Premier League

Cristiano Ronaldo rescinde com o Manchester United e consegue o que queria. Mas a que custo? 

Após pedir para sair durante o mercado de transferências e forçar a mão do United com uma entrevista bombástica, Ronaldo está livre no mercado para assinar com quem quiser

O retorno de Cristiano Ronaldo ao Manchester United começou como uma história bonita. Estava perto do Manchester City, mas foi convencido por lendas do clube a não trair as cores com as quais se projetou como um dos melhores jogadores do mundo. O fim, porém, é triste e melancólico. Nesta terça-feira, os Red Devils anunciaram que o contrato do português foi rescindido em comum acordo, após Ronaldo dar uma entrevista bombástica à imprensa inglesa criticando o clube, a sua estrutura e até o técnico Erik ten Hag diretamente.

A segunda passagem de Cristiano Ronaldo por Old Trafford começou a acabar quando o Manchester United não conseguiu vaga na Champions League. Ele se apresentou com atraso à pré-temporada, alegando problemas pessoais, meses depois de perder um filho recém-nascido. Ao mesmo tempo, veículos importantes como Guardian, ESPN e The Times receberam a informação de que ele havia pedido para ser negociado. Não houve negócio, porém, com baixo interesse pelos serviços do atacante de 37 anos e um salário impeditivo.

Desde que foi anunciado como técnico do Manchester United, Ten Hag disse em público que não via a hora de trabalhar com Cristiano Ronaldo e reforçou várias vezes que contava com ele em seu planejamento, mesmo depois de tê-lo suspendido de um jogo contra o Chelsea por se recusar a enfrentar o Tottenham e deixar o estádio antes do apito final. Ronaldo havia feito a mesma coisa em um amistoso contra o Rayo Vallecano, durante a pré-temporada, indo embora no intervalo.

Na prática, porém, Ten Hag considerou Cristiano Ronaldo um reserva. Ele começou jogando apenas quatro vezes em 16 rodadas da Premier League, embora tenha saído do banco de reservas, quando estava afim, em outras seis. Titular na Liga Europa, marcou apenas nos dois encontros com o Sheriff Tiraspol e não conseguiu produzir argumentos à defesa de que deveria ter mais espaço no Campeonato Inglês. Deixa o United com 27 gols em 55 partidas nessa segunda passagem, apenas três nos últimos meses antes da paralisação da Copa do Mundo.

Na primeira temporada, pelo menos conseguiu ter protagonista, com uma quantidade enorme de gols decisivos, embora coletivamente a equipe tenha funcionado pior com ele do que na campanha anterior, sob o comando de Ole Gunnar Solskjaer. Junto com a decadência da Juventus, era legítima a dúvida se ainda é possível armar um time competitivo com um atacante que basicamente apenas finaliza – mesmo sendo muito bom nisso -, mas se movimenta pouco e não participa do trabalho defensivo.

Assim que foi dispensado pelo Manchester United para se apresentar à seleção portuguesa, o jornalista Piers Morgan publicou trechos de uma entrevista no tabloide The Sun em que Ronaldo dizia se sentir traído pelo clube porque sentia que Ten Hag e “duas ou três” outras pessoas o estavam forçando a sair. Afirmou que não respeita o técnico porque “ele nunca mostrou respeito a mim”, o que não é verdade: ele apenas achou que ele deveria ser reserva. Criticou decisões do United, como trazer Ralf Rangnick para substituir Solskjaer interinamente, e a própria estrutura dos Red Devils.

Era óbvio que estava forçando a mão do Manchester United, que simplesmente não poderia trazê-lo de volta após o Mundial do Catar diante dessas declarações. Em uma nota, o United anunciou que tomaria “as medidas apropriadas” em relação à entrevista e começou um processo legal contra Ronaldo por violação de contrato. A situação, porém, foi resolvida rapidamente, em menos de uma semana.

“Cristiano Ronaldo deixará o Manchester United por comum acordo e efeito imediato. O clube agradece sua imensa contribuição em duas passagens por Old Trafford, marcando 145 gols em 346 jogos e deseja que ele e sua família fiquem bem no futuro. Todos no Manchester United continuam focados em continuar o progresso do time sob o comando de Erik ten Hag, trabalhando juntos para ter sucesso em campo”, disse uma curta nota do United. Ronaldo disse que seu amor pelo clube e pelos torcedores nunca mudará, mas que “sentiu que era a hora certa de buscar um novo desafio”.

Os detalhes da saída ainda não estão claros. O Guardian diz que não há impedimento para que Ronaldo acerte com qualquer clube. O jornalista Miguel Delaney, do Independent, ouviu que o United não terá que pagar os sete meses restantes de seu contrato. De qualquer maneira, ele conseguiu o essencial do que queria: está livre no mercado para assinar com um participante da Champions League, retornar ao Sporting ou ganhar dinheiro em alguma liga menos competitiva. Mas durante o processo, transformou uma gloriosa volta para casa em um episódio que apenas manchou a sua idolatria com um dos clubes da sua vida.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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