Premier League

Guia da Premier League 2022/23 – Manchester United: Não consegue ter um minuto de sossego

Uma pré-temporada que era para ser de reformulação e expectativa pelo trabalho de Erik ten Hag foi tomada pela novela Cristiano Ronaldo

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Cidade: Manchester
Estádio: Old Trafford (74.994 pessoas)

Temporada passada – 6º lugar

Mesmo com percalços o Manchester United havia dado um passo à frente. Foi irresistível como visitante, liderou a Premier League depois da virada do ano pela primeira vez desde Alex Ferguson e, se não chegou a desafiar o Manchester City, pelo menos terminou em segundo lugar, com uma ótima campanha na Liga Europa para acompanhar. Antes da chegada de Cristiano Ronaldo, com Jadon Sancho e Raphaël Varane, já se esperava que avançasse ainda mais. Era a hora de voltar a brigar de verdade pela coroa inglesa. Aconteceu o contrário. Deu alguns passos para trás.

A temporada inteira foi um desastre e não houve mais do que uma ou outra semana em que parecia que tudo ficaria bem. Ole Gunnar Solskjaer não conseguiu decifrar o grande enigma do futebol moderno – o que fazer com um atacante que marca muito gol, mas não pressiona? – e foi demitido em novembro, depois de levar uma goleada do Watford. Seu trabalho era de altos e baixos e todo mundo amava Solskjaer. Mas não dá para levar uma goleada do Watford – ou do Brighton, mas já falamos disso.

O Manchester United colocou um plano em ação. Tentou algo diferente, vanguardista, arriscado: contratar um profissional do futebol. Acontece que isso também não deu certo. Com a autoridade de um professor substituto, Ralf Rangnick não conseguiu fazer o time melhorar. Se alguma coisa, o deixou pior. O pai da pressão também não soube integrar Cristiano Ronaldo a ela, e o Manchester United foi definhando. Não chegou longe em nenhuma copa inglesa, despachado pelo Atlético de Madrid nas oitavas de final da Champions League e terminou a Premier League perdendo jogo atrás de jogo, goleado pelos seus dois maiores rivais – e pelo Brighton. Até a vaga na Liga Europa chegou a ficar ameaçada.

O clima ficou tão ruim que Rangnick aceitou ser técnico da seleção austríaca, e se em um primeiro momento parecia que executaria as duas funções ao mesmo tempo, o plano de que fosse um consultor a partir da chegada de Erik tem Hag foi abandonado. Ten Hag que se vire agora.

O mercado

Eriksen, do Manchester United (Foto: Divulgação)

Principais chegadas: Tyrell Malacia (Feyenoord), Lisandro Martínez (Ajax), Christian Eriksen (Brentford)

Principais saídas: Paul Pogba (Juventus), Nemanja Matic (Roma), Dean Henderson (Nottingham Forest), Jesse Lingard (Nottingham Forest), Edinson Cavani (sem clube), Juan Mata (sem clube), Andreas Pereira (Fulham), Alex Telles (Sevilla)

Rangnick falou várias vezes que o Manchester United tocaria uma profunda reformulação, e se é verdade que muitos jogadores foram embora, os torcedores ficaram um pouco confusos quando as semanas foram se passando e nenhum chegava. O primeiro reforço foi o lateral esquerdo Tyrell Malacia, fechado no começo de julho. Mais ou menos na mesma época em que a imprensa internacional foi enxurrada por notícias de que Cristiano Ronaldo queria ir embora.

O português se transformou em uma indesejada novela que deve ter distraído a nova cúpula de futebol, agora com John Murtough como diretor de futebol e Ten Hag como técnico. Ele não embarcou nas turnês de pré-temporada do United, alegando problemas pessoais, e se apresentou com atraso para a preparação. No momento, a maior probabilidade é que fique e cumpra o seu último ano de contrato, mas porque está difícil achar um clube que consiga pagar o seu salário e esteja disposto a embarcar na aventura – aquela lá: o que fazer com um atacante que marca muitos gols, mas não pressiona?

Pelo menos, o Manchester United contratou o seu principal alvo para a zaga. Lisandro Martínez é baixo para um defensor, com apenas 1,75 metros, mas é agressivo o suficiente para ganhar muitos duelos aéreos e tem qualidade de passe. Importante para o novo estilo de jogo que Ten Hag quer introduzir. Se Christian Eriksen se aproximar do jogador que já foi, e deu todos os indícios no Brentford de que consegue, será a grande barganha do mercado, contratado sem taxa de transferência.

O United segue ativo. Se perder Cristiano Ronaldo, não pode entrar na temporada com apenas Anthony Martial como opção de centroavante. A prioridade por enquanto é um volante, com Frenkie de Jong na pole position. Apesar do desejo do Barcelona de vendê-lo, o jogador não parece muito animado com a perspectiva de morar em Manchester. Mais uma novela que deve se arrastar por algumas semanas.

