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Taça por encomenda: Quando os campeões ingleses levaram o título sem entrar em campo

Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Para jogadores e torcedores, o melhor era sentir o alívio misturado com a euforia o quanto antes. Por isso mesmo, quando o gol de Eden Hazard empatou a partida entre Chelsea e Tottenham, nos últimos minutos, a explosão tomou conta de Leicester. Naquele momento, parecia impossível tirar a taça das mãos do time de Claudio Ranieri, o que se confirmou ao apito final. As Raposas se sagravam campeãs da Premier League. Já o duelo contra o Everton, no Estádio King Power, não oferecerá pressão alguma. A ocasião será importante, sim, pela festa no Estádio King Power diante da conquista que se consumou. Uma sensação inédita em Leicester que, ao invés do campo, começou a ser desfrutada no sofá.

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A lista abaixo relembra os desfechos de outras temporadas em que isso aconteceu nos últimos 50 anos, com os vencedores confirmados em casa. É importante deixar claro alguns motivos pelos quais estas decisões “terceirizadas” aconteciam – e com tanta frequência – no futebol inglês. Na primeira parte do texto, que trata das temporadas anteriores à criação da Premier League, vale destacar o calendário inchado: durante quase a totalidade do período a liga inglesa comportava nada menos que 22 clubes, o que significava 42 jogos por clube em cada temporada (para efeito de comparação, a Serie A Italiana da época contava com 16 clubes e 30 partidas para cada). Também colaborava – e colabora até hoje – para o número exagerado de partidas a existência de duas copas nacionais disputadas simultaneamente à liga. É bom lembrar também que até os anos 80 não havia disputa por pênaltis nestas copas. Os clubes jogavam partidas de desempate quase eternamente para avançar no mata-mata.

As participações consistentes dos clubes ingleses nas competições europeias também acabavam, no fim das contas, colaborando para o adiamento de partidas da liga. Entre a temporada 1962/63 (quando o Tottenham se tornou o primeiro clube do país a levar uma copa europeia) e a de 1984/85, que culminou na tragédia de Heysel e no banimento dos ingleses dos torneios continentais, apenas em duas delas – 1963/64 e 1982/83 – não houve nenhum time inglês em decisão de taça pela Europa. Por fim, há ainda a interferência da natureza: em várias oportunidades o inverno rigoroso, que deixou os campos cobertos de neve, postergou rodadas inteiras em janeiro e começo de fevereiro.

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Já na fase Premier League, ainda que alguns desses complicadores persistam (como o excesso de copas), os inúmeros jogos isolados têm origem principalmente no desmembramento das rodadas por pouco mais que um fim de semana (uma mesma rodada completa de 10 jogos às vezes tem partidas realizadas entre a sexta-feira e a terça da semana seguinte, por exemplo) em virtude de exigências da televisão, que procura transmitir o maior número possível de jogos.

ANTES DA PREMIER LEAGUE

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Derby County (1971/72)

Talvez a reta final mais disputada de todas as listadas aqui. No dia 22 de abril, o Manchester City venceu o Derby County por 2 a 0 no velho estádio de Maine Road e encerrou sua participação no campeonato como líder – mas isso mais de duas semanas antes do desfecho da competição, propriamente dito, já que o Derby tinha um jogo a menos e Liverpool e Leeds tinham dois. E todos os três poderiam ultrapassar os Citizens.

No dia 1º de maio, o Derby venceu por 1 a 0 seu confronto direto com o Liverpool em casa e assumiu a liderança, também em seu último jogo da tabela. Mas ainda precisava de tropeços dos rivais. A “secada” incrivelmente deu resultado: em 8 de maio o Leeds perdeu para o Wolverhampton por 2 a 1 no Molineux e o Liverpool parou em um empate sem gols com o Arsenal em Highbury.

Num fim de campeonato incrivelmente acirrado, o time dos Rams dirigido por Brian Clough conquistou o primeiro título de sua história terminando apenas um ponto à frente do trio de adversários.

