Premier League

Escolha de Reece James como capitão simboliza o que o Chelsea pretende para o futuro

Com 23 anos, Reece James é da base do Chelsea e será o líder em campo de um time muito jovem, que faz uma renovação intensa no seu elenco para a temporada

O Chelsea anunciou nesta quarta-feira (9) que Reece James será o capitão do time a partir desta temporada. Aos 23 anos, ele é formado pelo próprio Chelsea e se tornou um jogador importante no time, por vezes tomando um espaço que foi de Cezar Azpilicueta — curiosamente, o capitão anterior. A sua escolha mostra a sua liderança, mesmo tão jovem, mas vai além disso: simboliza muito do que o Chelsea pretende para o futuro.

James é jogador do Chelsea desde que tinha apenas seis anos e é um torcedor do clube. Passou em todas as categorias de base do clube. Já tinha se mostrado um líder desde a temporada passada, em meio a um caos que o clube viveu, com resultados terríveis e sem uma direção clara, com quatro técnicos (contando os interinos) no comando do time. Sua escolha, para quem olha de perto, não é exatamente surpreendente.

“Estou muito feliz de assumir esse papel e a responsabilidade. Eu sei que tenho que preencher grandes sapatos porque tivemos grandes capitães por aqui no passado, mas estou animado. Estou no Chelsea a minha vida inteira. Comecei aqui quando tinha seis anos e passar pelas categorias de base do Chelsea é difícil. Mas me tornar capitão é um grande sentimento para mim e para minha família”, afirmou Reece James. Quando ele fala sobre a família, não é exagero: sua irmã, Lauren, joga pelo time feminino do Chelsea.

“Esta é uma decisão tomada por mim e pelo clube. Estamos muito satisfeitos que Reece irá capitanear o time nesta temporada. Ele lidera pelo exemplo e sua atitude e dedicação ao Chelsea foi clara ao longo de toda pré-temporada. Ele orgulhosamente vestiu a braçadeira durante o nossa pré-temporada de verão e irá assumir o desafio de liderar o nosso elenco com sua própria abordagem e suas ideias”, afirmou Mauricio Pochettino sobre a escolha.

“A conexão de Reece com o Chelsea foi forjada por 17 anos. Ele entende as tradições do clube e as responsabilidades que vêm junto com ser capitão. Ele sabe os padrões exigidos para vencer neste clube, tanto do seu tempo na base quanto no time principal, e é um momento de muito orgulho a todo mundo conectado ao clube”, afirmaram Paul Winstanley e Laurence Stewart, codiretores esportivos do clube.

Aposta em jovens com um técnico capaz de desenvolver talentos

A escolha de um capitão tão jovem faz todo sentido por tudo que o Chelsea está trabalhando nesta temporada. Depois de duas janelas de transferência gastando muito e pensando pouco, desta vez o pessoal da diretoria do Chelsea precisou trabalhar de forma mais estratégica.

A começar pelo técnico. Mauricio Pochettino foi uma escolha que tem tudo a ver com uma reconstrução baseada em jovens, não em superestrelas. O seu histórico mostra isso no Southampton e o no Tottenham (diferente do que foi no PSG, este sim um projeto de estrelas).

Além da escolha do técnico, o elenco é formado por jovens. O clube contratou Ângelo, do Santos (21 anos), Robert Sánchez, do Brighton (25 anos), Lesley Ugochukwu, do Rennes (19 anos), Nicolas Jackson, do Villarreal (22 anos), Axel Disasi, do Monaco (25 anos) e Christopher Nkunku (25 anos). Isso sem falar em jogadores da base que passam a integrar o elenco principal, como Levi Colwill (20 anos), Ian Maatsen (21 anos) e Lewis Haal (18 anos).

Com tantos jogadores jovens, a escolha de alguém da base, identificado e que mostra sinais de liderança dá um ótimo sinal. Em um clube que a tradição passou a ser ter ótimos times na base e poucos serem aproveitados no time de cima, é uma mudança de sinal. O time tem ótimos valores na base há anos e só os aproveitou na temporada que sofreu punição da Fifa e não pode contratar por duas janelas.

Na época, temporada 2019/20, com Frank Lampard no comando, diversos jogadores floresceram, como Tammy Abraham, Mason Mount, Fikayo Tomori, Ruben Loftus-Cheek, Callum Hudson-Odoi e o próprio Reece James. Obrigado, o clube percebeu que tinha muito mais talento dentro de casa do que imaginava.

Punição da Fifa fez Chelsea sair da era dos senadores para os jovens

John Terry e Frank Lampard pelo Chelsea em 2009 (Icon Sport)

Desde que o Chelsea passou a ser um time rico, desde 2003, vimos a construção de elencos que tinham sempre o que nos acostumamos a chamar de senadores. Eram os jogadores que eram veteranos e estrelas, com muita influência no vestiário do Chelsea — a ponto inclusive de ser bem difícil de administrar, seja para o técnico, seja para outros jogadores que chegassem.

Por anos, o vestiário do Chelsea era de nomes de peso, fosse pelo tempo de casa, como foi com Petr Cech, John Terry, Frank Lampard, Michael Essien e Didier Drogba, fosse de estrelas internacionais que o clube contratava a rodo, como Hernán Crespo, Andriy Shevchenko e Michael Ballack.

Até por essa política, era difícil que jovens tivessem espaço. Poucos conseguiram sobreviver a um período de muita pressão por resultados, trocas de técnicos em uma frequência maior do que na liga e muitas contratações, sempre muitas contratações. A base do Chelsea acabava sendo pouco utilizada e muitos clubes menores aproveitaram para usar esses jogadores. Muitos não conseguiram se desenvolver como se esperava.

A obrigação de usar a base com as punições da Fifa em 2019 mudou um pouco isso. As duas janelas de muitos gastos e com um caos em campo mostraram que o caminho não era promissor. Então, a ideia de um time mais jovem ganhou força.

No elenco atual do Chelsea, apenas três jogadores têm 30 anos ou mais: Marcus Bettinelli, goleiro, 31 anos, que é apenas o terceiro reserva, atrás de Kepa Arrizabalaga (28 anos) e Robert Sánchez (25); Thiago Silva, zagueiro, 38 anos, que terá diversos jovens concorrendo pela posição; e Hakim Ziyech, atacante, 30 anos, que sequer recebeu numeração para a temporada e deve ser negociado. Além de Thiago Silva e Kepa, outro jogador mais experiente é Raheem Sterling, de 28 anos.

No mais, há jogadores com experiência, mas ainda jovens, como o Christopher Nkunku, que tem 25 anos, ou Ben Chilwell, lateral esquerdo de 26 anos. O time tem diversos jovens, como Enzo Fernánez, de 22 anos, Andrey Santos, de 20 anos, Mykhaylo Mudryk, de 22, Nicolas Jackson, de 22, Wesley Fofana, de 22, Benoit Badiashile, de 22, ou Carney Chukwuemeka, de 19.

É um time que tem toda a sua base formada por jogadores muito jovens. Sendo assim, Reece James é um capitão mais do que adequado. É um líder, é um jogador de seleção inglesa, altamente influente no vestiário. Mesmo com 23 anos, tem capacidade de ser um líder importante da equipe por muitos anos. Seu contrato, renovado em 2022, vai até 2028. E talvez dure ainda muito mais.

Reece James é o símbolo do que o Chelsea quer ser. Um time jovem, talentoso e que tem tudo para levar o time longe, se o clube, sempre aflito por resultados imediatos, tiver paciência.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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