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Discutindo futebol, religião e dinheiro

O Newcastle foi o centro de uma grande polêmica nos últimos dias. Os Magpies anunciaram o acerto pelas próximas quatro temporadas com um novo patrocinador. Dobrando os ganhos do clube com publicidade na camisa, os novos investidores prometem apostar nas categorias de base e, mais que isso, extinguirão os naming rights do St. James Park. Medidas populistas, que tinham tudo para agradar os torcedores, mas que acabaram bombardeadas pela opinião pública. A empresa “Wonga.com” atua no setor de empréstimos – uma “agiotagem legalizada”, segundo os críticos.

O problema, no entanto, não deve se limitar apenas aos bastidores do Newcastle. Ele também pode influenciar dentro de campo. Incontestáveis no time, Papiss Cissé, Demba Ba, Cheick Tioté e Hatem Ben Arfa compõem o grupo de jogadores muçulmanos do elenco de Alan Pardew. E, segundo a Sharia (código de leis do islamismo), os praticantes da religião não podem se beneficiar ou realizar empréstimos financeiros.

Logo após a assinatura do contrato, o Conselho Muçulmano Britânico (MCB) emitiu um comunicado alertando os quatro jogadores. Vestir as camisas com o patrocínio da Wonga.com seria uma violação aos princípios do islamismo.

“Há dois aspectos sobre o tema. Temos a lei religiosa e a decisão individual da maneira como eles vão segui-la. A ideia é proteger os necessitados da exploração dos poderosos. Quando eles fazem empréstimos, significa que o pobre terá benefício de curto-prazo para um empréstimo que penará para pagar. O sistema islâmico se baseia em transações sem interesse”, apontou o Xeque Ibrahim Mogra, um dos líderes do MCB.

A situação é parecida com a vivenciada por Frédéric Kanouté. O atacante se recusou a atuar com o logo de um site de apostas na época em que defendia o Sevilla. Diante da possibilidade de perder um dos principais jogadores do elenco, os andaluzes autorizaram o malinês a utilizar uma camisa sem a marca.

O patrocínio só começa a vigorar a partir da temporada 2013/14, o que dá tempo ao Newcastle negociar com ambas as partes. A diretoria dos Magpies precisa ponderar o que vale mais: contar com apenas sete jogadores ostentando a marca em campo ou correr o risco de perder o quarteto, responsável por 42 dos 59 gols do time na Premier League em 2011/12 e em 2012/13.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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