Premier League

A história da estátua de Michael Jackson que rebaixou o Fulham (mas não de verdade)

Mohamed Al-Fayed, ex-dono do Fulham, colocou a estátua nos arredores do Craven Cottage em 2011 e morreu semana passada aos 94 anos

Houve um momento na história, um glorioso intervalo de aproximadamente dois anos e meio, em que uma estátua em homenagem a Michael Jackson morava no Estádio Craven Cottage, a simpática casa do Fulham às margens do Rio Tâmisa, em Londres. É justo você se perguntar o que o astro pop tem a ver com o clube e provavelmente não ficará surpreso ao descobrir que a resposta é nada, ele não tem nada a ver com o clube, exceto uma visita a um jogo contra o Wigan em 1999. Hugh Grant apareceu mais vezes nas arquibancadas e nunca virou gesso. A homenagem não foi nada mais que um controverso capricho do ex-dono do Fulham, Mohamed Al-Fayed, amigo pessoal de Jackson e pai do último namorado da princesa Diana, que morreu aos 94 anos semana passada.

Nascido em Alexandria, Fayed era um bilionário de origem egípcia e obcecado pelo Reino Unido. Foi dono da loja de departamentos Harrods e doador frequente da exibição de cavalos de Windsor, às vezes fotografado ao lado da rainha Elizabeth. Era pai de Dodi, o homem que morreu com Diana no acidente de carro em Paris, e foi inclusive quem começou a alimentar a teoria da conspiração de que a família real britânica estava por trás da morte da ex-esposa do agora rei Charles. Foi protagonista de muitos episódios delicados, envolvendo corrupção e acusações de assédio sexual – algumas investigações foram abertas, mas a promotoria repetidas vezes desistiu de processá-lo.

Em 1997, ele comprou o Fulham, com a promessa de levá-lo à Premier League o mais rápido possível. Conseguiu em quatro anos, conquistando dois títulos de divisões inferiores, e supervisionou a maior parte de uma longa estadia de 13 temporadas consecutivas na elite, com um vice-campeonato da Liga Europa, antes de vender os londrinos para o atual dono, Shahid Khan, em 2013. Durante todo esse processo, estima-se que ele colocou £ 200 milhões do próprio bolso.

Logo, quando decidiu transferir a estátua do Michael Jackson que havia encomendado para a Harrods ao Craven Cottage, houve certa divisão: a ideia era obviamente ridícula, mas ele havia feito tanto pelo Fulham que alguns acharam que ganhara o direito a um capricho. O capricho só não era pequeno porque a estátua tem mais de dois metros de altura.

Quando Michael Jackson visitou o Craven Cottage

Al-Fayed segura o guarda-chuva para Michael Jackson no Craven Cottage (Foto: Divulgação)

Não era para ser um jogo muito especial. O Fulham, treinado por Kevin Keegan, caminhava para ser campeão da terceira divisão em abril de 1999 quando recebeu o Wigan no Craven Cottage. Os visitantes, porém, seriam eclipsados por outro um pouquinho mais mundialmente famoso. Após dar uma volta na Harrods, Michael Jackson aceitou o convite da Fayed para assistir à partida na tribuna de honra ao lado do bilionário. Inclusive desceu com ele para dar uma volta em torno do gramado e até foi aos vestiários para cumprimentar os jogadores após a partida.

Antes de existir o Twitter para algum funcionário da equipe de comunicação anunciar que “Michael Jackson is in the house”, você pode compreender que tanto os torcedores quanto os jogadores do Fulham foram pegos meio de surpresa com a presença de uma das pessoas mais famosas que já existiram em um pequeno estádio no oeste de Londres.

– Eu me lembro de Al-Fayed dando a volta do gramado, como ele sempre fazia, com seu entourage. Nós achávamos que era um sósia. Por que o verdadeiro Michael Jackson estaria no Fulham? Quando o sol saiu das nuvens, eles abriram um grande guarda-chuva do Fulham. Foi naquele momento que nós percebemos… diabos, é mesmo o Michael Jackson – disse Tom Greatrex, presidente da Fulham Supporter’s Trust, ao The Athletic.

A reação dos jogadores foi parecida, como conta o ex-atacante Barry Hayles, que marcou 13 gols em 75 partidas pelo Fulham na Premier League, em entrevista ao Daily Star.

