Premier League

City deu todas as chances para descobrir se ainda podia confiar no físico de Agüero – e parece ter decidido que não

Contratado em 2011, Agüero fez história no Manchester City, se tornou o maior artilheiro da história do clube e deixará a equipe para buscar outros caminhos

Ídolos precisam ser tratados com cuidado. Não podem ser dispensados de qualquer maneira, no primeiro sinal de queda de rendimento, no primeiro problema físico. O divórcio precisa ser amigável para preservar as boas memórias. Ao que tudo indica, assim será a separação entre Manchester City e Sergio Agüero, anunciada nesta segunda-feira. O maior artilheiro da história do clube não renovará contrato e buscará uma casa nova ao fim da temporada.

Os dois lados adotaram o tom certo nas declarações. Agüero destacou o forte laço que criou com todos que amam o Manchester City e a longevidade de ter disputado dez temporadas seguidas com aquela camisa. Os donos falaram em homenagens, estátuas e gratidão. É assim que tem que ser. Mas acima de tudo, o City teve paciência. Deu todas as chances para descobrir se ainda podia confiar no físico do atacante e parece que acabou decidindo que não.

É o único motivo plausível para a decisão porque, até a temporada passada, Agüero ainda manteve uma alta média de gols – 23 em 32 partidas – quando esteve em campo, mas ele tem que ser confiável em duas frentes. Uma delas, claro, é conseguir converter as chances em gols com frequência. A outra é jogar todas as semanas. Isso vale para qualquer posição, mas especialmente ao centroavante. São caros, possuem atributos especiais e há poucos do nível de Agüero no mundo. Ninguém terá dois.

Nos últimos três anos mais ou menos, sempre foi um pouco incerto quando o City poderia contar com o seu. A temporada 2018/19 foi a mais confiável de Agüero nesse período, a única em que ele ficou mais de 3 mil minutos em campo, aproximando-se das campanhas em que mais foi utilizado – com média de 3,5 mil minutos. Nas outras duas, porém, teve uma série de pequenos problemas físicos e, mesmo recuperado, exigia cuidado para não se quebrar novamente.

Até chegarmos à atual temporada, prejudicada por uma cirurgia no joelho e uma infecção por coronavírus que o fez perder cerca de um mês de ação em janeiro. O time encaixou sem ele. Guardiola encontrou uma maneira de compensar os seus gols dividindo-os entre vários atletas ofensivos que se revezam no comando de ataque – e, infelizmente para ele, não com Gabriel Jesus assumindo mais protagonismo. Recuperado desde o começo de fevereiro, sequer saiu do banco em cinco rodadas da Premier League e foi titular em apenas duas. Disputou meros 25 minutos contra o Borussia Mönchengladbach na Champions League. Fez 14 partidas por todas as competições, oito pela Premier League, com três gols.

O ajuste tático de Guardiola tem funcionado. O City segue na briga por quatro títulos, o que seria um sucesso sem precedentes. Mas um time com as ambições do City precisa de um camisa 9 que passa mais segurança de que estará disponível por dez ou 15 jogos seguidos. Ou melhor: precisar talvez não precise, mas fica mais fácil se houver um.

Outros talvez tivessem dado adeus antes de ficar tão claro que era a hora. Se não houvesse uma ligação tão forte entre jogador e Manchester City, isso provavelmente teria acontecido. Mas Agüero é sem dúvida um dos dez jogadores mais importantes da história dos Citizens, talvez um dos cinco, talvez o maior de todos. Ninguém fez mais gols do que ele. Ao fim da Premier League, ninguém também terá conquistado mais títulos ingleses pelo City do que ele, o último remanescente daquela tarde de domingo contra o Queens Park Rangers.

Porque também tem essa: além de tudo, Agüero foi o protagonista do maior momento da história do Manchester City, o gol do 3 a 2 contra o QPR, no último minuto da temporada, que tirou o título do vizinho Manchester United e o entregou ao City pela primeira vez em 44 anos. Não é à toa que virará estátua.

“A contribuição de Sergio para o Manchester City nos últimos dez anos não pode ser superestimada. Sua lenda ficará marcada nas memórias de todos que amam o clube e talvez até em todos que simplesmente amam futebol. Ainda não é o momento para palavras de adeus e discursos. Ainda há muito a ser conquistado no tempo que ainda temos com Sergio. Enquanto isso, me dá muito prazer anunciar que encomendaremos uma estátua de Sergio que ficará no Etihad Stadium ao lado de outra sob construção para Vincent (Kompany) e David (Silva)”, afirmou o presidente do clube, Khaldoon al-Mubarak.

A ideia do clube é realizar a despedida de Agüero no último jogo da Premier League desta temporada, em 23 de maio, contra o Everton, no Etihad Stadium, quando talvez haja a possibilidade de contar com torcedores nas arquibancadas. “Um imenso sentimento de satisfação e orgulho permanece em mim por ter jogado pelo Manchester City por dez temporadas completas – incomum para um jogador profissional hoje em dia”, afirmou o argentino.

“Dez temporadas com grandes títulos, durante as quais eu consegui me tornar o maior artilheiro da história (do clube) e criar uma relação indestrutível com todos que amam o clube – pessoas que sempre estarão em meu coração”.

“Eu cheguei durante a reconstrução de 2011 e, com a condução dos donos e a contribuição de muitos jogadores, ganhamos um lugar entre os melhores do mundo. A tarefa de manter essa posição tão merecida será de outros. Da minha parte, continuarei a dar o meu melhor pelo resto da temporada para vencer mais títulos e trazer mais alegria aos torcedores”.

“E então, um novo estágio com novos desafios começará e estou completamente pronto para encará-los com a mesma paixão e profissionalismo que sempre dediquei para continuar competindo no mais alto nível”, completou.

A declaração de Agüero indica que ele ainda acredita que tem muito a dar. Normal, também, ainda aos 32 anos. Mas não há indiretas ou sinais de rancor – nem relatos na imprensa inglesa. A separação parecia iminente. Agüero teve dez anos brilhantes pelo Manchester City. Uma história que não poderia ter sido mais bonita. E que agora está prestes a acabar.

.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo