Premier League

O Tottenham confirma a chegada de Conte e aguarda novos ventos para ganhar um impulso na temporada

Após a demissão de Nuno Espírito Santo, Conte assinou pelos próximos 18 meses com o Tottenham

O Tottenham não precisou esperar mais do que um dia para confirmar o nome de seu novo treinador. E como a imprensa europeia dava como certo desde a saída de Nuno Espírito Santo, os Spurs ganharão Antonio Conte em seu comando. O italiano estava sem clube desde que deixou a Internazionale ao final da temporada passada, se despedindo por conta das discordâncias com a diretoria após a conquista do Scudetto. Na pré-temporada, Conte e Tottenham paqueraram bastante, sem que os londrinos acatassem todas as demandas do técnico. Agora, diante das necessidades, a assinatura enfim saiu, com contrato arranjado pelos próximos 18 meses. Se o elenco dos Spurs está abaixo de muitos concorrentes, agora o clube possui um comandante para bater de frente com os melhores da Premier League.

“Estou extremamente feliz por voltar a ser treinador e fazer isso num clube da Premier League que ambiciona ser protagonista de novo. Mal posso esperar para começar a trabalhar e transmitir, tanto ao time quanto aos torcedores, a paixão, a mentalidade e a determinação que sempre me distinguiram, como jogador e treinador. No último verão, nossa união não aconteceu porque o fim da minha relação com a Inter ainda era muito recente e eu também estava muito envolvido com o fim da temporada, por isso senti que ainda não era o momento certo para voltar a trabalhar. Mas o entusiasmo contagioso e a determinação de Daniel Levy em querer me confiar esta tarefa já tinham deixado sua marca. Agora que a oportunidade voltou, escolhi agarrá-la com grande convicção”, afirmou Conte, em sua primeira declaração.

Conte assumirá o Tottenham com o carro andando, já no meio da temporada, quando poderia implementar melhor suas ideias caso assumisse meses atrás. A situação dos Spurs também não é tão animadora, nem tanto pela pontuação neste início de Premier League, mas pelo futebol insuficiente apresentado pela equipe e pelas duras derrotas em jogos de maior peso. Entretanto, algumas aberturas surgiram a favor do italiano. Primeiro, pela chegada do diretor esportivo Fabio Paratici, colega de Conte nos tempos de Juventus e que facilitou as novas negociações. Depois, pela própria situação do Tottenham, que se abriu mais às demandas do italiano.

“Estamos muito satisfeitos por dar boas vindas a Antonio no clube. Seu histórico fala por si, com vasta experiência e troféus, tanto na Itália quanto na Inglaterra. Conheço de perto as qualidades que Antonio pode nos trazer, ao ter trabalhado com ele na Juventus, e estou ansioso para ver seu trabalho com nosso talentoso grupo de atletas”, complementou Paratici.

Conforme a imprensa inglesa, Conte realizou algumas exigências ao Tottenham, sobretudo no mercado de transferências. É possível que os Spurs tenham uma postura mais agressiva na janela de inverno, deixando um pouco de lado a acomodação que se repetiu nos últimos anos. Os londrinos fizeram alguns negócios para esta temporada, com destaque à vinda de Cristian Romero, além de outros jovens que servem como apostas ao futuro. Entretanto, Conte costuma ser um técnico que gosta de encaixar peças ao seu estilo de jogo e isso provavelmente vai render alguns reforços de imediato.

O atual elenco do Tottenham pode se dar bem no 3-5-2 usualmente utilizado por Conte. Talvez falte um pouco mais de profundidade no grupo, com alguns setores mais carentes, mas não parece ser muito um problema redesenhar os Spurs. Acertar a zaga possivelmente será a principal questão, considerando os jogadores à disposição, só que isso é exatamente uma das virtudes do italiano. Além disso, não surpreenderia se alguns jogadores crescessem no novo sistema. Nomes como Cristian Romero, Sergio Reguilón, Emerson Royal, Pierre-Emile Hojbjerg e Tanguy Ndombélé tem totais condições de se alavancarem, alguns deles até por experiências prévias em padrões similares.

O maior interesse, de qualquer forma, estará no encaixe entre Harry Kane e Son Heung-min na linha de frente. O entendimento de ambos é excepcional há alguns anos e agora ganharão um treinador que costuma valorizar sua dupla de atacantes. Pode até ser que as coisas não aconteçam de maneira tão simples assim, mas a tendência é que as duas referências do time sejam ainda melhor aproveitadas. E se o início de temporada de Son é positivo, mesmo com a fase desfavorável da equipe, Kane terá boas condições para tentar recuperar seu prestígio após a frustrada tentativa de se transferir.

A injeção de ânimo proporcionada por Conte, aliás, é algo essencial neste primeiro momento. O treinador costuma ter um prazo de validade curto, vide outros trabalhos, em especial no Chelsea. Todavia, não há muitas dúvidas de que ele consegue elevar rapidamente o sarrafo de suas equipes e garantir outra energia logo de cara. Na própria Inter, o italiano indicou superar alguns aspectos de relacionamento, depois de ensaiar uma saída precoce antes do Scudetto. E considerando como o debate sobre Kane afetou o dia a dia dos Spurs, o novo comandante talvez seja um dos mais indicados para deixar o tema no passado – ao menos até a próxima temporada.

Outro fator favorável a Conte é a sua própria experiência anterior na Premier League. O treinador deslanchou no Chelsea e ofereceu um estilo de jogo aos Blues que deu muito certo, a ponto de render o título da Premier League. Não há temores sobre dificuldades na adaptação ou qualquer coisa do tipo. No entanto, também é necessário ter consciência de que o Tottenham oferece um elenco inferior ao dos Blues no passado, especialmente na quantidade de opções. Desta maneira, não dá para perder de vista que o objetivo dos londrinos no momento é se firmar no G-4 e, quem sabe, descolar um troféu nos mata-matas.

O Tottenham ocupa o nono lugar na Premier League, a cinco pontos do G-4. E a equipe tem uma tabela relativamente acessível nas próximas rodadas, que pode ajudar Conte neste início. Os Spurs também seguem vivos na Copa da Liga Inglesa, enquanto a situação na Conference League é a mais desfavorável, mas totalmente reversível. O grande entrave mesmo é o futebol insuficiente praticado com Nuno Espírito Santo. O ataque vinha rendendo pouquíssimo, com apenas nove gols marcados em dez rodadas da Premier League, sendo segundo que menos criava chances nos jogos da liga. As estatísticas defensivas, contudo, também estavam ruins. O Tottenham apresentava um time vulnerável e que sequer possuía a parte física como um trunfo, com um número baixo de quilômetros percorridos por partida. O novo técnico poderá mudar isso.

Conte não é o treinador mais inventivo e nem possui o tal DNA ofensivo bradado pelos donos do Tottenham. Em compensação, sabe montar equipes seguras, bem estruturadas e que impõem um alto ritmo a partir de seu jogo mais direto. E isso não significa que o time não poderá ter uma alta produção no ataque, como a própria Internazionale evidenciou na conquista do último Scudetto. Neste momento, os Spurs precisam de confiança e o italiano oferece isso. Confiança até mesmo para sonhar, considerando o currículo vitorioso de Conte – algo que boa parte de seus antecessores não tinham.

Outra questão é a permanência de Conte no Tottenham. Diferentemente do que ele encontrou na Juventus, no Chelsea ou na Internazionale, o treinador não possui um elenco que pareça tão capaz de conquistar a liga nacional de imediato. O trabalho nos Spurs se sugere mais profundo e requer um prazo maior, até porque os Spurs até parecem ter deixado para trás o melhor momento da base que elevou o patamar do clube recentemente, com algumas saídas importantes nos últimos anos. Resta saber quão longo será esse comprometimento e o quanto o clube também estará disposto a investir, para um salto que não depende só do técnico renomado.

Por fim, vale reforçar como o movimento do Tottenham ainda tira uma possibilidade ao Manchester United. Caso Ole Gunnar Solskjaer fosse demitido pelos Red Devils, o italiano era o nome mais propenso a assumir. O encaixe de Conte em Old Trafford era mais questionável, mas as duas partes se indicaram abertas a conversar. Agora, se o rendimento dos mancunianos continuar ruim, nenhum nome no mercado parece tão forte para chegar logo de cara. E os Spurs ganham um comandante que é capaz de mudar os ânimos no norte de Londres, depois de alguns meses em que a confiança não fluía com Nuno Espírito Santo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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