Futebol inglês

‘Traição à identidade histórica’: Tim Vickery detona gestão do Tottenham

Colunista da Trivela analisou a contradição de um dos clubes mais ricos do mundo, que vive o pior início de sua história na Premier League

No programa “Futebol em Contexto”, da Trivela, o colunista Tim Vickery analisou a contradição do Tottenham: um dos clubes mais ricos do mundo, dono de um dos melhores estádios do planeta, que vai para a terceira temporada seguida brigando contra o rebaixamento na Premier League.

Para o jornalista inglês, a crise é fruto de anos de investimento baixo em salários e contratações, agravada por um setor de inteligência que trocou passadores por força física. O resultado, segundo ele, é um paradoxo: o modelo criado para proteger o negócio quase afundou o próprio negócio.

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O momento em campo é o pior da história do Tottenham na Premier League, segundo a “Opta”. O time ocupa a 18ª colocação na tabela e ainda não venceu após seis rodadas. O time de Roberto De Zerbi chegou a ficar 492 minutos sem marcar um gol e já foi eliminado da Copa da Liga pelo Liverpool. Na dramática temporada 2024/25, terminou em 17º lugar com 22 derrotas e, na última, escapou da queda apenas na rodada final.

Contratações do Tottenham: força física no lugar de passadores

O programa partiu de uma análise do jornalista Ryan O'Hanlon, da “ESPN”, segundo a qual os scouts do Tottenham passaram os últimos anos priorizando atributos físicos na hora de avaliar reforços. No sistema de notas do clube, velocidade, intensidade e força puxavam as avaliações para cima. A consequência foi de “muitos jogadores fortes, rápidos, que correm muitos quilômetros, mas poucos bons passadores e controladores de jogo”.

Para Vickery, a escolha rompeu com o DNA do clube. “Eu vejo isso como uma traição muito importante à identidade histórica do time. O Tottenham sempre foi um time de passadores da bola, sempre. Nunca foi um time muito físico. Mesmo em épocas ruins, o torcedor ia para o estádio pensando: ‘Sabe de uma coisa? A gente tem um ou dois magos no time que vão fazer alguma coisa especial’. Sempre tinha aquela esperança, mesmo quando o time andava mal. Agora não tem ninguém especial nesse sentido”, afirmou.

Por que o Tottenham não gasta o que o mercado exige

O colunista, no entanto, considera que a última janela é só a ponta do problema. “Eu acho que o papo da última janela é muito secundário no debate sobre esse dilema do Tottenham, entre ser bom no balanço e ruim no campo. Porque foi justamente a falta de contratações durante anos, o fato de que o clube paga mal para a escala maluca do futebol de elite, que colocou o clube na situação atual. Nessa janela, eu acho que o dinheiro foi gasto mais com pânico do que com qualquer outro critério”, disse.

Vickery lembrou que nem a campanha até a final da Champions League de 2019 fugiu dessa lógica. “Sabe quantos jogadores o Tottenham contratou no início daquela temporada 2018/19? Zero. Não contratou ninguém. O clube já estava em declínio”, contou.

Destiny Udogie, lateral-esquerdo do Tottenham, ao lado de Micky van de Ven e Sandro Tonali após um gol do Newcastle, durante a partida da Premier League entre Tottenham e Newcastle, em Londres, no Reino Unido, em 29 de agosto de 2026.
Jogadores do Tottenham lamentam gol sofrido em jogo da Premier League. (Foto: News Images/IMAGO / NurPhoto)

Ele também recuperou uma frase de Ange Postecoglou, técnico que, segundo ele, era o mais audacioso de um clube cujo lema é “ousar é fazer”: “O clube não ousa em nada. A gente não consegue contratar porque a gente não está pagando o que o mercado exige”.

Os números ajudam a explicar o desencontro. Sob a gestão de Daniel Levy, o Tottenham saiu da 16ª posição no ranking de receitas, em 2002, para a nona. Hoje vale cerca de 3,5 bilhões de libras, registrou lucro recorde de 113 milhões de libras em 2017/18 e inaugurou, em abril de 2019, um estádio de 1,2 bilhão de libras pensado como arena multiuso, com shows, jogos da NFL e gramado retrátil. Em campo, conquistou apenas dois títulos no período: a Copa da Liga de 2007/08 e a Europa League de 2024/25.

Tottenham rico, time fraco: o negócio que quase afundou o negócio

Vickery explicou que a política de gastar pouco chegou a ser comemorada internamente. “Até quase o final da temporada passada, os executivos do clube estavam se autoparabenizando, porque dentro da indústria o Tottenham é visto como referência pelo dinheiro que consegue arrecadar. Estavam se autoparabenizando pelo fato de que pouco mais de 40% dos recursos do clube estavam sendo gastos com salários de jogadores, o que pelo mercado é muito, muito baixo. A figura do Aston Villa, na temporada passada, era mais do que 90%”, contou.

O jornalista recorreu ao livro “Soccernomics”, que guiou toda a conversa, para explicar por que a conta não fecha. “É quase impossível gerenciar um clube de futebol como um negócio para fazer lucro, porque sempre tem rivais que não estão ligando para o lucro, que vão gastar o que é necessário na esperança de ganhar os troféus. Tem uma lei no futebol: mais dinheiro quer dizer melhores jogadores, e melhores jogadores querem dizer mais possibilidades de ganhar títulos. O negócio do futebol é futebol”, afirmou.

E foi aí que chegou à frase que resume o caso. “Em consequência dessa política de gastar pouco, no ano passado o clube ficou muito, muito próximo de ser rebaixado. E ser rebaixado ia ser um desastre para o negócio. Então, as medidas que os dirigentes estavam tomando para fortalecer o negócio quase afundaram o negócio. Que coisa interessante, ou deprimente, se você é torcedor do clube”, concluiu Vickery.

Roberto de Zerbi técnico do Tottenham
Roberto de Zerbi técnico do Tottenham. Foto: IMAGO / Mark Pain

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Nelson ColtroCoordenador de conteúdo

Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Coordenador das redes sociais da Trivela e vira e mexe apareço no site.

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