O elenco

Se o Manchester United deu passos para atrás, foi também porque alguns jogadores regrediram ou não corresponderam às expectativas. Harry Maguire está em litígio com a torcida, vaiado em amistosos de pré-temporada, e talvez perca a posição para Martínez, dependendo do esquema de Ten Hag. Rashford foi uma sombra, e se disseram que Jadon Sancho nunca embarcou no avião em Dortmund, eu juro que até acredito.

Após a saída de muitos jogadores, o Manchester United tem um elenco em transição. David de Gea ainda é o principal goleiro, com o veterano Tom Heaton na retaguarda. O melhor lateral direito custou £ 50 milhões e nunca chega ao ataque, o que será um problema para as propostas do novo técnico. Difícil saber quanto espaço terá Aaron Wan-Bissaka ou até se ele continuará no clube, e a outra opção é Diogo Dalot – ou o garoto Brandon Williams, que joga nas duas. Com Malacia, um lateral esquerdo teve que sair e acabou sendo Alex Telles. Luke Shaw é a alternativa.

O Manchester United precisará recuperar Varane, que entrou no buraco negro de mediocridade da última temporada, para formar uma boa dupla de zaga com Martínez. Ou recuperar Maguire, que custou demais para ser escanteado sem cerimônias. Victor Lindelöf é outra opção, assim como, por enquanto, Axel Tuanzebe, que retornou de empréstimo do Napoli.

Não é à toa que o United está procurando um novo volante porque tem apenas dois, e nem Fred e nem Scott McTominay são craques em interpretar as ideias cruyffianas de Ten Hag. De Jong realmente cairia como uma luva. Quem amou a chegada do novo técnico é Donny van de Beek, que apresentou o seu melhor futebol com ele no Ajax. Eriksen acrescenta muita criação e será interessante ver como encaixá-lo junto com Bruno Fernandes. Quem fica mais pelos lados?

Recuperação também é a tônica para os jogadores de lado de campo. Sancho precisa voltar a mostrar bom futebol, Rashford também, e Anthony Elanga foi um dos únicos legados concretos deixados por Rangnick. É bom deixar sublinhado que por enquanto, Cristiano Ronaldo é a principal opção para liderar a linha ofensiva. Anthony Martial retornou de empréstimo do Sevilla e deve ganhar sua milésima chance em Old Trafford.

O técnico

Ten Hag e Rashford (Foto: CON CHRONIS/AFP via Getty Images/One Football)

Ele tem uma vantagem: será muito difícil fazer uma temporada pior. Erik ten Hag conduziu o Ajax a uma semifinal de Champions League e colecionou títulos no futebol holandês. Tem um estilo de jogo bem definido, atenção aos detalhes e métodos de treinamento que estão sendo elogiados pelos seus novos comandados – ainda na fase de lua de mel. É o primeiro técnico do Manchester United desde Alex Ferguson que foi contratado mais pelas suas ideias do que pelo currículo vencedor ou pela ligação com o clube. Isso deveria lhe dar tempo e paciência para implementar um projeto de médio prazo. É impossível cobrar muita coisa em uma primeira temporada, com um elenco tão retalhado. Mas a pressão sempre será grande em um clube desse tamanho – e que precisa de vaga na Champions League.

O futuro

O Manchester United tem dois jogadores jovens e importantes que terminaram a última temporada parecendo veteranos – Rashford e Sancho. Por outro lado, Anthony Elanga aproveitou as chances que recebeu de Rangnick e terminou a Premier League praticamente como titular. O sueco de 20 anos, que chegou ao clube inglês ainda adolescente, pode ser importante, especialmente pela ausência de opções de velocidade pelos lados. A ascensão fez com que estreasse pela seleção em março, nos jogos importantes que valeram vaga na Copa do Mundo, e ele continuou sendo convocado para a Liga das Nações em junho.

Expectativa para a temporada

O mínimo que se espera é que o Manchester United aponte um caminho: olha, é para lá que estamos indo. Isso seria um avanço. Em termos concretos, precisa retornar à Champions League e neste momento é difícil visualizar como isso aconteceria. Liverpool e Manchester City, sem dúvida, são mais fortes. O Chelsea, se conseguir reconstruir o seu elenco com bons reforços, também. Sobra uma vaga, a ser novamente disputada com a dupla de Londres. Arsenal e Tottenham tiveram um time mais consistente e se reforçaram muito bem. Há um caminho pela Liga Europa, mas qualquer cenário exigirá um ótimo trabalho de Ten Hag. O atenuante é que recursos humanos pelo menos ele tem.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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