Premier League

Peter Lorimer foi um símbolo das glórias do Leeds e maior artilheiro do clube, mas seguirá lembrado ainda mais por sua dedicação à instituição

“HotShot”, “Lash” e “Thunderboots”: os apelidos de Peter Lorimer variavam, mas quase sempre aclamavam seu potente chute de perna direita. O escocês se firmou como um dos meias mais célebres do Campeonato Inglês entre as décadas de 1960 e 1970. Se o Leeds United de Don Revie praticava um jogo duro e tantas vezes tratado como “sujo”, o camisa 7 providenciava um toque criativo e letal que explicava também o enorme sucesso vivido em Elland Road. Anotando uma série de gols importantes, Lorimer conquistou os principais troféus da Inglaterra e disputou decisões nas maiores competições pela Europa. Mas, indo além do talento e das glórias, foi adorado também por sua fidelidade e dedicação ao Leeds. Durante 24 anos de uma longeva carreira profissional, o craque dedicou quase 20 ao clube de seus amores.

Lorimer é nome obrigatório em qualquer eleição dos maiores ídolos do Leeds. Permanece entre os jogadores com mais aparições pelo clube e é difícil imaginar que perca tão cedo o posto de maior artilheiro, com uma ampla vantagem no topo da lista. Esteve ligado intrinsicamente aos Whites por quase seis décadas e também até seus últimos dias. Neste sábado, o Leeds anunciou o falecimento de Lorimer, aos 74 anos, após batalhar por um longo tempo contra uma doença não especificada. Despede-se como um nome inescapável e sempre citado em Elland Road, por diferentes gerações.

Lorimer com um dos tantos troféus sobre a cabeça, erguida pelo capitão Billy Bremner (Foto: Imago / One Football)

Filho de um pescador e de uma enfermeira, Peter Lorimer nasceu em Dundee, na Escócia, em 14 de dezembro de 1946. Sua carreira começou nas equipes estudantis da região, que acabaram projetando o garoto. Quando tinha 12 anos, anotou incríveis 176 gols em sua equipe sub-15. Também brilhou num amistoso escolar internacional contra a Inglaterra, tornando-se alvo de cobiça dos clubes ao sul da ilha. Foram cerca de 30 ofertas diferentes naqueles anos. O Manchester United chegou a deixar uma maleta com £5 mil em sua casa, mas os pais recusariam polidamente a proposta massiva. O Leeds tinha sido o primeiro a procurá-lo, ajudando-o semanalmente até atingir a idade para assinar seu primeiro contrato, e o jovem manteria sua palavra, logo completando o negócio em maio de 1962.

A precocidade, aliás, seria uma marca de Lorimer. Apenas quatro meses depois de sua chegada, o meia entrava em campo pela primeira vez no time profissional. O adolescente encarou o Southampton na segunda divisão do Campeonato Inglês com 15 anos e, ainda hoje, preserva o recorde de mais jovem a atuar pelo Leeds. Uma decisão ousada de Don Revie, antigo ídolo do clube que assumira como técnico em 1961 e provocava uma transformação em Elland Road, inclusive ao apostar em jovens.

Ainda levou um tempo para que Lorimer se estabelecesse na equipe principal do Leeds, aprimorando seu desenvolvimento na base. O prodígio viu Don Revie levar o clube de volta à primeira divisão do Campeonato Inglês em 1964, até estourar na temporada de 1965/66. Aos 19 anos, o garoto não apenas tomou seu lugar no time titular, como também se tornou uma das referências em Elland Road. Foram 19 gols em todas as competições, que já o alçaram ao posto de artilheiro da equipe na temporada. Os Whites foram semifinalistas da Taça das Cidades com Feiras (precursora da Liga Europa) e também vice-campeões nacionais, repetindo o desempenho da temporada anterior. Estava posta a ascensão do clube.

Lorimer não estava sozinho na potência que se estabelecia a partir de então. Don Revie moldava sua base com diversos jogadores que liderariam o Leeds ao topo da Inglaterra. Jack Charlton era um dos mais antigos do grupo, lançado ainda nos anos 1950, enquanto Billy Bremner trocou a Escócia por Leeds em 1959. Norman Hunter e Paul Reaney subiram ao primeiro time também em 1962, enquanto Paul Madeley foi promovido em 1963, mesmo ano no qual Johnny Giles veio do Manchester United. O Leeds United se firmava como uma equipe extremamente competitiva e de jogo muito físico. Os bons resultados se repetiriam.

Lorimer enche o pé contra o Chelsea em 1967 – Foto: Imago / One Football

Quarto colocado no Campeonato Inglês em 1966/67 e 1967/68, o Leeds conquistou a Copa da Liga em 1968, batendo o Arsenal na final em Wembley. Naquelas duas temporadas, a equipe ainda seria duas vezes finalista da Taça das Cidades com Feiras, levando seu primeiro título continental em 1968. Lorimer não apenas esteve presente nas decisões, como de novo foi o artilheiro da equipe em 1967/68, totalizando 30 gols. Foi o máximo goleador do torneio europeu, inclusive, com oito gols. Anotou quatro nos 9 a 0 sobre o Spora Luxemburgo, embora tenha sido decisivo também contra Partizan nas oitavas e Rangers nas quartas de final.

