Premier League

A renovação de Pochettino traz ainda outros reflexos positivos ao futuro do Tottenham

Em uma equação entre bons resultados, ideias interessantes e idade para prosperar, Mauricio Pochettino certamente se coloca na primeira prateleira entre os principais técnicos do futebol mundial. O trabalho no Tottenham fala por si. A estadia do argentino no norte de Londres é um misto de ótimas campanhas (independentemente da falta de títulos), coragem para lançar jogadores, bom trato para evolui-los, futebol ofensivo e capacidade tática. O comandante chegou a White Hart Lane em 2014, mas é possível dizer que já existe um antes e um depois no clube desde sua contratação. Não à toa, vários times cresceram os olhos nos serviços do treinador de 46 anos, em especial o Real Madrid. No entanto, o compromisso com os Spurs se reitera. Nesta quinta, os londrinos anunciaram a renovação de seu mentor pelas próximas cinco temporadas, até 2023. Não garantem apenas a longevidade ao projeto, como também demonstram a sintonia interna. Os reflexos são importantes.

“Estou honrado de ter assinado um novo contrato de longo prazo, enquanto nos aproximamos de um dos períodos mais significantes na história do clube, para ser o técnico que liderará este time ao novo estádio. É apenas um dos fatores que fazem este um dos trabalhos mais empolgantes do mundo do futebol. Estamos criando planos para assegurar que continuaremos construindo um grande trabalho. O presidente Daniel Levy e eu conversamos sobre nossas ambições dentro do clube. Compartilhamos a mesma filosofia em atingir um sucesso de longo prazo, sustentável. É um clube especial. Sempre nos esforçamos para sermos criativos na forma que trabalhamos dentro e fora de campo. Continuaremos com nossos princípios para atingir o patamar que o clube merece”, declarou.

Pochettino tinha contrato com o Tottenham até 2021. A ampliação significa um aumento salarial, claro, algo natural diante da valorização que o treinador recebeu nos últimos meses – segundo o Guardian, receberá anualmente £8,5 milhões. Ainda assim, não é uma questão meramente financeira, indicando como a relação pode perdurar por outros fatores. Há um planejamento de longo prazo sendo desenvolvido internamente, até pelas novas ferramentas que os Spurs ganham, sobretudo com o novo estádio. Existe uma mentalidade arraigada e, considerando a juventude do elenco, o grau de maturidade aumenta para as próximas campanhas.

A renovação de Pochettino, além do mais, é um sinal positivo para o próprio elenco. Os jogadores podem ter certeza que continuarão evoluindo sob a mesma filosofia que privilegia o ataque, que possui intensidade e que respeita a qualidade individual de cada um. Há outros clubes também de olho nos talentos dos Spurs, e possivelmente um ou outro sairá, como ocorreu no caso de Kyle Walker. Ainda assim, há mais motivos para que a base se mantenha, tentando aumentar o sarrafo do que já conseguiu. Com regularidade e sequência, dá para sonhar mais alto na Champions e na Premier League.

Presidente dos Spurs, Daniel Levy reiterou a sua postura, explicando um pouco os motivos na renovação: “Estamos em uma jornada extraordinária e os tempos à frente parecem ainda mais empolgantes, quando o clube entrará nesta nova fase de sua história. Mauricio fomentou um espírito incrível na equipe e adotou um estilo de jogo que nossos torcedores amam assistir. Eu sei que eles vão receber bem este compromisso renovado”.

O maior ponto de atrito entre Pochettino e a alta cúpula do Tottenham se dava na política quanto ao mercado de transferências. O treinador possui um orçamento para contratações claramente menor que os concorrentes, em balanços financeiros nos quais as compras pouco excedem as vendas. Desde 2014, os londrinos gastaram £292,11 milhões em novos jogadores e receberam £259,05 pelas vendas. O balanço é de £36,74 milhões negativos, mísera fração quando comparado à maioria absoluta dos concorrentes – outros 20 clubes que passaram pela elite no período “assumiram riscos maiores”, com balanços bem mais negativos, dez deles acima dos £100 milhões (veja a tabela abaixo). A construção do novo estádio se coloca como uma barreira aos investimentos dos Spurs em reforços. Ainda assim, o argentino não se furtou a questionar publicamente a posição, após a rodada final da Premier League.

“Repito que me sinto 100% aqui, mas amanhã tudo pode mudar, porque as coisas não estão em minhas mãos. Eu tenho ideias claras sobre o que precisamos fazer. Eu não sei se o clube concordará comigo. Iremos falar na próxima semana para criar um novo projeto. É mais se Daniel e o clube entrarão em concordância conosco. Se quisermos ser reais candidatos aos grandes troféus, precisamos rever um pouco o cenário. Precisamos criar sonhos que são possíveis de alcançar. Talvez estejamos um pouco desapontados porque passamos muito perto dos troféus. Acho que Daniel vai me ouvir. Você precisa ter coragem, tomar decisões arriscadas. Acho que esse é um momento em que o clube precisa assumir os riscos e tentar trabalhar mais duro para ser competitivo”, apontou o treinador.

Ao que tudo indica, o Tottenham adotará uma postura mais agressiva no próximo mercado. Pelas especulações, pode perder jogadores importantes. Mas não irá apenas atrás de jovens, que renderão lucros na revenda, e sim de atletas tarimbados que realmente possam manter a qualidade ou dar um salto. Além disso, alguns protagonistas tendem a renovar os seus contratos, diante das perspectivas com a permanência ampliada de Pochettino. A maré favorece os Spurs e o horizonte está aberto.

Balanço financeiro no mercado de transferências da Premier League entre 2014/15 e 2017/18. Dados do site especializado Transfermarkt:

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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