Premier League

Lingard pensou em pausa no futebol por dificuldades com sua saúde mental: “Eu não queria jogar”

Meia contou como período em que sua mãe deixou a casa para tratar a depressão crônica que sofria afetou sua vida e, consequentemente, sua carreira

Nesta segunda metade de temporada, Jesse Lingard tem sido protagonista de uma das melhores histórias recentes de reviravolta pessoal no futebol. Sem espaço no Manchester United e com a reputação em baixa, o meia foi emprestado ao West Ham e, desde sua chegada a Londres, tem brilhado com a camisa dos Hammers. Na superfície, sua recuperação já é incrível, mas o pano de fundo desta história torna a sua superação ainda mais notável.

Em entrevista ao canal de YouTube “Presenting”, Lingard falou das dificuldades pessoais que viveu nos últimos dois anos. Mais especificamente, no ano passado, a mãe do jogador, que sofreu durante maior parte de sua vida de depressão, foi para Londres se tratar, fazendo com que Lingard tomasse as rédeas da casa e cuidasse de seus irmãos mais novos. A situação, como hoje reconhece o jogador, foi difícil e afetou diretamente sua relação com o futebol. Apesar de não ter pensado em se aposentar, o meia reconhece que considerou uma pausa do esporte.

“Não pensei em deixar o futebol, mas em dar uma pausa, na verdade. Eu estava indo para os jogos feliz em ficar no banco, e eu não sou assim. Eu estava falando para o meu irmão outro dia: ‘Lembra de quando eu estava feliz de ficar sentado no banco?’ Eu não queria jogar porque minha cabeça não estava lá, eu não estava nem um pouco focado. Estava pensando em outras coisas e, é claro, guardando tudo dentro de mim, tentando jogar futebol. Mas você fica tenso, estressado, e eu não conseguia”, descreveu.

Lingard revelou que, depois de um tempo, explicou ao Manchester United tudo aquilo por que estava passando e foi bem recebido pelo clube: “É como se você não fosse a mesma pessoa. Senti que eu não era o Jesse Lingard. Mesmo durante os jogos, sentia que o jogo passava por mim, como se eu não quisesse estar lá, foi maluco. Então, eu me abri para o United, disse a eles aquilo pelo que estava passando, o que minha mãe estava enfrentando, e eles sempre estiveram lá para me ajudar”.

Curiosamente, enquanto para muitas pessoas o período do primeiro lockdown para conter a disseminação do coronavírus na primeira metade de 2020 foi um período de dificuldade, para Lingard representou a oportunidade de começar a dar a volta por cima. Foi neste momento que o meia diz ter começado sua volta por cima.

“Eu poderia facilmente ter desistido durante o lockdown. Poderia ter desistido, mas o espírito de luta dentro de mim sempre me traz de volta à vida, e, no lockdown, eu estava arrebentando na academia, fazendo corridas. Queria voltar para os treinos mais veloz e em melhor forma que todo mundo, e consegui”, comemorou

“Senti que o lockdown meio que me serviu de transição, de uma certa maneira. Assisti a meus jogos antigos, vi as partidas da Copa do Mundo, e pensei: ‘É, este é o verdadeiro Jesse Lingard’. Na última temporada, ou nas duas últimas, aquele não era eu, e dava para ver. Meu irmão, que vive comigo, conseguia ver isso e tem até um vídeo em que eu estou literalmente sentado no sofá, olhando para o nada por três minutos, e ele está lá pensando: ‘O que é que ele está passando? Ele está com o peso do mundo sobre os ombros’. E mesmo ele não sabia exatamente o que estava acontecendo naquele momento.”

Olhando por um ângulo positivo, Lingard vê o período difícil como também uma oportunidade de aprendizado. Observando aquilo por que ele e sua mãe passaram, o jogador entendeu a importância de compartilhar o que se está sentindo como primeiro passo da recuperação.

“Sinto que aprendi, com minha mãe e comigo, que quando você se abre, você se sente como uma borboleta. Você está em um casulo e então você pode abrir suas asas e voar. É uma sensação incrível, e agora que tudo isso está no meu passado eu posso me concentrar no futebol e na minha família”, afirmou.

No início de 2021, a mudança de ares fez extremamente bem a Lingard e veio para complementar a volta por cima. No West Ham, o meia chegou voando e acumula números impressionantes. Se antes não havia jogado uma partida sequer de Premier League pelo United na temporada, pelos Hammers tem entregado grande atuação atrás de grande atuação. Em dez jogos, já marcou nove gols e deu quatro assistências, desempenho que o levou de volta para a seleção inglesa às vésperas da disputa da Eurocopa.

“Claro, de vez em quando você vai ser arrastado, haverá altos e baixos, e você pode ter um momento ruim, mas é preciso encontrar algo dentro de você, nunca desistir. Procurar aquela atitude de tentar de novo e de novo, porque nunca fui alguém que desiste”, completou.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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