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Clubes da Premier League decidem acabar com patrocínio de casas de apostas na frente das camisas

Em meio a uma pressão do governo, Premier League toma iniciativa de banir anúncios na frente da camisa, mas ainda permite nas mangas e nas placas de publicidade em campo

Os clubes da Premier League votaram para acabar com o patrocínio de casas de apostas na frente das camisas. A votação foi realizada com os 20 clubes da Premier League nesta quinta-feira e foi o único item discutido na reunião. Este era um tópico que vinha sendo muito discutido e era esperado que que essa medida fosse aprovada. Há um prazo de adequação de três anos, o que significa que os clubes terão até o final da temporada 2025/26 para fazerem as mudanças.

Embora a medida impeça que casas de apostas de estarem como patrocinadoras principais nas camisas dos clubes, ainda será permitido que elas estejam nas mangas. Além disso, ainda poderão patrocinar os campeonatos e estarem nas placas de publicidade, onde, segundo estudos, é onde mais essas marcas aparecem.

Atualmente, oito clubes da Premier League têm patrocínios de casas de apostas na frente das camisas: Brentford, Everton, Fulham, Leeds United, Newcastle United, Southampton e West Ham. Outros cinco clubes da segunda divisão, a Championship, têm patrocínios de casas de apostas na frente das camisas: Birmingham, Coventry, Middlesbrough, Stoke e Watford.

“Os clubes da Premier League decidiram hoje coletivamente retirar os patrocínios de casas de apostas da frente das camisas dos clubes, se tornando a primeira liga de esportes no Reino Unido a tomar uma medida como essa voluntariamente para reduzir a publicidade de apostas”, afirma o comunicado da Premier League.

“O anúncio acontece depois de uma extensiva consulta envolvendo a liga, seus clubes e o Departamento de Cultura, Mídia e Esportes como parte da revisão do governo da atual legislação de apostas”, continua o texto. “A Premier League também está trabalhando com outros esportes no desenvolvimento de um novo código de responsabilidade para propagandas de apostas”.

O contexto aqui é muito importante. O governo está em um processo de revisão do futebol a partir de um regulador independente, que já foi confirmado no projeto apresentado no parlamento britânico. Há, entre muitas coisas, uma revisão sobre a questão da relação com as casas de apostas, inclusive sobre uma regulação maior sobre a publicidade desse tipo de serviço no esporte e no futebol, em específico.

A medida da Premier League também segue uma tendência que já acontece em outras grandes ligas. Na Serie A, os clubes não podem ter patrocínios de casas de apostas desde 2019, enquanto La Liga, da Espanha, tomou medida similar em 2021. A Europa tem muitos casos diferentes e a França, por exemplo, não tem qualquer restrição. A tendência, porém, é um pedido cada vez maior por regulação na relação entre casas de apostas, patrocínios, publicidade e o futebol.

Banir a publicidade na parte principal das camisas é indubitavelmente uma medida positiva, porque há uma preocupação no Reino Unido, um país com uma regulação extensa sobre apostas, sobre vício em apostas, que é um problema. Já houve pedidos dos clubes, por exemplo, para que os modelos de camisas infantis não tenham patrocínios de casas de apostas.

Para James Grimes, um apostador viciado que se recuperou e criou o “Big Step”, um grupo que faz campanhas para convencer os clubes a cortarem seus vínculos com casas de apostas, afirma que a medida é boa, mas é preciso avançar mais.

“O anúncio de hoje é uma aceitação significativa dos danos causados pelo patrocínio de casas de apostas. Nenhum anúncio de casas de apostas é mais visto do que nas camisas na Premier League, vestidas por bilhões ao redor do mundo”, disse Grimes.

“Mas apenas mover os logos para uma parte diferente do uniforme permitindo anúncios em campo e patrocínio das ligas continua a ser totalmente incoerente. Sem uma ação governamental em todas as formas de anúncios de apostas no futebol, em todos os níveis, cassinos online irão explorar quaisquer medidas voluntárias e continuarão a comercializar seus produtos por meio do nosso esporte nacional”, afirmou ainda James Grimes.

“Embora o resultado não seja perfeito, é um grande passo. Há pouco mais de três anos, havia cerca de 30 clubes nas duas principais divisões com patrocínio na frente da camisa, com o anúncio de hoje, estamos chegando perto de quando o número será zero”.

Alô, Brasil!

Com as casas de apostas em processo de regulamentação no Brasil, seria importante que esse tipo de medida fosse olhado com atenção pelos dirigentes e políticos daqui. Será preciso regulamentar as casas de apostas não só para criar regras e cobrar impostos (de preferência bem altos, como acontece com as indústrias do álcool e tabaco), mas também para lidar com esse tipo de situação.

Como será a relação do futebol e do esporte em geral com as casas de apostas? Por lá, jogadores em atividade não podem fazer propagandas de casas de apostas. Por aqui, isso é altamente comum, inclusive em anúncios que acontecem em jogos que eles estão em campo. Será preciso criar medidas regulatórias e também pensar em medidas de redução de danos, porque sim: haverá pessoas que irão se viciar em apostas e o governo precisará ter um plano para lidar com isso e para tentar reduzir ao máximo a chance de isso acontecer, embora seja impossível zerar.

Está claro que proibir casas de apostas é impossível em um mundo com internet, então é preciso regular. Mas o Brasil precisa olhar para o que está acontecendo no mundo e nas grandes ligas para extrair o melhor dessas experiências.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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