Premier League 2026/27

O quebra-cabeça do Liverpool: Os 3 problemas que Iraola precisa resolver

Nesta semana, o Liverpool confirmou que Richard Hughes deixou seu cargo de diretor esportivo e vai se juntar ao Al-Hilal, da Arábia Saudita, encerrando uma passagem relativamente curta, mas repleta de acontecimentos, em Anfield.

Sua saída acontece após mais um frenético mercado de transferências, durante o qual os Reds voltaram a gastar pesado, com destaque especial para a chegada importante de Bradley Barcola, vindo do Paris Saint-Germain, embora as bases dessa política de investimentos já tivessem sido lançadas no verão europeu anterior, com as contratações recordes de Alexander Isak e Florian Wirtz.

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Apesar da magnitude desses investimentos nas duas últimas janelas, ainda existe uma dúvida considerável sobre se o elenco possui profundidade suficiente para suportar as exigências de mais uma temporada desgastante.

O dirigente de 47 anos chegou a Anfield após a saída do técnico histórico Jurgen Klopp e teve papel fundamental na contratação de Arne Slot, que conduziu o Liverpool, de forma sensacional, ao seu 20º título de campeão inglês logo em sua primeira temporada.

Com as bases de uma equipe campeã já estabelecidas, o elenco parecia precisar apenas de reforços pontuais, mas o Liverpool optou, em vez disso, por uma mudança radical em sua estratégia de contratações, investindo somas recordes em algumas das jovens estrelas mais cobiçadas da Europa, na tentativa de manter o clube no topo por muitos anos.

No papel, foi uma transformação deslumbrante, com os Reds parecendo montar um elenco capaz de competir em todas as frentes, mas as rachaduras foram se tornando cada vez mais difíceis de ignorar, à medida que Slot não conseguiu reproduzir a magia de sua temporada de estreia, e o Liverpool acabou terminando em quinto lugar na Premier League na temporada passada.

Diante da crescente frustração dos torcedores, Slot foi demitido e substituído por Andoni Iraola, um rosto familiar para Hughes desde a época em que trabalharam juntos no Bournemouth, entregando ao novo técnico um desafio considerável, ao tentar remodelar um elenco que passou por mudanças significativas.

O ex-diretor esportivo do Liverpool, Richard Hughes
O ex-diretor esportivo do Liverpool, Richard Hughes. Foto: IMAGO / Propaganda Photo / David Rawcliffe

Uma janela de transferências de resultado misto para o Liverpool

Jérémy Jacquet, cujo acordo foi confirmado em janeiro, chegou vindo do Rennes, enquanto o Liverpool também contratou Victor Muñoz, Ronald Araújo, por empréstimo, e Barcola, sendo que o quarteto custou, ao todo, 217,5 milhões de libras, evidenciando a magnitude do investimento do clube no primeiro mercado de Iraola no comando.

Os gastos certamente renderam manchetes, mas também vieram acompanhados de um êxodo considerável de experiência, com as saídas de Mohamed Salah, Andy Robertson e Ibrahima Konate, todos como agentes livres, enquanto o meio-campista formado no clube Curtis Jones foi liberado para se juntar à Internazionale, em uma negociação avaliada em 30 milhões de libras.

O Liverpool posteriormente recusou uma oferta de 80 milhões de libras do Manchester City por Cody Gakpo, uma decisão compreensível dada a incapacidade do clube de encontrar um substituto adequado, mas que apenas evidenciou o equilíbrio delicado com o qual Iraola precisa lidar em seu elenco.

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Apesar de um início de temporada invicto, incluindo uma vitória por 2 a 0 sobre o Ipswich Town, existe uma sensação inconfundível de que o elenco do Liverpool é consideravelmente mais raso do que parece à primeira vista, especialmente quando a intensidade da Premier League e do futebol europeu começar a cobrar seu preço.

O time titular é, sem dúvida, capaz de rivalizar com praticamente qualquer equipe da Europa, mas a ausência de um volante genuinamente defensivo, somada à falha em resolver a posição de lateral-direito, pode se tornar o calcanhar de Aquiles do Liverpool quando lesões, suspensões e o acúmulo de jogos inevitavelmente chegarem.

Uma equipe consegue conviver com algumas fragilidades ao longo de uma temporada, mas essas fragilidades tendem a se tornar consideravelmente mais evidentes quando os jogos começam a se acumular em ritmo intenso.

O maior ponto positivo, sem dúvida, é a chegada de Barcola, que já soma duas Ligas dos Campeões pelo Paris Saint-Germain e, segundo informações, tinha o coração voltado para uma transferência a Anfield.

Bradley Barcola durante estreia pelo Liverpool (Foto: PA Images / Icon Sport)
Bradley Barcola durante estreia pelo Liverpool (Foto: PA Images / Icon Sport)

O francês traz velocidade, imprevisibilidade e a capacidade de atuar em toda a linha de frente, e sua chegada dá a Iraola mais uma arma devastadora para esticar as defesas adversárias e criar espaços para jogadores como Isak e Gakpo.

