Steven Caulker: um relato cru de vícios, alcoolismo e depressão
Steven Caulker teve muitas chances no futebol inglês. Surgiu no Tottenham, passou pelo Cardiff e chegou ao Queens Park Rangers. Foi emprestado a Swansea, Southampton e Liverpool. Tem 123 jogos de Premier League na carreira e um talento, segundo muitos dos seus treinadores, fora do comum. Disputou a Olimpíada de Londres e tem apenas 25 anos, mas a sua carreira não prosseguiu da maneira que se esperava. E todos os problemas estão na cabeça.
LEIA MAIS: A forte carta que, olhando para o passado, Rio Ferdinand endereçou a ele mesmo com 12 anos
Caulker sofre de depressão. Durante anos, mascarou a ansiedade com álcool. A ansiedade de uma partida ruim, de uma derrota pesada, ou de uma noite particularmente ruim em cassinos, uma vez que também é viciado em apostas. Infelizmente, como muitos que sofrem da mesma doença, precisou chegar ao fundo para buscar ajuda. Contemplou o suicídio, mas foi ancorado pelo filho.
Está medicado, indo a reuniões de Alcoólatras e Apostadores Anônimos. Viajou com a namorada para a África e a Índia para ajudar em orfanatos. Tudo parte do processo de recuperação, assim como a entrevista que deu ao Guardian, com um relato cru de tudo que passou e de todas as besteiras que fez nos últimos anos em função da sua doença.
O próximo passo é voltar a jogar. Depois de poucos minutos em Southampton e Liverpool, voltou ao Queens Park Rangers e começou bem a temporada, com 13 partidas como titular nas primeiras 15 rodadas da segunda divisão. Mas atuou muitas dessas vezes machucado e uma hora teve que parar, sendo mais uma vez empurrado ao ostracismo. Não entra em campo desde outubro e está com o futuro indefinido.
“Eu fiquei sentado por anos me odiando e nunca entendi por que eu não conseguia simplesmente ser como as outras pessoas. Este ano foi quase o fim. Eu senti, muitas vezes, que não havia luz no fim do túnel. Ninguém compreendia o que estava acontecendo na minha cabeça. O Southampton havia me contratado para fazer um trabalho e eles não eram minhas babás. A mesma coisa no QPR. Eu precisava justificar o dinheiro que estavam me pagando, mas eu estava em um estado que, em algum ponto, precisa haver uma certa responsabilidade. O futebol não lida bem com doenças mentais. Talvez isso esteja mudando, mas os mecanismos de apoio frequentemente não estão ali. Conversei com muitos jogadores que ouviram que deveriam ir a uma clínica e eles se recusaram porque sabem que, se tirarem uma licença, vão perder o lugar no time. Alguém aparecerá e jogará bem, e você já era. Isso atrapalha as pessoas a pedirem ajuda. Você se sente obrigado a seguir em frente com as coisas.
Eu apelo aos jogadores que conversem com a PFA (Associação de Jogadores Profissionais), que conversem com seus treinadores e não tenham medo de sair do time se estiverem se sentindo como eu me senti. Tenha a coragem de dizer que você precisa de ajuda antes de ser tarde demais. A angústia… eu sempre precisei de algo para aliviar. Futebol era a minha escapatória quando era criança, mas isso mudou quando eu subi para o time profissional, ainda adolescente, e, de repente, o futebol vinha com pressão. O meu jeito de lidar com isso, mesmo no começo da minha carreira, era apostando. Sou um viciado. Sou viciado em vencer, o que as pessoas dizem que é positivo no futebol, mas certamente não é quando isso se estende às apostas. Eu era viciado em tentar vencer o sistema porque você se convence de que há um sistema e de que você pode vencê-lo. Você nunca consegue perceber por que não está.
As noites em claro, sentado na cama até às cinco horas da manha, repassando cada decisão ruim que eu já fiz na vida, me preocupando com qual será a próxima… o Tottenham me enviou por empréstimo para o Bristol City, aos 18 anos, e me colocaram em um apartamento no centro da cidade, cercado por clubes noturnos, dois cassinos, com o tipo de dinheiro que eu nunca havia visto na minha vida, e sem nenhuma orientação. Fui abordado por um dos funcionários uma vez e ele me disse que eu fui visto em um cassino, às três da manhã, mas a atitude foi: “O que você faz no seu tempo livre é problema seu. Apenas não deixe que isso afete seu desempenho”.
“No Swansea, um ano mais tarde, foi uma lesão que trouxe tudo à superfície, e os Spurs me enviaram para a Sporting Chance (clínica de apoio a jogadores) para eu resolver minhas coisas enquanto eu me recuperava do joelho, mas eu não estava pronto. Ainda não havia passado por dor suficiente para querer parar. Eu estava apostando muito quando retornei ao Tottenham, ficando acordado até altas horas nos cassinos. Acho que nunca me sentir bem o suficiente teve um papel grande nisso. Eu nunca senti que estava no mesmo nível de nenhum dos meus companheiros de time, mas uma grande vitória no cassino e dinheiro no meu bolso poderia mudar isso. Sair do time me abalava ainda mais porque foi sempre no futebol que eu me apoiei para me sentir melhor. Então, apostava todos os dias. A dor de perder todo meu dinheiro, combinada com a vergonha e a culpa, me comia vivo. Então, eu bebia até ficar inconsciente para não ter que sentir nada. Eu estava entorpecido e fora de controle.
O presidente do Tottenham, Daniel Levy, falou comigo em uma viagem de pós-temporada. Ele só disse: “A maneira como você age é inacreditável. Ou você resolve isso ou vai embora, e eu garanto que, se você sair, você vai para baixo, não para cima”. Eu era jovem, estúpido, eu tomei isso como um desafio, uma chance de provar que ele estava errado. Eu era muito imaturo. Eu fui para o Cardiff e, por seis meses, tudo foi maravilhoso. Eu era capitão, o técnico Makly Mackay sabia que eu tinha alguns problemas, mas se ofereceu para estar ao meu lado. Eu me senti querido, então não houve apostas, nenhuma grande bebedeira, mas, no segundo que ele foi demitido, todos os demônios voltaram. Só precisou disso. Mesmo antes de jogar a próxima partida, eu já estava convencido de que nada seria igual. Esse é o tipo de pensamento catastrófico com o qual eu precisava lidar.
Acabei indo para o QPR naquele verão, em 2014, tentando me manter inteiro, mas o gatilho veio no segundo jogo, quando fomos goleados por 4 a 0 pelo Tottenham. Aquele sentimento saindo do gramado de White Hart Lane, sabendo que havíamos sido humilhados e que Levy estava sentado lá em cima pensando: “Eu avisei…”. Não havia mais como negar. Eu havia feito um grande erro ao sair do Tottenham. Eu deveria ter ficado e resolvido minhas coisas. Eu queria que o chão me engolisse. Fica martelando na minha cabeça: arrependimento, arrependimento, arrependimento. Depois disso, eu já era, mesmo se não quisesse aceitar, e tudo só piorou. Eu passava dias sem dormir. Não sei como eu sobrevivi. Aquele ano foi um verdadeiro pesadelo.
Era um círculo vicioso. Nós perdíamos no fim de semana e os torcedores xingavam e eu estava quebrado. Eu queria nos ajudar a conseguir resultados, mas não éramos bons o suficiente, então eu assumia a responsabilidade na minha cabeça por todas as falhas do time. Eu não conseguia dormir, preocupado com o que estava acontecendo. O único alívio era a bebida. Silenciava as vozes de dúvida e alto-flagelo, temporariamente, mas eu ficava intoxicado demais para treinar e os apagões… eu não tinha memória de nada. Eu treinava na segunda-feira sem nenhuma memória do que havia acontecido desde a noite de sábado. Eu acordava, olhava meu celular e havia mensagens de pessoas dizendo: ‘Você realmente fez isso na noite passada?”. O treinador queria me ver e eu estava aterrorizado porque não sabia o que havia acontecido.
De vez em quando, eu sentava com a polícia e com meu advogado, vendo as imagens do que eu havia feito, e eu não me reconhecia. Eu não acreditava na pessoa que eu era. É difícil de aceitar que eu poderia ser daquele jeito. Em Liverpool, eu acordava no meio da noite vomitando, as pessoas me chantageavam, donos de casas noturnas: “Pague dinheiro ou vamos vender essa história sobre você”. E eu não fazia nem ideia do que havia feito durante os apagões. Eu eventualmente disse ao clube que eu não poderia funcionar e precisava voltar para a reabilitação.
Eu havia custado £ 8 milhões ao QPR, era um dos salários mais altos e um dos poucos remanescentes da Premier League, e as pessoas não conseguiam explicar por que eu não jogava bem. Por que eu estava ausente. Acabou sendo meu ano mais difícil. Eu não conseguia treinar. Minha namorada perdeu a mãe e estava em luto enquanto vivia com alguém sofrendo com seus vícios. Meu filho, que vive com a mãe em Somerset, está na escola e eu passava meses sem vê-lo. Ele sempre havia sido meu porto seguro. Não havia alívio.
O QPR e meu agente tentaram me vender para o Lokomotiv Moscou, em janeiro, dizendo que seria um recomeço. Parte de mim pensou que o dinheiro que estavam oferecendo poderia resolver todos os meus problemas, mas não me ajudaria nada ficar sozinho na Rússia. Eu não sabia como quebrar o ciclo e estar em Moscou, ainda machucado, parecia a receita do desastre. O técnico, Ian Holloway, estava me dizendo para ficar. Eu sentava no escritório dele, quase chorando, e ele dizia: “Como alguém pode pensar que enviá-lo para lá seria uma boa ideia foge da minha compreensão. Você precisa resolver seus problemas”. Eu gostei disso, mas, para o clube, eu consigo ver porque eles queriam se livrar de mim, mas eu não estava em um estado para me transferir e eventualmente puxei o plugue.
Eu fiz uma última aposta e perdi muito dinheiro em dezembro. Um último golpe. Foi naquele momento que eu aceitei que não conseguia vencer, que não havia uma solução rápida, mais nenhum sonho de que poderia salvar o mundo com uma boa noite na roleta. Foi tudo uma fantasia que me dispensava de ter que sentir qualquer coisa. Eu contemplei muito o suicídio naquele período. Um momento obscuro. Tudo que eu havia passado no futebol, para onde me levou? Toda a culpa, a vergonha, a humilhação pública nos jornais… e para quê? Eu poderia me ancorar no meu filho, no que havia feito na África, nas propriedades que comprei para minha família, mas eu havia queimado todo o resto. Eu acho que perdi 70% do que ganhei. Quando você perde tanto dinheiro assim, toda a culpa… todas as vidas que você poderia ter mudado. Não havia escapatória, nenhuma saída além de “sair”.
Mas, nos momentos de clareza, eu sabia que não poderia fazer isso por causa do meu filho. Eu não havia apostado desde então, mas a bebida preencheu o vácuo por um tempo. Eu estava com medo e não achava que havia mais alguma coisa a fazer. A reabilitação não havia funcionado, então por que funcionaria agora? Eu estupidamente busquei conforto na bebida, mas acabou aprofundando minha depressão. Era implacável, de qualquer ângulo. Até 12 de março. Este foi o dia em que eu perdi minha carteira de habilitação. Foi quando eu percebi que minha vida havia ficado incontrolável.
Eu sabia que estava além do limite. Sabia que seria proibido de dirigir, mas não queria dizer pros meus pais que eu havia feito besteira. E se eu tivesse matado alguém? Não, era isso. Eu havia ficado frente a um juiz quatro ou cinco vezes. Não há mais segundas chances. Na próxima, eu seria preso. Eu ainda estava machucado e não podia jogar, então eu pedi uma licença médica. Eu fui ver um especialista que me diagnosticou com depressão e ansiedade. Ele me prescreveu medicamentos e fizemos um plano, no qual eu tiraria um tempo para me descobrir.
As pessoas dizem que eu fiz tudo isso porque eu tinha muito dinheiro, mas eu conheço adolescentes sem um tostão que têm os mesmos vícios. Tivesse eu jogado futebol ou não, eu ainda sofreria da mesma doença, mas sem a pressão pública e a humilhação. O vício não liga para isso. Eu sou um homem de extremos. Eu estou fazendo pequenas coisas para me lembrar de ficar no caminho certo. Eu poderia estar usando táxis enquanto não posso dirigir, mas estou usando transporte público. Estou vivendo em uma das casas das quais sou dono, em Feltham, onde eu cresci, para me lembrar do quanto eu trabalhei para sair daqui aos 15 anos. O dinheiro cobre suas pistas. Pode ser cruel. Prolonga a agonia.
O que acontece daqui para frente ainda é um pouco incerto. O treinador (do QPR) me enviou várias mensagens oferecendo apoio e dizendo que me quer no clube, mas meu novo agente foi informado pelos donos de que eu não sou bem-vindo.
Por muito tempo, eu odiei tudo sobre mim e queria aprender a me amar novamente. Eu sinto muita falta do futebol. Acho que não me divirto jogando desde o Cardiff. Eu não quero pesquisar meu nome no Google e ver uma lista de histórias humilhantes. Eu quero que as pessoas lembrem que sou um jogador bom o bastante para representar o seu país aos 20 anos e ainda tem dez anos no jogo. Com 40% da minha habilidade, eu estava jogando no primeiro nível. Agora, eu me sinto bem mentalmente e quero a chance de mostrar às pessoas, inclusive ao meu filho, o que eu realmente posso fazer. Quando uma oportunidade aparecer, eu estou apenas grato de estar vivo.”