CLASSIFICAÇÃO FINAL: 1º Derby County (57); 2º Leeds (56); 3º Liverpool (56); 4º Manchester City (56); 5º Arsenal (52); 6º Tottenham (51)

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Leeds (1973/74)

Parecia um campeonato em que o Leeds nadaria de largas braçadas, até pelo menos os meados de março, quando havia perdido apenas uma de suas 33 partidas e chegava a ter oito pontos de vantagem sobre o Liverpool. Mas depois de três derrotas seguidas (uma delas no confronto direto) e diante do fato de os Reds terem vários jogos a menos, a disputa ficou equilibrada.

O Leeds, no entanto, garantiu o título sem precisar entrar em campo, beneficiado pela derrota do Liverpool para o Arsenal em Anfield por 1 a 0, em jogo isolado realizado em 24 de abril. Assim, os Scousers não poderiam mais alcançar a pontuação dos Lillywhites, mesmo ainda com dois jogos por fazer.

CLASSIFICAÇÃO FINAL: 1º Leeds (62); 2º Liverpool (57); 3º Derby County (48); 4º Ipswich (47); 5º Stoke (46); 6º Burnley (46)

Derby County (1974/75)

Em 12 de abril, faltando duas rodadas completas, cinco times tinham chances matemáticas de título: o líder Derby, Liverpool, Everton, Ipswich (que tinha um jogo a menos) e Stoke. Uma semana depois, Liverpool, Everton e Ipswich perderam, enquanto o Stoke apenas empatou.

Assim, mesmo com o empate do próprio Derby diante do Leicester fora de casa, apenas o Ipswich poderia alcança-lo na ponta da tabela, caso vencesse seus dois jogos – o primeiro, isolado, contra o Manchester City fora, na quarta-feira, 23 de abril. Mas os Tractor Boys ficaram no empate em 1 a 1, entregando o título de bandeja para o Derby, novamente campeão sem entrar em campo.

CLASSIFICAÇÃO FINAL: 1º Derby County (53); 2º Liverpool (51); 3º Ipswich (51); 4º Everton (50); 5º Stoke (49); 6º Sheffield United (49)

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Arsenal (1990/91)

Dois anos depois do épico desfecho do campeonato de 1989 – conquistado pelo Arsenal após vencer o Liverpool por 2 a 0 em Anfield no último jogo da temporada, superando o adversário somente no número de gols marcados – os Gunners e os Reds novamente despontaram como os times que brigariam pelo título (tendo ainda, durante certo tempo, a companhia de um surpreendente Crystal Palace). Mas desta vez, a equipe dirigida por George Graham precisou sofrer menos.

Mesmo com dois pontos descontados pela Football Association, em virtude de uma briga generalizada envolvendo seus jogadores durante a vitória sobre o Manchester United em Old Trafford, o time londrino fez campanha extremamente regular, perdendo apenas uma partida – contra o Chelsea fora, em fevereiro, depois de 23 jogos invicto. No fim de abril, faltando três jogos para o encerramento da temporada, tinha três pontos de vantagem (já incluindo os descontos) sobre o Liverpool na liderança.

Em 4 de maio, os Gunners empataram sem gols com o Sunderland no norte e viram o Liverpool levar de 4 a 2 do Chelsea em Londres. E dois dias depois, já entraram em campo campeões para enfrentar o Manchester United em Highbury, depois que o Liverpool, mais cedo naquele dia, fora derrotado pelo Nottingham Forest por 2 a 1. O triunfo por 3 a 1 sobre os Red Devils só complementou a festa do Arsenal.

CLASSIFICAÇÃO FINAL: 1º Arsenal (83); 2º Liverpool (76); 3º Crystal Palace (69); 4º Leeds (64); 5º Manchester City (62); 6º Manchester United (59)

FASE PREMIER LEAGUE

Manchester United (1992/93)

A primeira Premier League teve o Norwich como grande surpresa, permanecendo várias rodadas na liderança, de maneira intermitente, até o fim de março. Aí a disputa passou a ficar entre o Manchester United (que havia perdido nas últimas rodadas da temporada anterior a grande chance de quebrar seu jejum da liga, que vinha desde 1967) e o Aston Villa.

O United assumiu a liderança em 10 de abril, a seis rodadas do fim, com o Villa sempre colado, um ponto atrás. Até a rodada de meio de semana de 21 de abril, quando os Red Devils bateram o Crystal Palace fora de casa por 2 a 0 e abriram quatro pontos de frente com a derrota do Villa por 3 a 0 para o Blackburn.

Bastava agora um tropeço do adversário para que o United confirmasse o título. E ele veio logo em seguida, com a derrota do Aston Villa para o Oldham em casa por 1 a 0, em partida isolada, complementando a penúltima rodada. No dia seguinte, o United já entrou campeão para enfrentar o Blackburn.

CLASSIFICAÇÃO FINAL: 1º Manchester United (84); 2º Aston Villa (74); 3º Norwich (72); 4º Blackburn (71); 5º Queens Park Rangers (63); 6º Liverpool (59)

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Manchester United (1993/94)

O Manchester United chegou a ter 16 pontos de vantagem sobre o segundo colocado Blackburn (que, entretanto, tinha três partidas a menos) ao fim de janeiro. Deixou o adversário encostar e, no começo de abril, os dois times estavam empatados na ponta.

Mas a equipe de Alex Ferguson ganhou fôlego novo, enfileirando vitórias enquanto os Rovers colecionavam tropeços. No dia 1º de maio, os Red Devils bateram o Ipswich fora por 2 a 1 e aguardaram o dia seguinte, quando o Blackburn viajaria para enfrentar o Coventry – e perderia pelo mesmo placar, entregando a taça ao time de Manchester.

CLASSIFICAÇÃO FINAL: 1º Manchester United (92); 2º Blackburn (84); 3º Newcastle (77); 4º Arsenal (71); 5º Leeds (70); 6º Wimbledon (65)

Manchester United (1996/97)

Líder com sobras desde o fim de janeiro (chegou a manter uma sequência de 16 jogos sem derrotas), o Manchester United deixou mais um título praticamente encaminhado ao bater o Liverpool em Anfield por 3 a 1 em 19 de abril. Com um jogo a menos, abriu então cinco pontos de vantagem sobre os próprios Scousers e o Arsenal.

Em 5 de abril, um empate em casa diante do ameaçado Middlesbrough por 3 a 3, em jogo movimentado, parecia ter sido um tropeço do United. Mas acabou se tornando o ponto do título depois que, no dia seguinte em Londres, o Liverpool perdeu para o Wimbledon por 2 a 1 e o Newcastle (outro que ainda sonhava) ficou no 0 a 0 com o West Ham.

CLASSIFICAÇÃO FINAL: 1º Manchester United (75); 2º Newcastle (68); 3º Arsenal (68); 4º Liverpool (68); 5º Aston Villa (61); 5º Chelsea (59)

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Manchester United (2002/03)

O Arsenal liderou a liga pela maior parte da temporada e parecia inalcançável na briga pelo título. Não contava, porém, com a reação espetacular do Manchester United na reta final: 15 vitórias e três empates nos últimos 18 jogos. Na 32ª rodada, os Red Devils assumiram a liderança, depois que os Gunners andaram hesitando. E na seguinte, em 16 de abril, veio o confronto direto em Highbury, que manteve o United na ponta após um empate em 2 a 2.

Três rodadas depois, veio a confirmação de mais um caneco para o time de Alex Ferguson: no sábado, 3 de maio, venceu o Charlton por 4 a 1 em Old Trafford. E no domingo, no complemento da rodada, viu o rival perder de 3 a 2 em casa para um Leeds correndo risco de rebaixamento e abrir mão de vez do título.

CLASSIFICAÇÃO FINAL: 1º Manchester United (83); 2º Arsenal (78); 3º Newcastle (69); 4º Chelsea (67); 5º Liverpool (64); 6º Blackburn (60)

Manchester United (2006/07)

Mais uma vez cumprindo campanha irretocável (28 vitórias em 38 partidas), o time de Alex Ferguson encaminhou o título no dia 5 de maio, ao vencer o clássico diante do Manchester City por 1 a 0 na casa do rival, ficando oito pontos à frente do vice-líder Chelsea (que jogaria no dia seguinte) e impressionantes 21 do terceiro colocado Liverpool.

E o título veio de bandeja justamente no complemento daquela rodada, no clássico londrino, quando os Blues não passaram do empate em 1 a 1 com o Arsenal, no Emirates.

CLASSIFICAÇÃO FINAL: 1º Manchester United (89); 2º Chelsea (83); 3º Liverpool (68); 4º Arsenal (68); 5º Tottenham (60); 6º Everton (58)

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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