Premier League

Após 17 partidas e um futebol burocrático, Nuno Espírito Santo acaba demitido pelo Tottenham

A derrota para o Manchester United foi a gota d'água para Nuno Espírito Santo e, segundo a imprensa inglesa, as conversas com Antonio Conte estão avançadas

Estava claro como o duelo entre Tottenham e Manchester United neste sábado poderia resultar em demissão. Porém, enquanto muita gente imaginava que Ole Gunnar Solskjaer estaria desempregado com uma derrota, o triunfo dos Red Devils por 3 a 0 resultou na saída de Nuno Espírito Santo. Nesta segunda-feira, os Spurs confirmaram a demissão do comandante, bem como de toda a sua comissão técnica. Enquanto isso, veículos de imprensa na Inglaterra e na Itália apontam que a diretoria londrina está em conversas avançadas com Antonio Conte, alvo do clube desde a pré-temporada.

A demissão de Nuno Espírito Santo surpreende pela rapidez com que foi tomada, mas não pelas desconfianças ao redor do treinador desde o princípio ou mesmo por seu desempenho. O Tottenham namorou com outros tantos técnicos após a demissão de José Mourinho, mas nenhuma conversa realmente vingou. Antonio Conte era o nome mais forte entre os especulados, sem que as diferentes partes chegassem a um acordo. Paulo Fonseca e Gennaro Gattuso foram outros que se aproximaram dos Spurs, até que os negócios caíssem por terra. Espírito Santo acabou virando uma cartada alternativa depois de tantas dificuldades.

Porém, desde o princípio, a escolha de Nuno Espírito Santo parecia problemática. Se o Tottenham se afundou no fim da passagem de José Mourinho e optou por demitir o português, seu sucessor (depois do período interino com Ryan Mason) trazia um repertório tático parecido com o do veterano. A trajetória de Espírito Santo pelo Wolverhampton foi singular, especialmente pela forma como impulsionou um clube tão tradicional da Championship rumo à Liga Europa. Todavia, para isso se valeu do pragmatismo dentro de campo e da relação com Jorge Mendes para moldar o elenco. Não se sugeria o suficiente dentro dos parâmetros dos Spurs, até considerando as turbulências do clube desde a saída de Mauricio Pochettino.

Durante a pré-temporada, Nuno Espírito Santo ganhou seus reforços. O Tottenham passa longe de ser o clube que mais investe na Premier League, mas fez um bom negócio com a compra de Cristian Romero, além de adicionar outros jovens como Bryan Gil, Emerson Royal e Pape Sarr para encorpar o elenco. Problema maior foi o desgaste ao redor de Harry Kane, com o desejo do centroavante por sua saída. Apesar da permanência, a situação do artilheiro trouxe turbulências internas e ele começou rendendo abaixo de sua excelente média.

Dentro disso, o início de Nuno Espírito Santo no Tottenham até foi positivo, com três vitórias por 1 a 0 nas três primeiras rodadas da Premier League, incluindo o triunfo sobre o Manchester City na abertura da temporada. Porém, o que se viu dentro de campo com o passar das semanas foi uma equipe bastante limitada, sem grande repertório e com dificuldades para marcar seus gols. Tropeços contra Crystal Palace e West Ham serviam para minar a confiança, assim como a campanha errante na Conference League, mesmo usando reservas em boa parte dos jogos. E a incapacidade para competir contra adversários do chamado Top Six pesou ainda mais. Os Spurs já tinham sofrido derrotas duras para Chelsea e Arsenal, antes do resultado contundente construído pelo Manchester United em crise neste sábado.

Mesmo jogando dentro de casa, o Tottenham não deu sequer uma finalização no alvo contra o Manchester United. Faz um tempo que a insuficiência ofensiva é clara, a uma equipe que só marcou nove gols nas dez primeiras rodadas da Premier League e tem uma média baixíssima de chances criadas. Com uma defesa também insegura, totalizando 16 gols sofridos, ficava difícil de defender uma linha de trabalho. E também pesou a insatisfação da torcida no norte de Londres neste sábado. As vaias foram evidentes durante a substituição de Lucas Moura, sem que os presentes concordassem com a saída do brasileiro, enquanto outros cânticos também visavam o presidente Daniel Levy e o ídolo Harry Kane.

Após o resultado desta rodada, a diretoria do Tottenham teve uma reunião emergencial para definir a permanência de Nuno Espírito Santo. E os mandatários optaram por demitir o treinador, mesmo com um contrato inicial assinado por duas temporadas. O resultado do sábado, até pela irritação que serviu de pano de fundo em Londres, acelerou a mudança de direção. De qualquer forma, as dificuldades de Nuno Espírito Santo se repetiam com o futebol burocrático e de pouca intensidade, mesmo que o desempenho na tabela não seja tão ruim assim – com a oitava colocação, a cinco pontos da zona de classificação à Champions.

“Sei o quanto Nuno e sua comissão técnica queriam ter sucesso, e lamento que tenhamos tomado esta decisão. Nuno é um verdadeiro cavalheiro e sempre será bem-vindo aqui. Gostaríamos de agradecê-lo, bem como à comissão técnica, e desejar felicidades para o futuro”, declarou o diretor Fabio Paratici, numa despedida fria oferecida pelo Tottenham.

Segundo a imprensa inglesa, a chance de contratar Antonio Conte também influenciou a decisão do Tottenham. O treinador italiano vinha se mostrando aberto ao Manchester United, caso Solskjaer fosse mesmo demitido, e indica a mesma postura com os Spurs. A chegada de Fabio Paratici como diretor esportivo em Londres, já depois que as conversas anteriores com Conte naufragaram no início da temporada, facilita a reaproximação. O dirigente italiano trabalhou com técnico na Juventus e seria um elo para as demandas do comandante junto aos proprietários, sobretudo em relação a reforços na janela de inverno.

A situação atual do Tottenham coloca Conte em condição bastante favorável na mesa de negociações. Caso feche com o italiano, os Spurs estariam bem mais propensos a acatar suas demandas. Pelo histórico de trabalhos do comandante, apesar de seu temperamento explosivo, não surpreenderia se ele alavancasse os resultados e garantisse uma versão ainda melhor que a de Kane. Resta saber o quanto os londrinos estão dispostos a pagar, depois de tantas idas e vindas na última pré-temporada. Caso o acerto com Conte não venha, o mais provável é que o time permaneça sob comando interino, como foi com Ryan Mason.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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