– Foi incrível conhecer Michael Jackson. Tenho que dizer que foi estranho, porém. Muitas pessoas acharam que não era ele, mas definitivamente era. Ele era um personagem. Eu me lembro dele andando sozinho pela fila dizendo ‘grande jogo’ para todo o elenco, mas apenas 14 de nós jogamos, não os 30 para quem ele disse aquilo – contou.

Michael Jackson também tomou um chá com Kevin Keegan.

– Eu estava prestes a começar minha palestra para a equipe quando o senhor Fayed entrou no vestiário com um grande sorriso no rosto, acompanhado por um cara alto e magro que parecia um pouco com Michael Jackson. Ele sorriu, tímido, e eu o ouvi dizer ‘hey’, e caiu a ficha que, caramba, era o verdadeiro Michael Jackson. Não fazia sentido tentar continuar minha palestra. Os jogadores não estavam ouvindo uma palavra. Então eu andei com o Rei do Pop pelos corredores da velha arquibancada Stevenage Road para lhe fazer uma xícara de chá na sala dos jogadores – escreveu o craque de Liverpool e Hamburgo em sua autobiografia My Life In Football.

E Jackson adorou a aventura.

– Eu não sabia nada sobre futebol e nunca havia ido a um evento esportivo, então foi uma grande experiência para mim. Sou um torcedor de futebol agora, definitivamente. Estou viciado. Foi tão empolgante e apaixonante. Os torcedores eram como as pessoas que vão aos meus shows. Estavam gritando e torcendo pelos jogadores. Eu queria pular e começar a dançar porque estou acostumado a me apresentar no palco quando ouço esse barulho. O Fulham pareceu um time muito bom com um grande espírito. Conheci os jogadores e eles foram tão legais comigo – afirmou, ao Daily Mirror. 

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e junte-se à nossa comunidade. Receba conteúdo exclusivo toda semana e concorra a prêmios incríveis!

Já somos mais de 4.800 apaixonados por futebol!

Ao se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

Quem não gostou que vá para o inferno

A estátua vista de dentro do estádio (Foto: Spi/Icon Sport)

Não há nenhuma evidência de que Michael Jackson realmente era fã de futebol, ou que continuou acompanhando o Fulham, mas aquela visita deu a Al-Fayed um álibi para justificar a transferência da estátua para o Craven Cottage – não que ele realmente precisasse de um.

A estátua de gesso e resina foi encomendada ao escultor Bill Mitchell, o mesmo que construiu outra de Dodi e Diana, com as mãos estendidas, embaixo de um albatroz, que passou 13 anos na Harrods. Aliás, apenas por curiosidade, essa homenagem foi batizada em 2005 por Al-Fayed de “Vítimas Inocentes” porque “há oito anos eu luto para provar que meu filho e a princesa Diana foram assassinados”.

Enfim, de volta ao mundo real, Al-Fayed pediu a estátua depois da morte de Jackson em 2009, e a ideia era também a exibir na Harrods. No entanto, a loja de departamentos foi vendida à família real do Catar no ano seguinte, então a homenagem foi transferida para outra propriedade de prestígio do bilionário e estreou em mais um maravilhoso dia de abril, em 2011, antes de uma partida contra o Blackpool. Torcedores ficaram um pouquinho estupefatos. Um deles disse à BBC que achou que era uma brincadeira de 1º de abril. Outro afirmou que o Fulham se tornaria motivo de piada.

Fayed sabia exatamente para onde mandar os torcedores insatisfeitos: para o inferno. Ou (na concepção de muitos deles, pior ainda) para o Chelsea.

– Se alguns torcedores estúpidos não entendem ou apreciam o presente que esse cara deu ao mundo, eles podem ir para o inferno. Eu não os quero como torcedores. Se eles não entendem ou não acreditam no que eu acredito, eles podem ir para o Chelsea, eles podem ir para qualquer lugar – respondeu Fayed – Ele amava vir aqui, ele amava o Fulham e queria vir a todos os jogos. Pessoas farão fila para visitá-la de todo o país e é algo do qual eu e todos deveríamos nos orgulhar.

De repente, o Fulham tinha duas estátuas: uma do meia Johnny Haynes, lendário jogador dos anos 1960, e outra de Michael Jackson. Pelo menos, ela não ficava tão à mostra. Foi colocada perto da arquibancada Hammersmith End e era visível apenas para quem estivesse passeando de barquinho pelo rio ou para os torcedores da casa depois das catracas. Era possível fingir que ela não existia.

