Premier League

Há 15 anos, o Arsenal frustrava o United e selava o título com uma arrancada histórica

Quando se fala sobre o Arsenal campeão, o título da Premier League 2003-04 é a referência imediata. Os Invincibles se tornaram célebres por alcançarem a façanha que, na história do Campeonato Inglês, antes só pertencia ao Preston North End. E também porque aquele período, além de glorioso, marcou o início de uma grande lacuna aos Gunners. Dois anos antes, porém, a torcida em Highbury comemorou uma taça tão inquestionável quanto. O time de 2001-02 venceu tantas partidas quanto os Invincibles e terminou a campanha com apenas três pontos a menos. Possui outros recordes notáveis, como o maior número de vitórias consecutivas e o fato de ser a única equipe na história da Premier League (desde 1992-93) a marcar gols em todas as 38 rodadas. Além disso, confirmou o feito com um gostinho especial: batendo o Manchester United em Old Trafford e interrompendo a possibilidade de um inédito tetracampeonato. Conquista que completa 15 anos nesta semana e merece ser reverenciada.

O Arsenal de Arsène Wenger tinha provado o sucesso pela primeira vez em 1997-98. Além de superar o Manchester United por um ponto na Premier League, também garantiu a dobradinha com a Copa da Inglaterra. Era um time para permanecer no topo do futebol inglês, já com vários nomes marcantes em Highbury – como David Seaman, Tony Adams, Patrick Vieira, Dennis Bergkamp e Ian Wright. Entretanto, Sir Alex Ferguson contava com o seu esquadrão, que daria a volta por cima nos anos seguintes. Primeiro, os Red Devils levaram a Tríplice Coroa. Depois, encadearam o bi e o tricampeonato inglês, algo inédito na história do clube e que não acontecia no país desde a década de 1980. Coube aos Gunners amargarem as celebrações alheias.

Afinal, durante os três anos em que o Manchester United ficou com a taça, o Arsenal foi vice em todos eles. Em 1999, os mancunianos deram o troco pela temporada anterior, ficando um ponto à frente. A arrancada dos londrinos na reta final de campanha se tornou insuficiente. Já nos dois anos seguintes, nem houve muita conversa. Os Red Devils lideraram de ponta a ponta e encerraram as campanhas com ampla vantagem no topo. Pior é que, neste intervalo de três anos, os Gunners engoliram seco mais dois vices: na Copa da Uefa de 2000, contra o Galatasaray; e na Copa da Inglaterra de 2001, ante o Liverpool.

arsenal 2002

Era preciso virar o jogo. E a própria base formada em Highbury bastaria para tal. O único reforço para a equipe titular seria também um dos mais polêmicos: Sol Campbell, vindo de graça do Tottenham após o término de seu contrato. Os Gunners cumpriram a alta pedida salarial do zagueiro, que desejava disputar a Liga dos Campeões. Enquanto Wenger referendava o novato, os jornalistas foram surpreendidos com o anúncio, quando esperavam que a conferência convocada, na verdade, apresentasse o goleiro Richard Wright. Já em White Hart Lane, prevaleceu o sentimento de traição. No mais, os demais contratados serviram para compor o elenco, como Giovanni van Bronckhorst e Francis Jeffers.

E, mesmo sem gastar montanhas de dinheiro em novos jogadores, o Arsenal contava com um verdadeiro timaço moldado desde meados dos anos 1990. David Seaman era o dono da meta, embora tenha sofrido com as lesões naquela campanha, substituído por Richard Wright e Stuart Taylor. O jovem Ashley Cole e Lauren davam intensidade às laterais. Sol Campbell logo se colocou como esteio da zaga, variando a parceria principalmente com o veterano Martin Keown e com o capitão Tony Adams. Além disso, o sistema defensivo contava com outros nomes úteis, como Lee Dixon, Matthew Upson e Oleg Luzhny.

Dono do meio-campo, Patrick Vieira vivia o ápice da forma e jogou mais minutos do que qualquer outro do elenco naquela campanha. O francês era acompanhado no setor por Ray Parlour, além dos jovens Edu e Gio van Bronckhorst – que, na época, costumava entrar como cabeça de área. Mais à frente, o toque de criatividade era dado por Fredrik Ljungberg, em excelente fase, e Robert Pirès. Sylvain Wiltord tinha grande importância, por sua velocidade e sua força física. No entanto, o diferencial era dado mesmo pelos craques na linha de frente de Wenger: Thierry Henry e Dennis Bergkamp, que ainda tinham como reserva imediato o eterno perigoso Nwankwo Kanu.

Em franca evolução desde sua chegada a Highbury, Henry começava a atingir o melhor de sua forma pelo clube. Foi implacável ao longo da competição, balançando as redes 24 vezes em 33 partidas. Pela primeira vez na carreira, terminaria a Premier League como artilheiro, algo que repetiria também em 2004, 2005 e 2006. Bergkamp, por outro lado, não teve a mesma fome de gols. Com nove tentos, foi o terceiro na artilharia interna, atrás de Ljungberg, além de empatar com Wiltord e Pirès. De qualquer maneira, o holandês possuía papel vital para o estado anímico de seus companheiros. A equipe crescia orquestrada por sua classe. E assim aconteceu de maneira marcante durante a caminhada rumo ao topo do pódio.

henry bergkamp

Faltou consistência ao Arsenal durante o início da trajetória. A equipe desperdiçava pontos com frequência, empatando em excesso. Nas 12 primeiras rodadas, vencera apenas cinco compromissos, com três derrotas. Desempenho morno que deixava os Gunners fora até mesmo da zona de classificação à Champions, passando boas semanas na sexta colocação. A primeira guinada aconteceria no final de novembro. No dia 25, os londrinos receberam o vice-líder Manchester United. Começaram perdendo, com um gol de Paul Scholes logo aos 14 minutos. No início da segunda etapa, Ljungberg deixou tudo igual com uma refinada finalização. Até Thierry Henry chamar a responsabilidade e resolver. Aproveitando as falhas de Fabien Barthez, o artilheiro balançou as redes duas vezes, decretando o triunfo por 3 a 1.

Aquela seria a primeira de seis vitórias do Arsenal em intervalo de oito rodadas. O time embalou e nem mesmo a maratona do final do ano brecou o ritmo forte dos Gunners. Neste período, bateram Liverpool e Chelsea. Já tinham assumido a liderança no início do segundo turno, saltando cinco posições desde dezembro. Em janeiro, contudo, os londrinos deram uma vacilada. Empataram três partidas em cinco rodadas, o que permitiu a ultrapassagem de Manchester United e Newcastle. O que impulsionou a arrancada histórica.

A partir da 26ª rodada, não houve mais o que parasse o Arsenal. O time engrenou 13 vitórias consecutivas até o final da campanha, recorde só igualado pelo Chelsea na atual temporada. Um a um, os seus adversários foram ruindo. Everton e Fulham sucumbiram, até a memorável visita ao Newcastle em St. James’ Park. Em jogo que essencial ao campeonato, com os Magpies logo à frente dos londrinos, Bergkamp anotou um gol para a história. Deu seu drible irreplicável na marcação, antes de fuzilar para as redes. Os 2 a 0 no placar valiam demais, tanto para a campanha quanto para o moral. A perseguição ao Manchester United se intensificou.

bergkamp

Na sequência, o Arsenal derrotou Derby County, Aston Villa e Sunderland. Recuperou a liderança com os 3 a 0 sobre o Sunderland, enquanto o Manchester United já ficava pelo caminho, ultrapassado também pelo Liverpool. Outro resultado fundamental veio em 6 de abril, com o triunfo por 2 a 1 no Dérbi do Norte de Londres. Depois que Ljungberg abriu o placar, o tento decisivo saiu apenas aos 41 do segundo tempo, com Lauren convertendo pênalti sofrido por Henry. Ipswich, West Ham e Bolton foram as vítimas seguintes. Até o aguardado reencontro em Old Trafford, o primeiro desde que os Red Devils infligiram a humilhante goleada por 6 a 1 em fevereiro de 2001.

Mas, antes da visita ao noroeste do país, o Arsenal tinha compromisso em Cardiff. Em 4 de maio, enfrentou o Chelsea na decisão da Copa da Inglaterra. A campanha no torneio vinha sendo impecável. Deixaram para trás Watford, Liverpool, Gillingham, Newcastle e Middlesbrough – sofrendo um pouco mais apenas contra o Newcastle, em quartas de final decididas no replay. Assim, com o Millenium Stadium abarrotado para o clássico londrino, o time de Wenger fez o serviço. Venceu por 2 a 0, com tentos de Ray Parlour e Ljungberg. Supremacia que seria reforçada quatro dias depois.

Em 8 de maio, enfim, aconteceu o grande jogo. A noite de expurgar as mágoas dos anos anteriores dentro de Old Trafford. Sem Henry e Bergkamp no comando de ataque, a missão não seria tão fácil aos Gunners. Mas a equipe conteve a pressão do United durante o primeiro tempo e selou a conquista aos 12 da segunda etapa. Após contra-ataque fulminante, Wiltord aproveitou o rebote de Barthez para emendar às redes. O orgulho dos londrinos presentes nas arquibancadas e em todos os membros do clube era inegável.

A celebração em Highbury aconteceu três dias depois. O Arsenal finalizou a campanha derrotando o Everton por 4 a 3, chegando aos 87 pontos. Tarde para festejar também alguns nomes históricos que se despediam dos Gunners. O lateral Lee Dixon e o treinador de goleiros Bob Wilson se aposentavam. Além deles, o capitão Tony Adams também pendurava as chuteiras. Depois de quase duas décadas de serviços prestados, o zagueiro dizia adeus ao clube que carregou no peito. Simbolicamente, sua última partida em campo foi a decisão da Copa da Inglaterra, fundamental no triunfo derradeiro.

A temporada seguinte guardaria a resposta do Manchester United, recuperando a taça e deixando o Arsenal outra vez na segunda colocação. Isso até os Invincibles fazerem história em 2004. Estas, entretanto, são cenas de outro capítulo inesquecível aos Gunners.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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