Nuno Espírito Santo, técnico do Wolverhampton, teme que uma nova paralisação do futebol seja prejudicial para os clubes que não estejam na elite mundial. Para o português, uma nova pausa como a que aconteceu na temporada passada, durante a primeira onda da pandemia de Coronavírus, abriria caminho para uma mudança estrutural no esporte, começando por necessidades de adaptação no calendário.

Em entrevista coletiva na segunda-feira (11), antes do confronto dos Wolves com o Everton, Espírito Santo se mostrou contrário à ideia de uma nova paralisação no futebol inglês, que vive um período de incerteza diante da multiplicação de casos dentro das bolhas supostamente seguras dos clubes, em meio à disseminação de uma nova cepa do vírus com transmissibilidade 70% maior.

O treinador admitiu não saber qual a melhor solução para o problema, mas não deixou de pontuar o temor que tem quanto à ideia de uma nova pausa no esporte. “Se pararmos, tudo vai mudar. Um novo futebol virá, provavelmente uma Superliga, provavelmente com outras competições. Será uma questão de quais clubes sobreviverão”, alertou, em referência às articulações recentes de alguns dos maiores clubes do mundo para a criação de novos torneios feitos apenas para a elite, embora estes projetos ainda não pareçam se solidificar.

“É uma decisão difícil de se tomar. Não sei o que é melhor. O que temo é que, se a decisão for de parar, o futebol que conhecemos não será o mesmo, é este meu maior medo. O calendário vai ficar maluco, e será impossível terminar a liga e pensar na Eurocopa”, completou.

Espírito Santo expressou confiança no protocolo adotado pela Premier League para controlar a disseminação do vírus, afirmando que fazia sentido paralisar a competição no passado porque, à época, pouco se sabia sobre o Coronavírus.

“Quase um ano atrás, estávamos parando porque não sabíamos o que estava acontecendo, era algo que não havíamos vivido. Havia muitas dúvidas. Depois do reinício, todos fizeram um grande esforço. Houve protocolos, reuniões, trocas, tínhamos certeza de que, independentemente de tudo, jogaríamos, porque só precisávamos de 14 jogadores”, afirmou.

Para o técnico, não há maneira melhor de lidar com a pandemia dentro do futebol do que o protocolo atualmente utilizado pela Premier League, que prevê dois testes semanais, isolamento dos casos positivos ou de indivíduos em contato com casos positivos e isolamento dos atletas do restante da sociedade.

“Agora, as coisas mudaram, e estamos começando a pensar novamente em parar. Se tivermos uma crise, os mais fortes sobreviverão, mas e o resto? No meu ponto de vista pessoal, tendo consciência do que está acontecendo, não dá para encontrar o mesmo modelo que temos agora.”

O mero aumento no número de casos na Premier League, que chegou a 40 positivos em uma semana, número duas vezes maior que o pico até então, já seria suficiente para jogar temor sobre o decorrer da temporada. A postura de alguns atletas durante o período de festas, por fim, apenas piorou a situação. Casos como o de Reguilón, Lo Celso e Lamela, no Tottenham, e Benjamin Mendy, no City, que desrespeitaram regras ao celebrarem o Natal e o Ano Novo com festas em casa, jogaram pressão sobre os legisladores do Reino Unido contra a exceção feita ao futebol em meio à pandemia. Alison McGovern, parte da oposição do governo britânico encarregada de assuntos relacionados ao esporte, afirmou que estava ficando cada vez mais difícil manter a continuidade de competições esportivas de elite como a Premier League.

Diversos treinadores, como Solskjaer, Ancelotti e David Moyes, reagiram à discussão, garantindo estarem fazendo o máximo para seguir os protocolos, embora o técnico do West Ham admita que os jogadores são seres humanos e passíveis de errar.

Por ora, nada indica que a Premier League irá de fato parar, mas os problemas têm se acumulado. O confronto entre Aston Villa e Tottenham, inicialmente marcado para esta quarta-feira (13), se tornou o quinto jogo a ser adiado nos últimos dois meses devido a surtos de dentro dos clubes. No lugar deste encontro, o Tottenham enfrentará o Fulham, em outra partida que teve que ser remanejada, anteriormente marcada para 30 de dezembro.