– A coisa inteira é bizarra. Se eu fosse consultado: eu quero? Eu diria não. Mas temos um presidente que fez tanto por nós que, se ele quer uma estátua do Michael Jackson, que seja. O que não queremos é a ridicularização que virá com ela – afirmou o editor da fanzine do Fulham, There’s Only One F in Fulham, David Lloyd, ao Guardian, em abril de 2011.

Tinha um outro problema também: ela era meio feia.

– Algumas pessoas acharam um pouco vergonhoso. Provavelmente havia mais pessoas que acharam vergonhoso depois que a viram porque a outra coisa era que, entre o grande panteão de estátuas horríveis em estádios de futebol, essa tem que estar entre as piores. Não sei se você já a viu de perto, mas parece uma estátua que foi rejeitada do Madame Tussauds (famoso museu de estátuas de cera), um trabalho de cera que foi rechaçado por não ser bom o bastante – continuou Greatex, líder do truste de torcedores do Fulham, ao The Athletic, também reconhecendo que a estátua, como Al-Fayed previu, realmente atraiu turistas.

– Havia um bar naquele lado, então se eu estivesse no Hammersmith End, eu frequentemente ia naquele bar pegar uma bebida no intervalo ou antes do jogo. Você via as pessoas tirando foto com a estátua. Eu não acho que elas estavam sendo irônicas. Foi provavelmente um pouco antes do pau de selfie ser inventado, mas eram pessoas que vieram ao Fulham ver a estátua. Não estavam lá para ver o futebol ou interessados em futebol. Eles eram super-fãs do Michael Jackson que queriam ver a estátua – completou o torcedor.

Ninguém mandou tirar a estátua

Uma das primeiras coisas que Shahid Khan fez ao comprar o Fulham em 2013 foi respeitosamente devolver a estátua para Al-Fayed.

– Respeito o senhor Al-Fayed e sei que ele teve boas intenções em fazer uma homenagem individual. No entanto, a retirada da estátua é a coisa certa para o Fulham – afirmou Khan.

Ela foi substituída três anos depois por uma mais apropriada do ex-goleiro George Cohen, o único jogador do clube no elenco do título mundial da Inglaterra. Foi uma medida inteligente para ganhar a simpatia de parte da torcida logo de cara, mas também causou o rebaixamento da Premier League, com a segunda pior campanha, e o fim de uma sequência de 13 anos na Premier League.

Claro que não causou, mas a essa altura você já tem uma ideia do tipo de coisa que passava pela cabeça de Mohamed Al-Fayed.

– Essa estátua era um amuleto da sorte e nós removemos a sorte do clube e agora temos que pagar o preço. Quando (Khan) me pediu para retirá-lo, eu disse: você deve estar louco. É uma estátua tão fantástica. Mas agora ele pagou o preço porque o clube foi rebaixado. Ele me ligou porque me disse que queria que Michael voltasse. Eu disse: sem chance – afirmou, à agência Press Association.

Onde está a estátua hoje em dia?

Colecionador de arte eclético, talvez eclético demais, o ex-técnico do Fulham, Martin Jol, teria feito uma proposta de £ 20 mil para comprar a estátua e colocá-la no quintal da sua casa, segundo o Daily Mail, mas o negócio colapsou quando o holandês foi demitido, em dezembro da temporada do rebaixamento. A obra de arte foi parar no Museu Nacional do Futebol, em Manchester. A entidade afirmou que era uma “adição provocativa” pela história por trás da estátua e sua relação com o Fulham.

– O Museu do Futebol Nacional é uma instituição esplêndida. A estátua significa muito para mim e para minha família, mas, refletindo, decidi que deveria ir para algum lugar que possa ser apreciada pelo máximo de pessoas possível. Eu acho que Michael teria aprovado a escolha. Como o próprio futebol, ele entreteu o mundo – afirmou.

A estátua permaneceu em exibição até 2019, quando uma série de documentários chamada Leaving Neverland, do Channel 4 e da HBO, trouxe novas alegações de abuso sexual contra Michael Jackson. A família da estrela pop negou as acusações. Embora tenha sido na mesma época do lançamento, o museu disse que a retirada estava planejada há meses e fazia parte de uma ideia de “representar melhor as histórias que queremos contar sobre o futebol”.

Curiosamente, ela hoje em dia vive em outro estádio: um porta-voz do museu afirmou ao Manchester Evening News que ela foi guardada nos arquivos da instituição, que ficam no Deepdale, casa do Preston North End, cerca de 50km ao noroeste de Manchester.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo