Premier League

Rashford sobre luta por alimentação a crianças: “Eu sabia como era o medo de não ter o que comer”

Graças ao seu engajamento na luta por alimentação gratuita a crianças carentes no Reino Unido, Marcus Rashford recebeu o prêmio de Jogador de Futebol do Ano do jornal inglês The Guardian, honra concedida a quem se destacou por “ter feito algo notável, seja superando adversidades, ajudando os outros ou dando um exemplo”. Em entrevista à publicação para falar sobre sua atuação nesta frente fora dos gramados, o atacante do Manchester United explicou sua motivação por trás do ativismo, abordou brevemente o impacto da Covid-19 na sociedade e contou porque deixa 2020 com otimismo para o futuro.

Rashford teve uma infância difícil, sendo criado ao lado de quatro irmãos apenas por sua mãe, Mel. A progenitora trabalhava incontáveis horas por dia, acumulando três empregos para poder alimentar seus filhos e, mesmo assim, dependia do auxílio dos chamados bancos de alimentos e das refeições escolares gratuitas. O atacante do Manchester United afirma que, com um pano de fundo desses, não poderia deixar de se sensibilizar pela situação que crianças carentes enfrentavam em meio a uma pandemia.

“Eu estava preocupado com crianças como eu caso as escolas fechassem como parte do lockdown nacional. Sem os ‘clubes de café da manhã’ e as refeições escolares gratuitas, eu tinha muito pouco. O que eu e minha mãe teríamos feito (nesta situação)?”, afirmou Rashford.

O jogador, que enfrentou uma lesão nas costas que o tirou dos campos por quatro meses em 2020, começou a se engajar na questão alimentar durante a recuperação de sua contusão, iniciando uma parceria com a FareShare, instituição de caridade que atua na distribuição de alimentos. Neste período, enxergou as semelhanças entre o que ele havia passado com sua família e a experiência atual dos mais desfavorecidos.

“Eu tinha machucado minhas costas em janeiro do ano passado e, por meio da FareShare, passei um tempo com algumas famílias durante os primeiros estágios da minha recuperação, e ficou claro que essas famílias eram tão dependentes desses vouchers de alimentações (substitutos das refeições escolares) quanto dos ‘bancos de alimentação’. Não era uma coisa ou a outra, elas precisavam dos dois para sobreviver. Eu sabia como era este medo. Eu sabia como era o medo na minha mãe. Não queria isso para nenhuma criança ou pai.”

Rashford fez uma parceria com a FareShare para ajudar a cobrir parte do déficit de refeições diante do fechamento das escolas no fim de março. O objetivo inicial era angariar £ 100 mil, que cobririam refeições para 400 mil crianças. Rashford, no entanto, começou a se preocupar também com o que aconteceria durante as férias de verão, já que o governo previa acabar com o programa de vouchers alimentícios, usados em supermercados, que vinha substituindo as refeições escolares.

Foi neste momento que Rashford escreveu uma carta aberta ao Parlamento britânico, pedindo a extensão do programa. Diante de uma forte repercussão da sociedade civil, o governo voltou atrás em seus planos e estendeu o auxílio para o período de férias.

Em novembro de 2020, em situação parecida, com o governo planejando o fim dos vouchers durante as férias escolares seguintes, Rashford mais uma vez pressionou o governo e obteve outra vitória significativa.

O atacante admite que, ao iniciar tudo isso, não esperava ter tanto sucesso, mas sente que o êxito serviu também de mensagem de esperança para o futuro, graças à união demonstrada pelas pessoas em torno da luta.

“Acho que ninguém poderia ter previsto isso (o sucesso de sua campanha). Mas sinto que muita gente deve ter aprendido muito sobre elas mesmas em 2020, especialmente sobre sua força. Foi um ano bizarro para todos nós, mas um ano a partir do qual podemos aprender a apreciar melhor as coisas. Começamos muitas conversas e expusemos desigualdades, mostramos compaixão e empatia. Foi incrível ver isso.”

A comida no prato não era o bastante para Rashford. Em sua infância, revelou o jogador, a leitura serviu de importante fonte de escapismo para a dureza do dia a dia, e o atacante queria o mesmo para as crianças atualmente. Impulsionado por isso, em novembro, fechou uma parceria com a editora MacMillan para estimular a leitura entre os pequenos, melhorar o acesso e, por fim, lançar um livro próprio, em conjunto com o jornalista Carl Anka.

“Existem aproximadamente 400 mil crianças no Reino Unido que nunca tiveram um livro. Essas são as mesmas crianças pelas quais eu luto a cada dia, e eu gostaria de lhes permitir um escapismo da ansiedade e do medo por meio da leitura. Meus livros são focados em aceitação e em reconhecimento, permitindo às crianças saber que muitos de nós passaram pelo que elas estão passando, mas que há uma maneira de navegar isso positivamente. Em última instância, apenas quero que as crianças sonhem, porque às vezes o sonho é tudo que elas têm. Estou trabalhando no meu primeiro livro agora, que será lançado em maio.”

Seu crescimento em campo ao longo das últimas temporadas, complementado agora por sua ação fora dele, coloca Rashford entre um dos principais modelos a serem seguidos que o futebol tem no momento, mas o atacante prefere dar os créditos a sua mãe, Mel: “Ela é tudo. Cada característica positiva que você vê em mim é ela. Se eu pudesse descrevê-la em três palavras, elas seriam: forte, protetora e imbatível”.

Mostrar mais

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo