Exatos dez anos atrás, Wayne Rooney, que ilustrou sua carreira com golaços, marcava o mais bonito e marcante deles. Pela estética, pelo momento, pelo adversário e pelo cenário, a bicicleta que decretou a vitória do Manchester United por 2 a 1 sobre o rival Manchester City em 12 de fevereiro de 2011 é considerada pelo próprio ex-jogador como o seu maior gol, e na ocasião do aniversário de dez anos da pintura, relembramos o pano de fundo daquele que é também considerado por alguns o gol mais bonito da era moderna do Campeonato Inglês.

No início daquela temporada 2010/11, depois de ver Tevez deixar o clube e Cristiano Ronaldo ser vendido ao Real Madrid, Wayne Rooney questionava sua continuidade em Manchester. O então atacante, prestes a fazer 25 anos, estava diante de uma proposta de cinco anos que considerava ser o seu último grande contrato ainda como jogador em seu auge. Conforme revelou em podcast oficial recente do Manchester United, Rooney não gostava da direção que via o clube tomando e expressou isso a Alex Ferguson, cobrando maior ambição na montagem do elenco. Os dois, que até então sempre haviam tido uma ótima relação, se desentenderam, com o lendário treinador dizendo que não cabia a Rooney se intrometer em tais assuntos.

O camisa 10 então pediu para deixar o clube e tinha grandes pretendentes batendo à porta. Chelsea, Real Madrid e Barcelona queriam o jogador, que por sua vez admitiu que vislumbrava um futuro na Catalunha, onde acreditava que se encaixaria como uma luva no ataque barcelonista.

A novela se arrastou ainda por algum tempo e só foi concluída em outubro de 2010, com o anúncio de que Rooney havia assinado o contrato de cinco anos. O ex-jogador, no entanto, não saiu do episódio incólume. Sua reputação entre os torcedores do United havia despencado diante do fato de que sua vontade de sair havia vindo a público, e só o tempo – e uma boa dose de grande futebol – repararia a relação.

Com 16 gols e 14 assistências naquela temporada, Rooney entregou isso, e a sua pintura contra o City foi um momento determinante para isso. Não que tenha feito tudo magicamente desaparecer, mas o camisa 10 reconhece que ajudou – e muito. “Nos primeiros jogos (após a polêmica sobre a quase saída), eu podia sentir a tensão. Talvez alguns torcedores até hoje não superaram aquilo completamente, e eu entendo isso”, relembrou o atacante em participação no podcast oficial do United.

Mais do que a plasticidade, o gol de Rooney naquele 12 de fevereiro de 2010 tem um significado grande para a história daquela temporada. O Manchester United liderava a Premier League após 26 jogos, mas tinha o Arsenal em sua cola e, na rodada anterior, havia sofrido sua primeira derrota na liga, contra o Wolverhampton, então na zona de rebaixamento. A imprensa já questionava se a equipe seria capaz de dar uma resposta e se manter em seu curso para o título, já que os Gunners estavam a apenas um ponto de distância.

O City era o terceiro colocado com quatro pontos a menos, e uma vitória o faria colar no líder e também reforçar a sua candidatura ao título. Ali, vale ressaltar, os Sky Blues viviam ainda um período de transição, menos de três anos após a compra do clube por parte dos Emirados Árabes.

Nani havia inaugurado o placar aos 41 minutos do primeiro tempo, e David Silva havia empatado para o City aos 20 do segundo tempo. Até então, Rooney estava apagado no jogo, seguido de perto e controlado por Vincent Kompany. O belga, em referência àquele jogo, lembra: “Atacantes de elite fazem coisas em momentos inacreditáveis, e aquele gol foi um testemunho do talento do Wayne. Eu não conseguia acreditar, porque, naquele jogo, ele tinha ficado completamente no meu bolso. Fiz uma partida muito boa, e então ele tira aquele chute de bicicleta, e eu estou lá pensando: ‘Ah, qual é’. Mas tenho muito respeito por Wayne”.

Aos 33 minutos do segundo tempo, Nani recebeu a bola pela direita e, com espaço, teve tempo de ajeitar o corpo e colocar a bola perfeita para Rooney. O atacante então se soltou da marcação de Kompany e, pela trajetória da bola, tinha apenas a opção de arriscar a bicicleta. “Para ser sincero, eu simplesmente pensei em tentar. Não estava fazendo minha melhor partida, e ainda bem que ela entrou no ângulo. Depois, vencemos a liga naquele ano, e foi um grande jogo para nós”, lembra o inglês.

Em seu relato da partida, a BBC definiu a qualidade do gol como “digna de vencer qualquer jogo” e projetou, de maneira acertada, que Alex Ferguson poderia, mais pra frente, olhar para o gol como “o lance que lhe deu o título após se recuperar da primeira derrota na temporada da Premier League para os Wolves”.

Aquele confronto está bem colocado entre os duelos de Manchester que começavam a evidenciar o reequilíbrio das forças – e serviria ao City como um prefácio do histórico título conquistado na temporada seguinte com o gol de Agüero contra o QPR, dando fim a um jejum de 44 anos sem vencer o Campeonato Inglês.