Premier League

Premier League deverá investigar a relação de Jorge Mendes com o Wolverhampton

Comparando o valor de mercado dos jogadores, o Wolverhampton realmente conta com um dos elencos mais fortes da Championship. Segundo o site Transfermarkt, o grupo treinado por Nuno Espírito Santo está avaliado em £87,3 milhões. Na atual janela de transferências, os Wolves gastaram £22,15 milhões em contratações. No entanto, é notável a presença de um fator comum em vários atletas. Não é coincidência o alto número de portugueses ou o trânsito com clubes específicos, como o Monaco. Isso indica a sombra de Jorge Mendes, o empresário mais poderoso do futebol mundial. E as ligações nos bastidores já acendem o sinal de alerta na Premier League. Segundo o jornal The Guardian, a administração da liga deve submeter a escrutínio estas relações, para averiguar a elegibilidade do clube que acabou de conquistar o acesso.

A abertura a Jorge Mendes no Wolverhampton se dá graças à administração do clube. Em julho de 2016, a agremiação foi comprada pelo Fosun International, um grupo chinês com diversas áreas de investimento. Em um contexto de incentivo do governo chinês sobre o futebol, a companhia aproveitou a oportunidade de mercado, adquirindo os Wolves por £30 milhões. Antigo dono do time, Steve Morgan realizou importantes obras infraestruturais e mantinha um padrão de gestão com os pés no chão, mas a falta de resultados dentro de campo culminou na insatisfação de parte da torcida. Diante dos protestos frequentes, resolveu botar o clube à venda. E então, a Fosun entrou na jogada. Mendes, ligado previamente aos chineses, teria influenciado o negócio.

Segundo a Fosun, Jorge Mendes é seu “conselheiro” nos assuntos esportivos, embora a relação se aprofunde mais do que isso. Em uma via de mão dupla, Mendes atua ao lado da companhia e também recebe investimentos chineses na Gestifute, sua empresa responsável pela gestão dos atletas. Cerca de 20% da agência pertence à Shanghai Foyo, de Guo Guangchang, presidente da Fosun. Gestifute e Shanghai Foyo possuem negócios em conjunto no mercado chinês.

O nível de influência de Jorge Mendes no Wolverhampton é nebuloso, mas perceptível. Desde a temporada passada, quando a Fosun assumiu o clube, vários atletas ligados ao agente foram levados ao Estádio Molineux – embora os registros de seus contratos quase sempre indiquem outros empresários, intermediários da Gestifute. Os resultados iniciais da avalanche de reforços, todavia, não foram tão bons. Os Wolves acabaram em uma posição intermediária na Championship 2016/17. Já na atual temporada, jogadores vinculados ao empresário são protagonistas na campanha do acesso. Entre eles, Rúben Neves e Diogo Jota, vitais na competição.

O próprio técnico Nuno Espírito Santo é um dos homens fortes de Jorge Mendes. Ele chegou ao clube no início da atual temporada,  após a demissão de Paul Lambert. E o ex-goleiro foi justamente o primeiro cliente do empresário, em meados da década de 1990, quando Mendes era dono de uma discoteca e buscava se inserir no futebol. Graças ao intermédio do agente, o arqueiro acabou contratado pelo poderoso Deportivo de La Coruña. A amizade entre os dois ainda facilitou a transferência de Espírito Santo ao Porto em 2002, quando Mendes já tinha ampliado sua lista de jogadores. Após pendurar as luvas, o caminho seguiu facilitado pelo empresário. Ainda que o treinador tenha demonstrado sua aptidão à função, especialmente no próprio Wolverhampton, a relação abriu portas – como, por exemplo, quando dirigiu Valencia e Porto, outros portos seguros do todo-poderoso português.

O investimento alto tornou o acesso praticamente obrigatório ao Wolverhampton, considerando a maneira como o clube sobrepôs os limites de responsabilidade financeira da Championship. A equipe, no entanto, conseguiu cumprir a sua missão, completando uma campanha irrepreensível rumo à Premier League. A chegada à elite se transforma em uma vitrine a mais. Por aquilo que tem sido feito, não seria surpresa se a Fosun buscasse parâmetros mais altos, e não apenas a permanência na primeira divisão. Com a postura agressiva no mercado, a classificação à Liga Europa pode logo se tornar um objetivo.

A Premier League, entretanto, vê com desconfiança a relação entre Wolverhampton e Jorge Mendes. Conforme o Guardian, a estrutura administrativa do clube e a influência do agente português deverão ser “totalmente expostos durante o processo de regulamentação para aceitar o clube na primeira divisão”. Os Wolves terão que deixar claro que a relação não quebra regras.

O regulamento da Football Association, ao qual o Wolverhampton estava submetido também na Championship, determina que donos de clubes não podem ter participação direta ou interesses no agenciamento de atletas. Da mesma maneira, agentes como Jorge Mendes são proibidos de ter influência sobre os interesses de um clube.  A entidade nacional impede que um empresário “esteja em posição ou tenha qualquer associação que possa permitir o exercício de uma influência financeira, comercial, administrativa ou de qualquer outro tipo nos assuntos do clube, seja direta ou indiretamente, formal ou informalmente”.

Cabe dizer, entretanto, que a própria Football Association e a Football League, responsável por organizar a Championship, não viram irregularidades nesta relação durante as duas últimas temporadas. O Wolverhampton se manteve elegível à segunda divisão justamente por contar com a aprovação das entidades, que não apontaram quebras de regras. O intermédio da Shanghai Foyo entre a Gestifute e a Fosun já seria o suficiente para dizer que “os donos dos clubes não tem participação direta no agenciamento de atletas”. Além disso, como os jogadores não estão diretamente registrados em nome de Jorge Mendes, atenua-se a questão.

Em sua defesa, o Wolverhampton coloca Jorge Mendes na posição de conselheiro da Fosun. “Jorge Mendes nos aconselhou sobre os atletas que contratamos, mas igualmente fez isso com aqueles que não deveríamos comprar. Há alguns jogadores conectados com ele que fizeram um grande trabalho para nós”, declara o diretor Laurie Dalrymple. “O clube segue completamente confortável em sua posição. Não achamos que quebramos as regras e não achamos que as autoridades acreditam nisso”. Ao que parece, a posição da Premier League é diferente, até para avaliar as consequências e os benefícios que a ligação pode gerar.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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