Premier League

Guia da Premier League 2020/21 – Crystal Palace: Eu quero ver gol. Por favor

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Cidade: Londres
Estádio: Selhurst Park (25.456 pessoas)
Técnico: Roy Hodgson
Posição em 2019/20: 12º
Projeção: Meio de tabela
Principais contratações: Eberechi Eze (QPR), Nathan Ferguson (West Brom), Michy Batshuayi (Chelsea)
 Principais saídas: Ryan Innis (sem clube), Stephan Henderson (sem clube)

Alexander Sörloth é um atacante norueguês. O primeiro “o” do seu sobrenome tem aquele traço diagonal que não costumamos usar. Ele defende o Trabzonspor e, na última temporada, marcou 33 gols. Todo o time do Crystal Palace anotou 31. A ironia? O contrato original de Sörloth é com Crystal Palace. Ele foi emprestado aos turcos por dois anos.

A situação, além de tremendamente engraçada, também pode indicar que a incapacidade de colocar a bola nas redes do Crystal Palace tem mais a ver com o sistema de jogo do que com nomes, e não teremos a prova porque nada indica que Sörloth retornará ao Palace. Tem mais um ano no Trabzonspor e está ligado a uma transferência ao RB Leipzig. Há lugares que colocam Manchester United, Real Madrid, Bayern de Munique, Newcastle e Brighton como interessados em seus serviços, o que também chega a ser divertido.

Acontece que esse sistema dominado por Roy Hodgson gerou a maior sequência do clube na elite do futebol inglês, entrando em seu oitavo ano. E por mais que ir ao Selhurst Park esperando ver gols tenha se tornado um ato de fé, o Palace sempre consegue arrancar algumas vitórias contra os grandes. Na temporada passada, teve um 2 x 1 contra o Manchester United, em Old Trafford, e empatou com o Manchester City. Tem defesa sólida, bom contra-ataque, é organizado e sabe muito bem quem é.

No entanto, a sensação que esses jogos passam de que o Palace não é apenas aquele aluno que sempre tira meio ponto acima da média se esvaiu assim que o time superou 40 pontos, geralmente uma marca segura para escapar do rebaixamento. Terminou a Premier League com sete derrotas seguidas antes de um empate contra o Tottenham, na última rodada.

Houve mais de uma ocasião, especialmente nessa sequência final, em que começou jogando até que direitinho, mas, assim que a partida escapou de seu alcance, meio que desencanou, por que qual é exatamente o propósito? O Palace é mais um daqueles clubes que são administrados bem demais para sofrerem riscos sérios de rebaixamento, mas pequenos demais para ambicionar muito mais. Um purgatório que, para Wilfried Zaha, é o inferno.

A experiência de antecipar o fechamento da janela de transferências para antes da primeira rodada não foi muito bem sucedida, e a Premier League provavelmente voltaria atrás mesmo se não fosse obrigada pela pandemia, mas um ponto positivo para o Palace era pelo menos começar a campanha sabendo se havia ou não perdido o seu principal jogador. Agora, o mistério perdurará pelo menos até o começo de outubro.

Porque Zaha segue sendo prisioneiro dos diretores do Palace ou, mais especificamente, dos longos contratos que assina assim que o mercado fecha para que possa disputar a temporada mais animadinho. O último tem validade até 2023, quando terá quase 31 anos, um pouco velho demais para embarcar em um projeto de longo prazo em um time que faça mais de dois gols por jogo – o que o Palace não conseguiu nenhuma vez na última temporada.

O ciclo é quase sempre o mesmo: surgem interessados, o Palace pede alto demais, ninguém topa pagar, Zaha fica insatisfeito, mas fica. Virou especialista em lidar com a frustração, mas esteve abaixo do seu melhor nível na última temporada. Desde o começo de 2017, o clube londrino somou apenas seis pontos dos 45 em disputa quando não teve Zaha em campo. Não teve a chance de melhorar essa estatística porque o marfinense jogou todas as rodadas da Premier League.

A importância que tem para a equipe obriga os diretores a fazerem jogo duro com os interessados. Dificilmente eles terão um ativo tão valioso em um futuro próximo e querem tirar o máximo possível para reinvestir no time – espera-se. Para o desespero de Zaha, as chances de alguém chegar às cifras exigidas em um mercado atingido pela pandemia diminuíram bastante, mas também existe a possibilidade de o contexto levar o clube a baixar a pedida. Saberemos nas próximas semanas.

As movimentações de mercado até agora podem dar um pouco de esperanças a Zaha. O Palace fez sua contratação mais cara desde que comprou Mamadou Sakho do Liverpool, em 2017, para tirar Eberechi Eze do Queens Park Rangers. O meia-atacante jovem e talentoso de 22 anos comeu a bola na Championship, com 14 gols e oito assistências. Talvez, como o neto que ensina o avô a publicar foto no Instagram, ele possa mostrar ao envelhecido elenco do Crystal Palace como se coloca a bola na rede.

Nenhum jogador do elenco com menos de 26 anos somou mais do que 1.000 minutos na última Premier League. Outra peça que satisfaz a necessidade de renovação é o lateral direito Nathan Ferguson, substituto de Aaron Wan-Bissaka contatado com um ano de atraso ao fim do seu vínculo com o West Brom. Ainda há, claro, o interesse por um atacante. Os nomes mais falados são Jean-Philippe Mateta, do Mainz, e Odsonne Edouard, do Celtic. Também foi fechado um novo empréstimo de Michy Batshuayi que, com um gol em 16 jogos pela Premier League na última temporada defendendo o Chelsea, encaixa perfeitamente no perfil que o Palace gosta para seus atacantes.

Sendo justo, Batshuayi deixou boa impressão nos meses em que passou emprestado no Selhurst Park, em 2019, com cinco tentos em 11 partidas, e pode ajudar. Mais da metade do que o artilheiro do Palace, Jordan Ayew, conseguiu na última campanha – nove. Apenas quatro jogadores superaram os três. De resto, a galera é a mesma de sempre. Joel Ward segurou a barra na lateral direita, ao lado de Gary Cahill e James Tomkins ou Scott Dann, com Patrick van Aanholt na outra lateral. O trio de meio-campo segue extremamente seguro e incrivelmente pouco criativo, com Cheikhou Kouyaté, Luka Milivojevic e James McArthur. E mais alguém joga com Zaha e Ayew no ataque, geralmente Andros Townsend.

Nessa sete temporadas em que disputou a Premier League, o Palace nunca passou do décimo lugar e qualquer ambição de ir além depende da manutenção de Zaha e do reencontro com os gols. Ou, na verdade, de um primeiro encontro.

 

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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