Inglaterra

Tottenham bate Arsenal com melhor defesa em anos, Richarlison discreto e ‘gol que Pelé não fez’

Time de Thomas Frank fez grande jogo contra os Gunners, apesar das dificuldades ofensivas

Arsenal e Tottenham se enfrentaram nesta quinta-feira (31), em jogo amistoso em Hong Kong, no que foi o primeiro North London Derby da história disputado fora da Inglaterra. Os Spurs venceram por 1 a 0, mesmo com dificuldades ofensivas, que foram compensadas na defesa.

Thomas Frank, novo técnico dos atuais campeões da Liga Europa, ainda não perdeu nos quatro amistosos que disputou com a equipe: essa foi sua segunda vitória, depois dos últimos dois empates recentes. E mesmo que a pré-temporada seja uma tela em branco e não necessariamente traduza o desempenho para a campanha oficial, o sistema defensivo dos Spurs merece destaque.

A ‘nova defesa’ do Tottenham

Com Ange Postecoglou nas duas últimas temporadas, o clube londrino mostrou grandes momentos ofensivos. Goleadas, diferentes padrões de criação e futebol vistoso, em algumas ocasiões. No entanto, principalmente em 2024/25, sofreu demais na defesa.

Thomas Frank pelo Tottenham
Thomas Frank pelo Tottenham (Foto: Imago)

Foram 64 gols feitos na última Premier League, um número excelente para quem terminou a temporada em 17º lugar. Mas essa colocação só foi possível por conta dos 65 gols sofridos — a 5ª pior defesa da liga.

Nos amistosos com Frank, foram apenas dois gols sofridos em quatro jogos (ambos em apenas um confronto, contra o Wycombe Wanderers). Contra o Arsenal, os Spurs tiveram momentos em que, mesmo sem a bola, dominaram os Gunners com seu bom trabalho defensivo.

Como o Tottenham parou e venceu o Arsenal

O time de Mikel Arteta manteve seu padrão já consolidado de construção: saída em 3-2, com Myles Lewis-Skelly, o lateral-esquerdo, invertendo para ser apoio ao lado do volante Christian Norgaard. Martin Odegaard e Declan Rice eram os meias à frente, formando o tradicional quadrado no meio da equipe.

Para impedir a progressão, o Tottenham marcava em 4-4-2, com Lucas Bergvall e Richarlison como os mais adiantados. No entanto, apesar de ter um bloco médio/alto, a ideia da equipe era se comparar: os dois da frente não se aproximavam dos zagueiros, mas davam espaço e fechavam as opções de passe por dentro, impedindo que a bola chegasse aos dois apoios centrais dos Gunners.

Como praticamente todo time de alto nível, os Spurs também tinham gatilhos de pressão e os executou muito bem, principalmente no primeiro tempo. Quando havia passes para trás para zagueiros ou para David Raya, o time inteiro subia pressão, de forma individualizada. Isso acabou gerando dificuldades para o Arsenal, que em diversos momentos se viu obrigado a dar chutões.

Foi em um destes gatilhos que surgiu o único gol do jogo. Em um passe de retorno para Raya, o Tottenham subiu pressão, Richarlison e Bergvall pressionaram os zagueiros mais próximos e Raya tentou um passe por dentro, em vez de se desfazer a bola. Lewis-Skelly dominou já pressionado e, ao perder a bola, Pape Matar Sarr aproveitou o goleiro adiantado para encobri-lo do meio do campo.

É verdade que os Spurs tiveram dificuldade ofensiva. Mal criaram, foram incapazes de progredir sob pressão e, em uma das chances mais claras do jogo, Richarlison perdeu o tempo da bola em um cruzamento que poderia gerar o segundo gol do jogo.

Nem só de pressão vive o Tottenham

Para além do bom sistema de pressão — que raramente se mostrou vulnerável e com espaços nas costas da defesa, como acontecia com Postecoglou — os Spurs também tiveram excelente desempenho defendendo em bloco baixo.

Quando o Arsenal conseguia progredir depois do meio-campo, o Tottenham mantinha sem 4-4-2, mas não tinha receio de baixar as linhas e compactá-las. Os dois da frente seguiam baixos, para que os meias entrelinhas dos Gunners não pudessem ser acionados. Isso obrigou as jogadas a saírem pelos lados.

Por outro lado, quando a bola chegava à lateral, os Spurs também tinham artimanhas defensivas que dificultaram o jogo dos rivais. O ponta que defendia o lado da bola sempre recebia ajuda para criar superioridade numérica contra o atacante adversário, obrigado a dar passes para trás.

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Como o principal foco de ataque dos Gunners foi pela direita, com Bukayo Saka, criava-se uma proteção com Djed Spence, o lateral-esquerdo, Wilson Odoberto, o ponta-esquerda e até mesmo Bergvall, o meia-atacante, cercando o camisa 7 dos Gunners. Dessa forma, além de limitado pela linha lateral, ele tinha sua frente, sua diagonal e o lado esquerdo impedidos, restando apenas o retorno.

Além disso, quando a bola ia para a ponta no ataque adversário, o Tottenham criava uma linha de cinco defensores, com Rodrigo Bentanucr descendo da posição de volante. Isso aumentava as chances de sucesso em possíveis cruzamentos, preenchia a linha e permitia que o zagueiro pudesse ir mais perto da bola para fazer cobertura e impedir passes para dentro da área.

Sem conseguir infiltrar pelo lado, quando os Gunners voltam a bola para o meio, Bentancur subia de volta e mantinha sua posição como volante no 4-4-2, voltando a reforçar a marcação entrelinhas e impedir a progressão pelo meio.

Com as mudanças e o cansaço natural, o Tottenham pressionou bem menos na etapa final, mas manteve a atenção e o nível de excelência na defesa em bloco baixo. Isso fez com que o Arsenal, apesar das 15 finalizações, não levasse perigo algum ao gol de Guglielmo Vicario — que teve apenas um chute fraco de fora da área atingindo seu alvo.

Nem quando Viktor Gyökeres entrou, para fazer sua estreia e jogar cerca de 20 minutos na etapa final, os Gunners conseguiram furar a boa defesa baixa do time de Frank.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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