Futebol inglês

Allan no City: ‘Esse sempre foi um dos grandes diferenciais dele’, elogia ex-técnico

Entre altos e baixos na base, conselhos de antigos companheiros e atuações que chamaram atenção na Europa, Allan construiu no Palmeiras o caminho que o levou ao Manchester City

Allan foi negociado com o Manchester City e será mais um brasileiro na história dos Citizens. O atleta, cria da base do Palmeiras, despertou interesse no clube inglês e foi vendido por 40 milhões de euros (R$ 240,5 milhões). Com isso, o jogador se tornou a maior terceira venda do Palmeiras, atrás apenas de Estêvão, negociado com o Chelsea por 61,5 milhões de euros, e Endrick, vendido ao Real Madrid por 60 milhões de euros.

Com isso, o jogador vem comprovando a grande capacidade do Palmeiras em revelar atletas nos últimos anos. Allan defendia as cores palmeirenses desde 2019, chegando para a categoria sub-14 do clube. Nascido em Florianópolis, em Santa Catarina, o jovem defendia o Figueirense, mas acabou captado pelo Alviverde devido ao bom desempenho.

Na equipe paulista, Allan conseguiu ainda mais destaque, subindo nas categorias inferiores, até chegar ao profissional. No elenco alviverde, uma ascensão meteórica. Em pouco mais de um ano no profissional, o jovem virou titular absoluto, marcou nove gols e deu 12 assistências.

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Lucas Andrade foi o primeiro treinador de Allan no Palmeiras e conheceu o jogador em 2019, quando ele chegou para integrar o sub-15 da equipe paulista. O técnico conversou com a reportagem da Trivela e compartilhou a origem de uma das maiores revelações do futebol brasileiro nos últimos anos.

— Ainda era bastante franzino, mas já demonstrava um talento muito evidente e uma capacidade de desenvolvimento físico bastante relevante. Era nítido que ele tinha potencial para evoluir nesse aspecto. Foi um ano bastante positivo para a geração. Tínhamos vários jogadores que deram sequência depois, como o Giovani, que posteriormente foi campeão da Copa São Paulo e que também fazia parte daquela equipe. O Allan era o camisa 10 daquele time — explicou Lucas Andrade em entrevista.

Allan pelo Palmeiras. Foto: IMAGO / Sports Press Phots

Características demonstram diferencial de Allan

Desde que iniciou sua trajetória, Allan já era um jogador diferenciado. Habilidoso, driblador e ousado. Essas características chamavam a atenção de quem via o atleta jogar e davam a certeza de que ele poderia ser um grande nome no futuro. O garoto tinha uma capacidade muito boa de, quando sofria o contato de um adversário, conseguir sustentar esse contato e manter a posse.

— Do ponto de vista técnico, isso é muito relevante para um jogador de frente, seja um meia ou um ponta. Então, entendo que esse sempre foi um dos grandes diferenciais dele. Pessoalmente, sempre foi um jogador muito corajoso e valente. Nunca se intimidava diante de nenhum adversário, e isso era muito legal de observar. Naquela fase, eu também variava bastante a posição dele. Ele jogava pelo centro, atuava pelos lados e, dessa forma, também mostrava uma versatilidade que considero outro diferencial importante — analisou Andrade.

Inclusive, essa versatilidade foi algo bastante positivo no desenvolvimento do jogador. Meia de origem, ele também podia atuar tanto pela ponta esquerda quanto pela direita, adaptando-se de acordo com o adversário enfrentado. Em partidas contra adversários de nível mais baixo ou médio, o atleta atuava como meia.

Já em partidas de alto nível, Allan era utilizado pela ponta, para ter um pouco mais de força e combatividade. No entanto, independentemente da posição utilizada, o atleta sempre conseguia se destacar. Naquele ano de 2019, ele foi eleito o melhor jogador de um torneio na Coreia do Sul, em uma competição na qual o Palmeiras enfrentou o Borussia Dortmund na semifinal.

