Premier League

A atuação de gala contra o Liverpool garante um justo destaque ao início de temporada excelente de Martinelli

Gabriel Martinelli vinha de outras ótimas partidas pelo Arsenal, mas acabou como o melhor em campo na vitória sobre o Liverpool

Ainda em 2019, depois de enfrentar Gabriel Martinelli pela primeira vez, Jürgen Klopp rasgou elogios ao ponta: “Ele é realmente inacreditável. Não quero botar pressão nas costas dele, mas gosto de bons jogadores e ele é, óbvio, muito bom”. Outros elogios vieram em encontros seguintes e o alemão exaltava o brasileiro como um talento “sobre o qual todos falariam em breve”. Neste final de semana, antes da visita ao Arsenal no Estádio Emirates, Klopp de novo não se conteve e declarou que Martinelli virou “o jogador que ele esperava”. E, depois dos 90 minutos em Londres, o técnico deve remoer a clareza de suas previsões. Martinelli arrebentou contra o Liverpool na vitória por 3 a 2 do Arsenal. Fez a grande atuação de uma temporada excelente até o momento, e que nem sempre recebe o destaque merecido.

Gabriel Martinelli, afinal, não ocupa a primeira fila entre os protagonistas no Arsenal. Gabriel Jesus chama mais atenção pelo impacto imediato e, no Brasil, também por seu histórico como jogador de Seleção. De fato, é o melhor do time até o momento, o que não anula outros. Martin Odegaard é mais um sob os holofotes como capitão e principal cérebro na armação. Bukayo Saka, também em alta, ganha manchetes por ser um prodígio inglês. Porém, na bola, Martinelli não fica devendo a nenhum deles. É consistentemente importante para a liderança dos Gunners na Premier League. Contribuiu para outros resultados positivos, embora não com o impacto que se viu diante do Liverpool.

O ótimo momento de Martinelli é parte de um processo de crescimento contínuo. Surpresa não é necessariamente o agora, mas a forma como o adolescente já estourou no Arsenal quando tinha 18 anos, após surgir como revelação do Ituano no Paulistão. A aposta dos Gunners foi magnífica, sem que Unai Emery demorasse a conceder espaço, e desde então o prodígio trabalhou em sua evolução. Teve um baque com a grave lesão no joelho que custou sua sequência sobretudo na segunda temporada. Entretanto, o último ano seria importante para restabelecer sua confiança e voltar a aparecer com frequência entre os titulares. Até que o estouro viesse em 2022/23.

Martinelli cresce graças à fase do Arsenal, ao mesmo tempo em que faz o time crescer. O ponta de 21 anos oferece qualidade para desequilibrar, mas também um trabalho incessante para auxiliar o conjunto. E uma das características mais elogiadas do brasileiro é justamente essa: a maneira como trata qualquer treino como uma final de Champions, dando sempre o seu máximo. O novato motiva os companheiros e serve de exemplo. Com isso, se desenvolve ao máximo de potencial. E a maturidade, que não demorou a se notar na Premier League, o impulsiona na atual relevância em campo.

O Arsenal disputou 12 partidas na temporada e Gabriel Martinelli foi titular em todas elas. Atuou durante os 90 minutos em oito desses compromissos, sete deles pela Premier League. E os gols ajudam a consolidar os resultados. Seu cartão de visitas seria exatamente o primeiro tento do Arsenal na campanha, de cabeça, contra o Crystal Palace. Logo depois anotou num chute rasteiro de fora da área contra o Leicester. Assinou o da vitória contra o Aston Villa, com oportunismo. E deu trabalho contra o Tottenham, ao forçar a expulsão de Emerson Royal e ainda entregar uma assistência para Granit Xhaka.

Contra o Liverpool, mesmo assim, a melhor versão de Martinelli ficou expressa. Foi um jogador veloz e incisivo de lado de campo, mas também uma arma para a criação e definição das jogadas. O primeiro gol se valeu da inteligência do ponta, para encontrar o espaço vazio ao passe de Odegaard e definir com frieza diante de Alisson. Depois, um show de habilidade em sua arrancada e na finta desconcertante sobre Jordan Henderson, antes da assistência açucarada a Saka. Entretanto, a exibição do camisa 11 não se resumiu aos gols. Ele chamou bastante a responsabilidade e participou ativamente dos momentos em que o Arsenal abafava os Reds. Trent Alexander-Arnold teve pesadelos. O brasileiro se associou bastante com os companheiros, mas sabia também a hora de partir para dentro.

Martinelli aparece entre os melhores da Premier League em estatísticas importantes. Está no Top 10 do campeonato em dribles executados, passes para finalizações dos companheiros, chutes a gol, ações na área adversária. Seus números de gols e assistências podem ser um pouco mais tímidos, ainda mais quando a concorrência consegue estatísticas assombrosas com Erling Braut Haaland e Kevin de Bruyne. Porém, não é isso que anula a qualidade do futebol do brasileiro. Em sua função, como ponta esquerda, o garoto é candidato à seleção da temporada inglesa até aqui.

O que fica de expectativa sobre Martinelli neste momento é também outra seleção, a brasileira, às vésperas da Copa do Mundo. O jovem defendeu a equipe olímpica e ganhou chances com Tite no primeiro semestre, quando a fase nem era tão impressionante quanto a atual. A dúvida sobre uma virtual convocação fica mais pela concorrência, já que a oferta de pontas que o Brasil possui hoje é inacreditavelmente boa. Talvez a continuidade para Martinelli se garanta apenas no próximo ciclo. Mas, se for por aquilo que ele apronta no Arsenal, o Mundial seria merecido. Alisson e Fabinho podem falar para Tite sobre as dificuldades que tiveram neste domingo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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