Naquele momento, Lorimer já era visto como um jogador pronto ao sucesso. Habilidoso e muito participativo, o meia costumava atuar mais aberto pela direita, se aproveitando das diagonais para provar seu poder de decisão. O escocês tinha muita qualidade nas finalizações, especialmente pela força em seus arremates. “Noventa milhas por hora” era um cântico comum nas arquibancadas, ao craque que assumia também pênaltis e cobranças de falta. Certa vez, por iniciativa de um jornal, ele visitou uma fábrica de munições ao lado de Bobby Charlton e Francis Lee, para que um aparelho usado para medir a velocidade de balas decretasse quem tinha o chute mais forte. Lorimer ganhou com sobras. Seus petardos faziam fama e desequilibravam partidas ao Leeds United, que atingiria o ápice em 1968/69.

Naquela temporada, o Leeds se sagrou campeão inglês pela primeira vez em sua história. E não foi uma campanha qualquer, com o time de Don Revie acumulando recordes. Chegou a passar 34 partidas sem perder e somou 67 pontos, marca expressiva para a época. Foram 27 vitórias e apenas duas derrotas nas 42 jornadas da liga. Lorimer seria uma das estrelas na campanha, com nove gols. E aquela conquista antecederia uma mudança de posição ao meia, que passou por vezes a atuar atrás da dupla de atacantes – em especial, Allan Clarke e Mick Jones. Desta maneira, aproveitava ainda melhor seus chutes e sua capacidade de criação. O camisa 7 costumava ser onipresente nas escalações, até por sua ótima capacidade física, raras vezes sucumbindo às lesões.

Nas quatro temporadas seguintes, o Leeds não reconquistou o Campeonato Inglês, mas foi três vezes vice e na outra terceiro. Levou o titulo também inédito da Copa da Inglaterra em 1971/72, além de ser vice no torneio outras duas vezes. E também reconquistou a Taça das Cidades com Feiras em 1970/71, além de ter sido vice da Recopa Europeia em 1972/73 – numa vitória de arbitragem bastante controversa a favor do campeão Milan. Lorimer era o camisa 7 em todas essas grandes campanhas, sempre registrando dois dígitos de gols por temporada.

Lorimer aposta corrida contra a Juventus em 1971 – Foto: Imago / One Football

Lorimer emplacaria novamente como artilheiro do time em 1971/72, quando somou 29 tentos, três deles na vitoriosa caminhada da FA Cup. Acabou eleito como o melhor jogador do clube naquela temporada. Em contrapartida, igualmente simbolizou o “quase” que impedia o Leeds de uma dinastia ainda mais imponente. Num dos lances mais famosos da história de Wembley, Jim Montgomery fez uma defesa absurda contra Lorimer e garantiu ao azarão Sunderland, da segunda divisão, o surpreendente troféu da Copa da Inglaterra em 1972/73.

A reconquista do Campeonato Inglês, enfim, aconteceu em 1973/74. O Leeds não registrou números tão espantosos quanto os de cinco anos antes, mas teve certas sobras na tabela, com o Liverpool se tornando o único perseguidor. Lorimer anotou 12 gols na liga, numa temporada que marcou a despedida de Don Revie em Elland Road. O treinador assumiu a seleção da Inglaterra em 1974, numa decisão que acabou sendo fundamental à derrocada do clube a partir de então.

Lorimer também viveu seu ápice com a seleção escocesa em 1974. O meia fazia parte das convocações desde 1969, mas seria banido das listas em 1971. Naquele momento, ele recusou uma excursão com a Tartan Army para atuar por algumas semanas no futebol da África do Sul, em pleno Apartheid. Lorimer foi bastante criticado por sua escolha, desapontando até seus pais. Por conta do episódio, o craque receberia a pena mais dura possível: acabou banido das convocações pelo resto da vida. Porém, a punição durou apenas alguns meses e, depois de auxiliar nas Eliminatórias, o meia teve sua grande oportunidade ao disputar a Copa de 1974.

Aquela foi a primeira e única aparição de Lorimer numa competição deste nível. A Tartan Army prometia muito com uma equipe que também tinha Billy Bremner como capitão, além de destaques do porte de Kenny Dalglish, Denis Law e Joe Jordan. Porém, os escoceses caíram na primeira fase. Lorimer marcou o primeiro gol na estreia, num característico míssil, durante a vitória por 2 a 0 sobre Zaire. Depois disso, a Escócia empatou com Brasil e Iugoslávia. Por conta do saldo de gols, a equipe acabou eliminada precocemente e não avançou ao quadrangular semifinal. O meia só defenderia a seleção até 1975, antes de deixar as listas.

Lorimer e o gol contra o Zaire – Foto: Imago / One Football

A carreira de Lorimer em alto nível no Leeds se aproximava do fim. Antes disso, o camisa 7 ainda se destacaria na caótica temporada de 1974/75, aquela que teve Brian Clough no comando. Em meio aos conflitos internos, o comandante escolheria Lorimer como um dos alvos, rotulando o meia de “cai-cai” e botando pra escanteio um dos símbolos sob as ordens de Don Revie. Ao menos, a volta por cima do atleta não tardaria. O fracasso do treinador em seus parcos 44 dias em Elland Road resultou numa modesta nona colocação no Campeonato Inglês, a pior desde o retorno da segundona, mas Lorimer pôde liderar a melhor campanha dos Whites na história da Copa dos Campeões, já sob o comando de Jimmy Armfield.

Em 1969/70, em sua primeira aparição na Champions, o Leeds sucumbiu na semifinal diante do Celtic. Em 1974/75, os ingleses chegaram a eliminar o Barcelona de Johan Cruyff na mesma fase, com um gol essencial de Lorimer no Camp Nou. Porém, a taça escapou na decisão diante do Bayern de Munique. Os alemães-ocidentais venceram por 2 a 0 no Parc des Princes, numa final de lembranças particularmente amargas ao camisa 7. O escocês balançou as redes aos 17 do segundo tempo, num lindo sem-pulo que foi no ângulo, bem longe do alcance de Sepp Maier. Contudo, seu tento foi anulado de maneira controversa, por um impedimento de Billy Bremner que não necessariamente interferiu no lance. Os bávaros abririam caminho ao triunfo pouco depois, com gols de Franz Roth e Gerd Müller, se tornando bicampeões europeus.

Lorimer ainda contribuiu com 16 gols naquela temporada, quatro deles na Champions. Já em 1975/76, foram 11 gols ao time que terminou em quinto no Campeonato Inglês. O Leeds United deixou de brigar por taças, assim como o camisa 7 perdeu importância na hierarquia e viu seus gols minguarem. Sua despedida se deu em 1978/79, depois de disputar apenas quatro partidas pelo clube e não marcar nenhum gol. Era o momento de lucrar um pouco com sua fama no exterior.

Em 1979, Lorimer arrumou as malas para a crescente NASL e defendeu o Toronto Blizzard por duas temporadas, além de também ter sido emprestado ao York City na quarta divisão inglesa. Em 1981, o veterano assinou com o Vancouver Whitecaps e jogou em outras três edições da NASL. Não era tão efetivo na América do Norte quanto nos tempos de Leeds, mas guardava seus gols. Ainda teria outro empréstimo em 1982/83, agora pelo University College Dublin, do Campeonato Irlandês.

Lorimer marca no Camp Nou em 1975 – Foto: Imago / One Football

A volta de Lorimer para casa aconteceu em 1983/84. Encontrou um Leeds United totalmente diferente de seus anos áureos, fazendo campanhas distantes do acesso na segunda divisão. O escocês não mudou os rumos do clube, mas aumentou sua identificação com a torcida em Elland Road, entregando-se à luta. Foram mais três temporadas, inclusive usando a braçadeira de capitão. Ficaria no clube até 1985, defendendo ainda Whitby Town e Hapoel Haifa até pendurar as chuteiras às vésperas de completar 40 anos.

Totalizando as duas passagens pelo Leeds, Lorimer contabilizou 705 jogos pelo clube, sexto jogador que mais vezes vestiu a camisa branca. Os outros cinco à frente são justamente antigos companheiros do ápice com Don Revie. Além disso, Lorimer marcou 238 gols pela agremiação, recorde absoluto – com 81 a mais que o lendário John Charles, o segundo da lista. Números que ficam a um jogador que a torcida aprendeu a aplaudir num intervalo de quase 25 anos, entre sua estreia e a última partida. Em 2004, ele ficaria na nona colocação de uma eleição que apontou os 100 maiores jogadores da história dos Whites.

Depois de se aposentar, Lorimer continuou vivendo em Leeds, onde abriu de início um pub nas imediações de Elland Road. Entretanto, o futebol não sairia de sua vida. No Leeds, chegou a ser diretor por um tempo e representante dos torcedores. O escocês também virou comentarista da BBC Radio Leeds e ganhou uma coluna no Yorkshire Evening Post. Tinha grande reconhecimento, a ponto de ser nomeado ao Hall da Fama da Federação Escocesa em 2014. Além disso, no fim da vida, o veterano havia sido escolhido como o primeiro embaixador do Leeds e passou a assinar textos nos programas de partida distribuídos à torcida. Seguiria na ativa com seus artigos até o início desse ano, mesmo quando sua saúde estava debilitada. Deixou a atividade em fevereiro, quando precisou ser internado para cuidados permanentes.

Lorimer viveu menos de um mês após ingressar na casa de repouso, com seu adeus neste sábado. E o Leeds United mais uma vez decretou luto, em meses duros para o clube diante da recorrente perda de ídolos. Desde 2020, já tinham partido Jack Charlton, Norman Hunter e Trevor Cherry, todos notáveis na história dos Whites. Lorimer é mais uma estrela nessa constelação que guia a tradição do Leeds e marca o DNA vitorioso de um clube em nova reconstrução.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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