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O relato carnal do irmão de uma vítima de Hillsborough sobre o sentimento de justiça

Na última semana, as famílias das 96 vítimas da tragédia de Hillsborough conquistaram uma vitória. O Serviço de Acusação da Coroa denunciou criminalmente seis pessoas, responsabilizando-as pelo desastre ocorrido em 15 de abril de 1989. Dá sequência a uma luta por justiça que se estende ao longo de 28 anos e que, a partir de 2012, ratificou a inocência dos mortos, assim como provou a negligência das autoridades durante o caos ocorrido nas arquibancadas.

Diante do acontecimento, o jornal The Guardian publicou um forte texto escrito pelo irmão de uma das vítimas. Martin Thompson tinha 19 anos e foi ao estádio acompanhado pelo irmão Stuart, dois anos mais jovem, que faleceu naquela tarde. Relato carnal, que ajuda a dimensionar importância dos eventos recentes, bem como o sentimento que perdurou nos familiares e sobreviventes, diante da injustiça que os deixava de mãos atadas.

SAIBA MAIS: Após 28 anos de luta por Justiça, seis pessoas são denunciadas pela tragédia de Hillsborough

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Na noite da última terça-feira, enquanto eu estava indo para a cama, pensava sobre a decisão de denunciar seis pessoas ligadas ao desastre de Hillsborough. Eu pensava nestas pessoas, esperando a decisão que viraria suas vidas do avesso e a ansiedade que estavam sentindo.

Eu passei várias noites sem dormir durante os últimos anos, por causa de Hillsborough. Durante o inquérito, na noite anterior ao meu depoimento, eu acordei chorando – as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu não conseguia nem lembrar sobre o que sonhava. Apenas me sentei na cama chorando.

Algum deles já pensou em mim e nas outras famílias ao longo dos últimos 28 anos? Será que eles já imaginaram o que é para um garoto de 19 anos ligar para a sua mãe e dizer a ela que o filho mais novo não voltaria para casa depois de uma partida de futebol? A ansiedade que eles sentiam era próxima à minha, antes de ter que identificar o corpo do meu irmão?

Eu pensei de volta no inquérito. Eu vi esses homens. Quando eu olhei para eles, não me lembravam os homens que eu vi em 1989. Os uniformes. A maneira como eles ficaram em Leppings Lane com Margaret Thatcher no dia seguinte – falando com ela, dando a versão deles sobre a história. Durante o inquérito, eles eram velhos e a arrogância foi dissipada diante das mentes muito superiores de nossa equipe jurídica.

Depois de muitas horas sendo interrogado, David Duckenfield, que era o comandante da polícia de South Yorkshire durante a partida naquele dia, sucumbiu – e eu vi um homem fraco. Apenas um homem, e ainda este homem mudou a minha vida.

Voltando a 1989, eu não pude escapar de Hillsborough. Em todos os lugares para os quais eu me virava, via as faces das pessoas que eu conheci e amei. A imprensa tomou o lado da polícia e nós – torcedores e familiares – fomos tratados com desdém. Eu sofri o suficiente e decidi deixar o país, viajar. A comunidade judaica em Liverpool plantou uma árvore por cada um que morreu em Hillsborough, na floresta da paz ao lado de Jerusalém. Então, meu objetivo era passar o primeiro aniversário da tragédia, se pudesse, na floresta.

Eu fiz isso. Era a Páscoa de 1990 e, no primeiro aniversário, eu estava lá. Eu pensava no que aconteceria em Liverpool e como a cidade inteira poderia parar. Eu estava feliz por não estar em casa. Chorei como uma criança, peguei minha mochila e segui em frente.

Pelos dois anos seguintes, eu viajei. Quando voltei para casa, as famílias continuaram a lutar. Parecia que nós nunca veríamos justiça, mas aos poucos a maré virou. O relatório do Painel Independente de Hillsborough foi a primeira vitória real, então vieram os vereditos do inquérito sobre as mortes por negligência e, agora, 28 anos depois que eu vi meu irmão mais novo pela última vez, há pessoas sendo responsabilizadas por sua parte no desastre.

Muitos mais poderiam ser denunciados se nós tivéssemos a justiça que merecíamos durante todos esses anos. Seis pessoas não parecem muito quando você percebe quantos estavam envolvidos na sujeira e nos encobrimentos que ocorreram depois de 15 de abril de 1989, mas é aqui que chegamos – e você não pode ajudar, mas pensa nas pessoas que não viveram para ver este dia.

Quando eu repouso na minha cama e penso nesses anos de noites sem dormir e lágrimas que eu derramei sobre Hillsborough, eu sei que dormirei profundamente. Há seis pessoas cujas vidas mudarão para sempre, e elas são bem-vindas à ansiedade e às noites sem dormir.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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