Inglaterra

Steven Gerrard: mais do que apenas um ídolo, um torcedor do Liverpool

O jogo havia acabado de terminar. Sobre o gramado do Selhurst Park, Luis Suárez havia se agachado. Chorava, com o rosto escondido na camisa. O Liverpool abrira 3 a 0 contra o Crystal Palace, mas sofrera o empate e estava praticamente sem chance de ser campeão. Depois de chegar a três rodadas do fim na liderança, praticamente sem chance de quebrar o jejum de 24 anos sem um título inglês – e de fato não quebrou. Suárez era novo no clube. Havia chegado há apenas três anos. Steven Gerrard, por outro lado, nasceu na cidade e defendia aquelas cores há mais de 20 anos. Na rodada anterior, havia escorregado e poderia ser culpado pela perda do título. Tinha todos os motivos para também estar chorando. Mas não estava. Levantou Suárez, abraçou o companheiro, pediu para a câmera se afastar e o dirigiu ao vestiário. Tinha todos os motivos para estar chorando, mas estava animando os companheiros porque é isso que os capitães fazem. As lágrimas ficam para o quarto escuro. No pior momento da sua carreira, Gerrard era a imagem da serenidade. No pior momento da sua carreira, foi mais capitão que nunca.

Há uma notória foto de um pequeno Stevie com uma camisa do Everton, o grande adversário local do Liverpool. Alguns parentes estavam tentando levá-lo ao lado azul da força, mas, quando começou a entender futebol e a ouvir o pai falar sobre a história dos Reds, não teve mais dúvidas. No final da década de oitenta, já era torcedor do Liverpool e sofreu com a Tragédia de Hillsborough como o mais desafortunado deles. Jon-Paul Gilhooley, 10 anos, não era apenas a pessoa mais jovem entre as 96 vítimas do desastre, mas também primo de Gerrard. A mãe de Jon-Paul disse ao inquérito que ver o primo Steven tornar-se capitão do Liverpool teria deixado seu filho muito orgulhoso. Ver Gerrard tornar-se capitão do Liverpool deixou praticamente todos os torcedores vermelhos orgulhosos. Porque ele os representou melhor que qualquer um. Porque quem estava liderando o batalhão nas trincheiras do pior momento futebolístico do clube desde que ele se tornou um dos maiores da Inglaterra, no batuque de Bill Shankly e Bob Paisley, era um deles. Um garoto de Huyton, bairro na região metropolitana da cidade. Como escreveu um líder de torcida, apenas mais um torcedor do Liverpool que por acaso também era um dos melhores jogadores do mundo.

Foi um torcedor do Liverpool, por acaso um dos melhores do mundo, que acertou um chutaço de fora da área, aos 41 minutos do segundo tempo da última rodada da fase de grupos da Champions League de 2004/05, e marcou o gol da classificação às oitavas de final. Houve empate em pontos entre os dois times e foi esse gol que deu vantagem aos Reds no confronto direto contra os gregos. Sem esse gol, a campanha europeia teria terminado. Sem esse gol, o Liverpool não eliminaria a Juventus, não eliminaria o Chelsea, não venceria o Milan na final e não conquistaria o seu quinto título da competição. Sem esse gol, diabos, não haveria o Milagre de Istambul. Para falar a verdade, mesmo com esse gol e sem Gerrard, não haveria o Milagre de Istambul porque foi também um torcedor do Liverpool quem incendiou os companheiros, muitos deles, para ser sincero, medíocres, que haviam perdido o primeiro tempo por 3 a 0 para um time cheio de estrelas. Foi esse torcedor do Liverpool quem marcou o primeiro gol do seu time naquela partida e, sob a sua liderança, fez todos os outros acreditarem.

O palco era o Millenium Stadium, em Cardiff, um ano depois, quando um torcedor do Liverpool deu uma assistência, marcou dois gols – um deles aos 46 minutos do segundo tempo para levar o jogo para a prorrogação – e converteu a sua cobrança na disputa de pênaltis que consagrou os Reds campeões da Copa da Inglaterra pela sétima vez. Sua atuação foi tão fenomenal naquela tarde que a partida ficou conhecida como The Gerrard Final. Um torcedor do Liverpool saiu de Huyton e batizou a decisão de uma edição da competição de futebol mais antiga do mundo, do torneio mais tradicional da Inglaterra, o que se torna ainda mais significativo em uma cidade que historicamente se sente marginalizada em relação a Londres e ao establishment britânico.


O único porém da carreira de Steven Gerrard pelo Liverpool foi nunca ter conquistado um Campeonato Inglês. É possível olhar para esse fato como um fracasso. É possível, também, imaginar que os 26 anos que se passaram desde que o clube dominava a Inglaterra teriam sido muito piores sem ele. As escassas conquistas desse período, como as três Copas de 2001, a Champions League de 2005 e a Copa da Inglaterra de 2006, tiveram o seu envolvimento, em menor ou maior escala. Até poderiam ter acontecido do mesmo jeito, mas teriam sido menos saborosas para os torcedores sem um representante tão fiel em campo, lutando, liderando, marcando gols e os comemorando como se o mundo estivesse prestes a acabar. Enquanto Fernando Torres, Xabi Alonso, Javier Mascherano, Luis Suárez e outros grandes nomes deixaram Anfield para trás em busca de títulos, Gerrard ficou. Muitos clubes importantes e vencedores quiseram seu futebol. Mas ele ficou porque ali era o seu lugar. Porque, em suas palavras, ganhar “uma liga e mais algumas copas” pelo Liverpool “significaria mais do que vencer sete ou oito troféus em outro lugar” porque ele poderia dividir as conquistas com sua família e com a torcida do Liverpool, “pois eu fui um deles minha vida inteira”. Para o torcedor, essa atitude de um ídolo vale tanto quanto o maior dos títulos.

O troféu do Campeonato Inglês não veio. Foi retirado da boca do Liverpool da maneira mais cruel possível. Havia 11 homens que poderiam ter escorregado naquele fatídico jogo contra o Chelsea. Tinha que ser justamente aquele que mais manteve a cabeça erguida durante tempos difíceis? No final das contas, tinha. Era o único que poderia ser perdoado porque era o único que sentiu a mesma dor da torcida. Era o único grande o bastante para cair, em um erro tão claro e representativo, e conseguir juntar forças para se levantar novamente. E os torcedores do Liverpool entenderam isso porque, dentro das metáforas que o futebol nos apresenta, depois de anos de muitos baixos e poucos altos, já haviam aprendido com Gerrard, um dos seus, um garoto da cidade que nem eles, apenas mais um torcedor do Liverpool que por acaso também era um dos melhores jogadores de futebol do mundo, que a única coisa que se pode fazer depois de cair é se levantar e tentar de novo.

Gerrard aposentou-se, mas aposto que vai tentar de novo. Tudo indica que começará uma nova carreira como treinador e, se for bem-sucedido, como se fala de Giggs no Manchester United, por que não voltar ao clube e terminar o que começou? Há escorregões na trajetória de todo herói, assim como há a chance de redenção. O sonho do torcedor do Liverpool ainda é ver o seu capitão mais simbólico no gramado de Anfield Road, com a taça da Premier League nas mãos. Só que agora, não mais de uniforme e chuteiras, mas de terno e gravata.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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