Inglaterra

Solskjaer diz que excesso de vermelho em Old Trafford estava atrapalhando o Manchester United

O clube trocou os banners vermelhos por pretos após reclamação de alguns jogadores

Quando o futebol retornou sem torcida, após a paralisação forçada pela pandemia ano passado, havia uma questão: o que fazer com as arquibancadas? Os caminhos variaram. Houve cartazes de torcedores falsos ou telões para que os verdadeiros entrassem pela internet. Alguns departamentos de marketing perceberam que havia sido aberto um grande espaço para mais publicidade. Outros clubes alternaram as marcas com faixas da torcida. No Manchester United, isso acabou causando um problema inesperado.

Melhor time da Premier League fora de casa, se aproximando de bater o recorde de 27 jogos de invencibilidade do Arsenal, o Manchester United não tem sido tão confiável em Old Trafford. Tem a terceira melhor campanha como mandante, tendo somado nove pontos a menos do que na estrada. Entre os tropeços, há a goleada por 6 x 1 para o Tottenham e derrota para o lanterninha Sheffield United.

Os resultados foram piores no começo do campeonato. O United ganhou oito dos últimos 11 jogos em casa. E Ole Gunnar Solskjaer tomou providências para que os resultados em Old Trafford melhorem ainda mais após identificar que o excesso de vermelho nas arquibancadas estava atrapalhando os seus jogadores.

O Manchester United havia optado por cartazes de torcidas no anel superior, mas colocara banners vermelhos nas primeiras fileiras. Segundo Solskjaer, esse vermelho combinado com o vermelho dos assentos vazios estava atrapalhando os seus jogadores. Pelo mesmo motivo que os adversários usam cores diferentes: dificulta a localização do companheiro na visão periférica e aqueles passes mais automatizados, inconscientes, instintivos.

Bom deixar claro que Solskjaer não colocou todos os problemas do seu time em casa nesse detalhe, mas o mencionou como um fator que estava causando incômodo. “Você verá uma mudança agora – veja os banners ao redor do estádio. Eles não são mais vermelhos”, afirmou, ao ser questionado sobre os resultados do mata-mata da Liga Europa, em que o United ganhou fora de casa e apenas empatou em Old Trafford. “Não deveria haver uma razão, mas alguns jogadores citaram que, naquela decisão em um milésimo de segundo, tinham que olhar por cima do ombro para ver se o companheiro estava lá ou não, e aí o companheiro com uma camiseta vermelha, em um fundo vermelho, com assentos vermelhos”.

“E também, se você tem vantagem de 4 x 0 (como contra a Real Sociedad), não precisa realmente vencer: 0 x 0 foi um bom resultado. E no primeiro jogo contra o Milan, fomos vazados no último minuto”, completou.

A melhora foi anterior às mudanças na decoração de Old Trafford. Houve apenas um jogo desde a troca para banners pretos, contra o Brighton, com vitória por 2 a 1. Ela foi acompanhada de uma nova campanha contra o racismo. “Eu ainda acho que jogamos um bom futebol em casa, mas tentamos trocar (o fundo) junto com a campanha anti-racismo. Era importante que não fosse mais vermelho”, completou.

Old Trafford com banners pretos (Foto: Phil Duncan/PSI/Imago/One Football)

A declaração de Solskjaer gerou comparações com uma famosa anedota dos tempos de Alex Ferguson. Em 1996, já dominando o futebol inglês, o Manchester United chegou ao intervalo perdendo do Southampton por 3 a 0. Qual não foi a surpresa quando Eric Cantona e companhia voltaram dos vestiários no segundo tempo com um uniforme azul e branco no lugar do cinza que havia sido usado até então naquela partida.

Segundo Gary Neville, havia ciência por trás da decisão, embora isso não explique porque a troca foi feita durante o intervalo de um jogo em que o United estava sendo amassado. “As pessoas até hoje brincam que é porque estávamos perdendo, mas Sir Alex havia contratado uma professora da Universidade de Liverpool, uma especialista em visão chamada Gail Stephenson. Ela vinha duas vezes por semana”, começou, em entrevista ao podcast Quickly Kevin, em 2019.

Na opinião da especialista, termos como “ritmo de jogo” ou estar “afiado” não têm a ver com o físico, mas com a capacidade de percepção do que está acontecendo à sua volta. “Era estar alerta. Era sobre o quão rápido você consegue achar seus companheiros. Então, quando a bola chega, e você está jogando bem, você sabe para onde vai o seu próximo passe antes mesmo de começar. Isso não é uma falha física, é sobre percepção”, disse.

“Ela fez vários exercícios oculares e de alerta – para os músculos dos olhos. Ela disse que paramos de usar os músculos dos olhos quando estamos machucados, sob o ponto de vista do futebol. Você não ficava olhando para o estádio o tempo todo, não tinha sempre aquela ‘foto’ quando recebia a bola. Ela dizia para Sir Alex: ‘imagine que há uma torcida atrás de você, há cores que você consegue ver mais rápido que outras e isso se destaca mais’. É claro. É o motivo pelo qual as pessoas usam amarelo vivo na estrada. Elas não usam cinza. Ela dizia: ‘Não está certo, os jogadores não vão achá-la (a camisa cinza) em um estádio lotado tão rapidamente quanto outras cores’.”.

“Isso é algo que vinha rolando há meses. Ele havia rejeitado esse uniforme meses antes. A especialista em visão começou a trabalhar com a fabricante em um uniforme que se destacasse mais. Havia um pouco mais de ciência por trás do que ‘o treinador não gostava do uniforme e era por isso que estávamos perdendo’”, terminou.

Com o uniforme novo, o United descontou, mas acabou perdendo do mesmo jeito, por 3 a 1 – e foi campeão inglês do mesmo jeito mais tarde.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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