Inglaterra

Presente de despedida de Shankly, Ray Kennedy foi engrenagem fundamental da máquina de títulos do Liverpool

Também campeão pelo Arsenal, Ray Kennedy morreu aos 70 anos após uma longa batalha contra o Mal de Parkinson

Em 12 de julho de 1974, uma sexta-feira, o Liverpool Echo recebeu uma ligação do secretário do Liverpool, Peter Robinson, avisando que haveria uma entrevista coletiva “muito importante”. Mensagem enigmática. O tom não se adequava às especulações daquela semana de que o atacante Ray Kennedy, do Arsenal, seria contratado. Parecia algo maior e no fim era algo muito maior: Bill Shankly estava de saída. Logo depois do anúncio, quase um “ah, a propósito”, Kennedy foi confirmado como a última contratação do treinador que revolucionou a história dos Reds. Um presente de despedida que seria uma das principais peças do sucesso dos anos seguintes sob o comando de Bob Paisley, responsável por encontrar a posição em que o jogador mais brilharia.

Kennedy morreu aos 70 anos na última terça-feira, após uma longa batalha contra o Mal de Parkinson. Conquistou a Taça das Feiras e a Dobradinha nacional com o Arsenal antes de ser contratado por £ 200 mil pelo Liverpool, na época um valor recorde para o clube. O centroavante se transformou em meia esquerda com Paisley, foi mais cinco vezes campeão inglês e tricampeão europeu, com participação importante em momentos marcantes dessas campanhas, como nas quartas de final do primeiro título contra o Saint-Étienne e na semifinal de 1981 contra o Bayern de Munique.

Ainda na época de Liverpool e na reta final da sua carreira, por Swansea e Hartlepool United, Kennedy sentiu os primeiros sinais de Parkinson, especialmente a maneira como ficava extremamente cansado após as partidas. Foi diagnosticado em 1984 e teve um fim de vida complicado. Perdeu seu negócio (era o locatário de um pub), o casamento e precisou de ajuda da Associação dos Jogadores Profissionais para financiar o tratamento. Foi um embaixador pela conscientização da doença que o afligiu, o que lhe permitiu ter uma relação com Mohammed Ali, que também sofreu com Mal de Parkinson.

Foi descoberto pelo Port Vale, convencido a assinar pelo próprio Stanley Matthews, na época treinador do time da quarta divisão, na época em que nomes como Stanley Matthews treinavam times da quarta divisão, mas não ficou muito tempo por lá. Retornou a Northumberland, onde nasceu, e acertou com o Arsenal em 1968. Tornou-se titular na virada da década e teve papel decisivo nos títulos conquistados pelo time de Bertie Mee. Ele marcou o gol crucial no jogo de ida da final da Taça das Cidades com Feiras contra o Anderlecht, derrota por 3 a 1, que permitiu que o título viesse com o 3 a 0 em Highbury uma semana depois.

No ano seguinte, foi dele o único gol da vitória por 1 a 0 sobre o Tottenham que selou o título do Campeonato Inglês, o primeiro do Arsenal em 18 anos. Ainda levou a Copa da Inglaterra naquela temporada, mas foi perdendo um pouco de espaço e saiu para o Liverpool ao mesmo tempo em que Brian Kidd chegou do Manchester United, que havia acabado de ser rebaixado. Teve um começo complicado em Anfield, sofrendo para se adaptar ao regime mais rígido do Liverpool em comparação com as liberdades que tinha no Arsenal, mas explodiu quando Paisley se lembrou de um comentário de um antigo treinador de Kennedy nos tempos de escola. Northumberland é quase da mesma região de Helton-le-Hole, onde Paisley nasceu.

O comentário era meio simples: Kennedy havia sido meio-campista na escola, e Paisley, diante das dificuldades pelas quais o atacante passava (inclusive os primeiro sinais de Parkinson, embora ele não fizesse a menor ideia do motivo), não viu razão para não tentar. Kennedy sofreu defensivamente nos primeiros jogos, mas após alguns ajustes táticos, ganhou confiança e durante meia década não saiu mais do time – entre 1976 e 1981, perderia apenas cinco jogos do Campeonato Inglês. Formou um meio-campo histórico com Terry McDermott, Graeme Souness e Jimmy Case, seu grande amigo e parceiro de bebedeiras.

O grande momento de Kennedy foi no jogo mais importante da campanha do primeiro título europeu. O Liverpool recebeu o Saint-Étienne, então tricampeão francês e vice da Europa que havia vencido o jogo de ida por 1 a 0. Kevin Keegan abriu o placar, mas Dominique Bathenay empatou. Os Reds precisavam de dois gols para passar às semifinais. Kennedy marcou e depois deu assistência para o super-substituto David Fairclough, cujo gol levou a Kop, principal arquibancada de Anfield, a uma explosão sem precedentes. “Era – e talvez ainda seja – o maior clima e momento específico que a Kop já testemunhou”, escreveu o clube em seu site oficial.

Kennedy também marcou seu nome nos livros de história no terceiro título europeu do Liverpool, ao fazer o gol de empate em Munique contra o Bayern que valeu a classificação à decisão em Paris, onde ele cobrou o lateral para o tento decisivo do seu quase xará, Alan Kennedy, contra o Real Madrid. Foi vendido ao Swansea em 1982, após uma queda de rendimento e com problemas de comportamento, com saudade do amigo Case, que havia saído para o Brighton, e pouco depois da morte de Shankly. Jogou o suficiente na temporada 1981/82 para levar sua última medalha de campeão da Inglaterra.

Ao todo, foram 71 gols em 212 jogos pelo Arsenal e mais 72 tentos em 393 partidas pelo Liverpool, com seis títulos ingleses, uma Copa da Uefa, uma Taça das Cidades com Feiras e uma Copa da Inglaterra. “Na minha visão, ele foi um dos maiores jogadores do Liverpool e provavelmente o mais subestimado”, sentenciou Paisley em sua autobiografia.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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