— Também disputamos um torneio da Premier League, em que enfrentamos o Chelsea, em um jogo de altíssimo nível, e o Allan foi, disparado, o destaque da partida. Ele sempre teve essa capacidade de alternar entre atuar pela extremo e jogar como meia, mostrando que conseguia desempenhar bem as duas funções — disse Andrade.

Altos e baixos fizeram parte da carreira de Allan no Palmeiras

Diferente de casos como Endrick e Estêvão, que pularam etapas para chegar aos 16 anos no elenco principal, Allan cumpriu todas as etapas da base do Palmeiras. Após ser treinado por Lucas Andrade no sub-15, o atleta voltou a reencontrar o treinador apenas no sub-20. Neste período em que disputou o sub-16 e sub-17, Allan viveu altos e baixos. No entanto, soube ter resiliência e paciência para se adaptar e conseguir manter o nível.

— O Allan chega ao sub-20 já não tão valorizado quanto estava quando veio para o sub-15. Ele faz um primeiro ano, aos 17, bom, mas depois enfrenta um segundo ano mais difícil. Quando chegou ao sub-20, portanto, já não estava na mesma prateleira de alguns outros jogadores, inclusive mais novos, que tinham uma valorização externa muito grande, como o Luis Guilherme e o Endrick, além do Estêvão, que era um pouco mais novo, mas também acabou encontrando o Allan nessa categoria — contou Andrade.

O acompanhamento próximo de comissões técnicas com jogadores jovens vale também, claro, para o extracampo. No caso de Allan, Andrade precisou orientar o garoto em comportamentos para que atingisse todo o seu pontecial.

— Algumas vezes precisei controlar alguns ímpetos naturais de quando se é jovem. Ele também queria viver a vida dele, como qualquer garoto, mas precisava entender que era um atleta e que algumas responsabilidades vinham junto. Em alguns momentos, precisamos intervir, principalmente em relação aos cuidados pessoais e à parte atlética. O Allan sempre teve uma genética muito favorável, e isso era algo natural para ele, mas nós sempre dizíamos: “A genética te leva até um ponto. A partir dali, precisa ter trabalho, entrega e cuidado — completou o treinador.

Allan pelo Palmeiras. Foto: IMAGO / Fotoarena

Durante sua formação, Allan teve contato com atletas profissionais e contou com o apoio de Andrade para crescer. O treinador relembrou um momento envolvendo Raphael Veiga, atleta multicampeão com o Palmeiras.

Segundo o treinador, ele havia acabado de assumir a equipe sub-20 e, na véspera de uma decisão contra o Flamengo, convidou Raphael Veiga, com quem tinha trabalhado em 2012 e 2013, para conversar com Allan. Lucas explica que ambos os jogadores possuíam histórias e carreiras parecidas, e a conversae poderia ser um diferencial para o garoto.

— A parte engraçada é que, durante o treino, Veiga brincou comigo: “Mas o Estêvão não é o fera? Não é o Estêvão que é o cara?”. E eu respondi: “Não, o Estêvão, não tem nem o que falar, mas ele não precisa de você. Quem precisa de você nesse momento é o Allan”. No final do treino, o Allan subiu, deu um abraço no Veiga e eu compartilhei rapidamente a história entre os dois. Eles conversaram, trocaram algumas ideias e, naquele momento, o Veiga deu a chuteira dele para o Allan. Ele acabou jogando a final com aquela chuteira — relembrou Lucas.

Allan pelo Palmeiras. Foto: IMAGO / justpictures.ch

Allan chegará ao Manchester City em meio à reformulação com a saída de Pep Guardiola. Novo treinador, novos jogadores, outros aletas saindo, uma nova era. O histórico de brasileiros no City é positivo ainda mais ao lembrar da história de nomes como o goleiro Ederson e o volante Fernandinho, além do atacante Gabriel Jesus, também ex-Palmeiras.

A disputa por posições no ataque dos Citizens é acirrada, mas a joia brasileira já mostrou que tem futebol suficiente para provar à Europa que mereceu chegar em um dos principais clubes do continente.

Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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