Terra estrangeira na FA Cup

150 anos. Esse é o tempo que, somados, Portsmouth e Cardiff passaram sem chegar à final da Copa da Inglaterra. No último fim de semana, os dois times conquistaram seus lugares na decisão e a chance de ganhar um raríssimo troféu. Trata-se de uma prova de que a competição mantém seu charme e sua ‘mágica’, mesmo tendo perdido um pouco do prestígio.
Tecnicamente, a decisão deste ano certamente não vai ser das melhores. No entanto, há a expectativa de que isso seja compensado por um jogo mais emocionante, em que as duas equipes vão deixar suas almas em campo. Nas arquibancadas, deve-se resgatar o clima de grandiosidade da final da FA Cup – diferentemente da sensação de ‘rotina’ que às vezes os fãs passam quando os quatro grandes chegam à decisão.
O Portsmouth fez por merecer o lugar em sua primeira final de FA Cup em 69 anos. Não que o caminho da equipe tenha sido dos mais difíceis, já que enfrentou quatro adversários da segunda divisão (Ipswich, Plymouth, Preston e WBA). Mas, nas quartas-de-final, derrubou o Manchester United – feito que por si só já merece reconhecimento. É obviamente mais forte que o adversário e favorito claro ao título.
Mas, mesmo sendo azarão, é o Cardiff o astro da final. Não bastasse o fato incomum de um time da segunda divisão chegar tão longe, existe a curiosidade de um time galês disputar a decisão da Copa da Inglaterra. A última vez que isso aconteceu foi há 81 anos, quando o próprio Cardiff foi campeão da FA Cup.
Naquela época, não havia um complicador que existe hoje: as vagas em copas européias. A Uefa determina que um clube não pode conquistar vagas por meio de competições que não sejam de seu próprio país. A princípio, a determinação faz sentido, já que evita que um time malandrão use um país vizinho fraco para se classificar para a Copa Uefa (por exemplo, imagine o Sunderland jogando a Copa da Irlanda como convidado e sendo campeão). No entanto, está claro que a situação do Cardiff é completamente diferente. Primeiro, porque a equipe está fazendo o contrário: disputa uma liga que é muito mais difícil que a de seu país. Depois, porque o time sempre jogou na Inglaterra – não há nada de oportunista nessa mudança de país. Em termos de futebol, pode-se dizer que o Cardiff, para todos os efeitos, é inglês.
A Uefa e a Football Association entendem a peculiaridade do caso e já falam na possibilidade de o Cardiff ganhar a vaga na Copa Uefa se for campeão. O problema é que, se decidirem em favor dos galeses, abrirão um precedente perigoso – além de provocar justificadas reclamações do Portsmouth (afinal, pela regra vigente, não há dúvidas: Pompey vai para a Copa Uefa, seja qual for o resultado da final). Fala-se até em dar um ‘wildcard’ para o Cardiff, sem tirar a vaga do Portsmouth, numa ‘acochambragem’ parecida com a feita para o Liverpool em 2005.
Os dirigentes, de maneira sensata, avisaram que a decisão sobre o assunto será anunciada antes da final, para evitar suspeitas de favorecimento. Mas isso não evitará a polêmica. Numa edição da FA Cup que brilhou pelas zebras, é melhor para os cartolas que a final seja bem previsível.
Emoção na reta final
Não é só a Copa da Inglaterra que tem se mostrado imprevisível nesta temporada. A 33ª rodada da Premier League reaqueceu a disputa pelo título e faz prever que as últimas cinco rodadas serão emocionantes no topo da tabela – coisa rara nos últimos anos.
No último fim de semana, o único dos quatro grandes que venceu foi o Chelsea. Todos os outros empataram. Primeiro, Arsenal e Liverpool se reencontraram no Emirates e fizeram um 1 a 1 parecido com o da quarta-feira anterior. Decretou-se de imediato a saída dos Gunners da briga pelo título, ainda mais depois que o Chelsea bateu o Manchester City com facilidade. Mas, no domingo, o Manchester United só empatou com o Middlesbrough (que é seu eterno incômodo: foram quatro empates e quatro derrotas nos últimos 14 encontros pela Premier League) e reacendeu as chances do time de Arsène Wenger.
Agora, a cinco rodadas do fim, o Manchester United tem 77 pontos, o Chelsea tem 74 e o Arsenal tem 71. O que torna a briga realmente interessante é que os Red Devils ainda têm pela frente jogos contra os dois adversários diretos. Ou seja, o time de Alex Ferguson depende só de si, mas não tem margem de erro. Para ser campeão, provavelmente terá que empatar com Arsenal e Chelsea e ganhar as outras três. Trata-se de uma tarefa nada fácil, lembrando que o time (assim como os Blues) também tem que se preocupar com a Liga dos Campeões.
Mais para baixo na classificação, o Everton manteve viva a briga com o Liverpool pelo quarto lugar. Aqui, no entanto, as perspectivas de emoção são bem menores. A diferença é de só três pontos, mas os Toffees têm Arsenal e Chelsea pela frente, enquanto o time vermelho não têm adversários muito complicados nas rodadas finais. A não ser que a LC atrapalhe muito os Reds, eles deverão manter o quarto lugar sem problemas. O Everton deve ir mesmo para a Copa Uefa.
Por fim, a briga contra o rebaixamento parece cada vez mais definida. O Derby já caiu, e Wigan, Middlesbrough, Sunderland e Newcastle já podem respirar aliviados. Birmingham e Reading ainda têm trabalho a fazer, mas os favoritos à queda são sem dúvida Bolton e Fulham, que não vêm jogando nada e ainda têm que tirar uma diferença de quatro (ou seis) pontos para se salvar.