Iraola sempre privilegiou atacantes versáteis e uma abordagem ofensiva, o que torna Barcola uma adição especialmente interessante para o seu projeto no Liverpool, enquanto Muñoz, Gakpo e Isak possuem qualidade técnica e flexibilidade posicional para se destacarem dentro de um sistema tão agressivo.

Os ingredientes certamente estão presentes para algo espetacular, mas o verdadeiro teste virá quando a agenda de jogos começar a apertar e Iraola for obrigado a olhar além de seu time titular mais forte, pois é nesse momento que a falta de profundidade do Liverpool poderá ser exposta, ou finalmente silenciada.

Grande dor de cabeça para Iraola: como resolver os problemas na lateral-direita?

Jeremie Frimpong tem tido dificuldade para causar a impressão desejada nos dois primeiros jogos do Liverpool, o que levou Iraola a deixá-lo fora da escalação titular no jogo mais recente e reposicionar Ronald Araújo na lateral-direita, uma decisão que evidenciou o quão rapidamente o novo técnico já percebeu a vulnerabilidade desse lado de sua defesa.

Jeremie Frimpong Liverpool
Jeremie Frimpong em ação pelo Liverpool. Foto: IMAGO / Visionhaus

Com Conor Bradley ainda longe de retornar, a condição física de Joe Gomez continuando a ser uma grande dor de cabeça, e Giovanni Leoni precisando ser gerenciado com cautela após perder toda a temporada passada por conta de uma lesão no ligamento cruzado, o Liverpool se vê com pouquíssima margem de manobra.

Araújo chegou emprestado pelo Barcelona e é visto, principalmente, como uma solução paliativa, embora os Reds tenham a opção de tornar sua transferência definitiva no próximo verão, por 47 milhões de libras, caso o uruguaio consiga transformar essa solução temporária em uma resposta mais convincente a longo prazo.

Dominik Szoboszlai também pode ser chamado a preencher essa lacuna, já que Iraola sugeriu que o húngaro é uma opção para a lateral-direita quando necessário.

Sua inteligência, noção posicional e capacidade de cobrir grandes distâncias poderiam trazer um certo equilíbrio ao lado direito da defesa, mas reposicioná-lo mais atrás inevitavelmente privaria o meio-campo do Liverpool de sua energia intensa, de sua movimentação incansável e de sua capacidade de impulsionar a equipe para a frente.

O Liverpool deve estar em situação consideravelmente melhor assim que Bradley retornar, mas até mesmo o seu retorno precisará ser gerenciado com cautela, dado o histórico de lesões do próprio defensor, o que significa que Iraola não pode simplesmente contar com a disponibilidade do jogador de 22 anos semana após semana.

Por enquanto, a posição de lateral-direito segue sendo uma espécie de castelo de cartas, no qual uma única lesão ou reformulação tática pode forçar uma nova mudança.

A falta de profundidade do Liverpool no meio-campo

Iraola admitiu que não queria a saída de Jones, mas o meio-campista desejava um novo capítulo em sua carreira, presumivelmente em algum lugar onde sentisse que seria mais valorizado e teria um papel mais relevante, deixando o Liverpool com uma lacuna considerável, que o clube, surpreendentemente, optou por não preencher antes do fechamento da janela de transferências.

Os Reds foram associados a Lamine Camara em diferentes momentos e podem retomar a possibilidade de contratar o meio-campista do Monaco em janeiro, mas, por enquanto, Iraola precisa trabalhar com o que tem, e isso representa um quebra-cabeça bastante complicado.

Wataru Endo permanece no clube, mas sua ausência da lista do Liverpool para a Liga dos Campeões é uma indicação bastante clara de que ele não figura entre as prioridades do técnico espanhol.

Também não está totalmente claro se Iraola realmente enxerga Ryan Gravenberch como uma solução de longo prazo para a posição de número cinco, visto que a experiência inicialmente introduzida por Slot só funcionou de forma consistente por um período relativamente curto, de cerca de cinco meses.

Alexis Mac Allister continua sendo capaz de desempenhar um papel central, embora persistam dúvidas sobre seu futuro a longo prazo, enquanto Szoboszlai pode, mais uma vez, precisar sacrificar sua posição preferida no meio-campo para tapar buracos em outros setores.

Isso deixa o técnico espanhol depositando uma enorme confiança no jogador formado na base, Trey Nyoni, que chamou atenção durante a pré-temporada e mostrou uma segurança animadora em suas partidas saindo do banco.

Trey Nyoni em ação pelo Liverpool
Trey Nyoni em ação pelo Liverpool (Foto: David Rawcliffe / Propaganda Photo / IMAGO)

O jovem de 19 anos possui a qualidade técnica que sugere que ele tem espaço nesse nível, mas existe uma diferença considerável entre parecer seguro em breves aparições e receber a confiança para controlar o ritmo de uma partida inteira de 90 minutos, sob pressão constante, em que qualquer passe errado pode ser punido.

O Liverpool logo descobrirá se Nyoni tem a maturidade, a concentração e a capacidade física para assumir uma carga de trabalho relevante, mas o panorama geral segue preocupante, já que o meio-campo do clube é inegavelmente carente de opções consolidadas, uma questão pela qual Hughes, mesmo após sua saída, não pode se isentar totalmente de responsabilidade.

O dilema da ponta direita no Liverpool

Encontrar um substituto equivalente a Mohamed Salah nunca seria uma tarefa fácil, já que jogadores que combinam sua capacidade de fazer gols, criatividade, durabilidade e habilidade de atormentar defesas de forma consistente pelo lado direito são extremamente raros. Michael Olise talvez seja quem mais se aproxime desse perfil, mas, com o francês estabelecido no Bayern de Munique, o Liverpool sempre teria dificuldade em encontrar um sucessor natural capaz de simplesmente assumir o enorme legado deixado por Salah.

O problema fica ainda mais evidente ao se analisar o restante do elenco, já que Cody Gakpo, Bradley Barcola, Victor Muñoz e Rio Ngumoha preferem todos atuar pela esquerda, deixando Iraola com a tarefa nada invejável de pedir a alguns de seus pontas esquerdos mais naturais que atuem no lado oposto. O Liverpool pode retomar o interesse em Yankuba Minteh em janeiro, enquanto esperar até o próximo verão por Olise também pode ser uma opção, caso as circunstâncias mudem, mas nenhuma das duas soluções oferece uma resposta imediata para esse desequilíbrio.

Muñoz já mostrou sinais animadores pelo lado direito, enquanto Barcola e Gakpo inevitavelmente também precisarão cumprir tabela ali, com Frimpong sendo outra opção potencial, caso Iraola decida que sua velocidade e instinto ofensivo podem ser mais bem aproveitados em uma posição mais avançada no campo. As opções são numerosas, mas quantidade não deve ser confundida com adequação, e os Reds têm vários jogadores capazes de ocupar a posição, sem necessariamente ter alguém que realmente a torne sua.

Victor Muñoz Liverpool
Victor Muñoz, do Liverpool, comemora gol marcado. Foto: IMAGO / Propaganda Photo / David Rawcliffe

Federico Chiesa, por sua vez, parece ter caído na mesma categoria de Endo em termos de confiança de Iraola, e seu futuro em Anfield pode, portanto, ser de curta duração, caso o Liverpool decida abrir espaço para mais um reforço ofensivo.

No papel, os Reds têm uma riqueza quase constrangedora de opções pelos lados do campo, especialmente ao se incluir Lewis Koumas na equação, mas, ao se analisar mais a fundo, o desequilíbrio se torna extremamente evidente.

Andoni Iraola: ele consegue tirar o melhor do grupo atual?

Nem todo problema vem com uma solução pronta no mercado de transferências, e se o Liverpool começar a tratar toda fragilidade do elenco como algo que pode simplesmente ser adiado para a próxima janela, o clube corre o risco de criar um precedente perigoso, ao mesmo tempo em que coloca ainda mais pressão sobre Iraola para extrair mais dos jogadores já à sua disposição.

É aí que o técnico espanhol entra em cena, já que Iraola construiu uma reputação por melhorar jogadores por meio de trabalho tático, clareza nas orientações e uma filosofia exigente e ofensiva, e seu maior desafio nesta temporada pode estar menos em encontrar novas contratações e mais em maximizar o talento considerável já presente no vestiário.

Quando Bradley, Leoni e Hugo Ekitike eventualmente retornarem de suas respectivas ausências, isso deve parecer quase como se o Liverpool tivesse completado um trio de contratações no meio da temporada, dando a Iraola opções adicionais e aliviando parte da pressão criada pela falta de profundidade do elenco. Esses reforços não resolverão todos os problemas estruturais, mas podem dar ao técnico espanhol margem suficiente para atravessar os trechos mais exigentes da temporada, sem precisar remodelar constantemente sua equipe.

Apesar de todas as preocupações em torno do elenco, seria impossível ignorar a pura qualidade disponível para Iraola, já que qualquer equipe capaz de contar com Virgil van Dijk, Alisson, Mac Allister, Szoboszlai, Ekitike, Isak, Wirtz e Barcola deveria almejar consideravelmente mais do que apenas garantir uma vaga na Liga dos Campeões.

Hughes pode ter deixado para Iraola uma coleção de jogadores de nível elite, mas também deixou lacunas evidentes, e a capacidade do novo técnico do Liverpool de usar seu conhecimento tático para disfarçar essas rachaduras, manter a competitividade da equipe e transformar um elenco imperfeito em um verdadeiro candidato ao título pode, no fim, determinar o destino da temporada dos Reds.

Foto de Axel Clody

Axel ClodyColaborador

Axel acompanha de perto todas as principais histórias do mundo do futebol, embora mantenha um carinho especial pelos clubes do norte da França — do Lens ao Lille, passando por Dunkerque — desde que se mudou da região

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