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Técnico perde emprego no Crystal Palace por espalhar mensagens racistas, sexistas e xenofóbicas

Em um meio tão público quanto o futebol, é muito difícil dissociar sua imagem pública da pessoa que é no privado. Em alguns aspectos, como por exemplo como se veste um atleta em suas horas vagas, não há sentido misturar as coisas, já em outros, é impossível que uma atitude fora dos campos não influencie na vida dentro deles. Malky Mackay aprendeu isso de uma das piores maneiras possíveis nesta semana. Praticamente acertado para assumir o Crystal Palace, o técnico viu as negociações ruírem por causa do vazamento de uma série de mensagens preconceituosas, de cunhos racista, xenofóbico, homofóbico e machista, que enviava a membros do Cardiff City quando treinava o clube galês.

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A história veio a público porque o Cardiff City enviou à FA um dossiê com as denúncias do comportamento preconceituoso de Mackay no tempo em que esteve à frente do clube. Algumas das mensagens enviadas pelo treinador foram divulgadas na imprensa inglesa, que contextualizou cada uma delas.

“Malditos ‘chinkys’*. Vai se fo***. Já tem cães o bastante em Cardiff com os quais podemos passear.”

Sobre a chegada do sul-coreano Kim Bo-Kyung ao time.

“Vá em frente, Phil gordo. Não há nada como um judeu que observa o dinheiro escapando por seus dedos”

Sobre o empresário de jogadores Phil Smith

“Ele é uma cobra, uma cobra gay. Não é confiável.”

Sobre um dirigente de outro clube.

“Não vejo muitos rostos brancos nessa lista, mas vale a pena considerar”

Sobre uma lista de possíveis contratações

“Espero que ela esteja cuidando das suas necessidas. Aposto que você adoraria pular em seus seios”

Sobre uma empresária de jogadores

Além disso, ele ainda enviou à diretoria do Cardiff uma “piada” em que é mostrado o “Banco Imobiliário Negro”, cujo tabuleiro só é formado por casas são “Vá para a cadeia”

*Termo discriminatório usado em referência a chineses, mas também a orientais em geral.

Embora aparentemente a FA tenha material o bastante para punir Malky Mackay, tudo indica que isso não irá acontecer. Em caso parecido, o diretor executivo da Premier League, Richard Scudamore, teve uma série de e-mails revelados em que fazia afirmações sexistas, mas acabou absolvido em maio deste ano pois as mensagens foram consideradas “privadas”, e isso seria um impedimento a uma eventual punição. Portanto, Mackay e seu comportamento asqueroso estão seguros. A abordagem da FA em casos como esses mostra que, embora o discurso público seja de integração, aceitação e respeito às diferenças, pouco é efetivamente feito. As atitudes não são enérgicas.

O fato de a enxurrada de mensagens preconceituosas de Mackay ter vindo a público respingou de alguma maneira também dentro do Crystal Palace, que esteve perto de contratá-lo. Não apenas porque seu plano A para substituir Tony Pullis, melhor técnico da última Premier League, foi para o espaço. Mas também porque Iain Moody, que estava na função de diretor esportivo do clube londrino até essa semana, acabou entregando seu cargo diante das acusações. Moody estave no Cardiff com Mackay e também está sendo investigado pela Federação Inglesa.

Quem deve estar de certa forma se sentindo “vingado” e satisfeito é Vincent Tan. Quando o bilionário malaio comprou o Cardiff, Mackay já estava lá no comando, fazendo um bom trabalho. As mudanças aplicadas por Tan, como mudar a cor do time e seu símbolo, revoltaram torcedores, que viram na demissão aparentemente sem sentido de Mackay como mais um argumento para pedir a cabeça do dono do clube. Logo após ser demitido, o técnico havia entrado na Justiça, mas, em maio deste ano, retirou o processo e se desculpou: “Quero me desculpar por quaisquer erros que eu tenha cometido durante meu tempo no clube, por qualquer participação que tive neles. E quero me desculpar por qualquer ofensa que eu possa ter causado, especialmente a Vincent Tan e aos torcedores”. Uma mudança de postura bastante abrupta e que, à luz das informações divulgadas nessa semana, fazem o dono do Cardiff parecer um mocinho que lhe demitiu justamente por causa das gozações e mensagens preconceituosas.

Claro que Mackay se desculpou, mostrando aquele “arrependimento” típico de quem foi pego: “(As mensagens) São completamente inaceitáveis, inapropriadas e peço sinceras desculpas por isso”. Bem, ele teve muito tempo para se arrepender e mudar de comportamento durante o período no Cardiff, pois o arsenal de bobagens não foi cometido tudo no mesmo dia. O pior é que pessoas importantes do futebol inglês, como Harry Redknapp, tentaram diminuir o impacto das declarações. O técnico do Queens Park Rangers disse que todos já cometeram erros e Mackay “não matou ninguém, não estuprou ninguém e não é pedófilo”. Não mesmo, e por isso ele está sendo punido por manifestar racismo, sexismo e xenofobia, não por assassinato, estupro ou pedofilia.

Diante da imobilidade da FA diante de casos como esse, é bom destacar a postura do Crystal Palace em recuar nas negociações. É verdade que pesou muito a possibilidade de ter sua imagem manchada, mas já é uma coisa. Comportamentos imbecis e irracionais como o de Mackay precisam ter alguma consequência.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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