apenas um ponto a menos que os Addicks.
  • Quem não aporveitou foi o Sheffield Wednesday, que, depois de quatro vitórias, empatou, e perdeu a oportunidade de igular o líder em pontos – tem dois a menos neste momento.
  • Na League Two, o AFC Wimbledon perdeu, depois de quatro vitórias, mas segue em sexto lugar, na zona dos playoffs.
  • O líder é o Crawley Town.
Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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