Inglaterra

‘Muito conivente’: Especialistas criticam ‘escapada’ do Chelsea de punições após polêmica

Decisão da Premier League sobre irregularidades durante Era Abramovich mantém em aberto possíveis sanções futuras

A decisão da Premier League sobre as irregularidades financeiras cometidas pelo Chelsea durante a era de Roman Abramovich provocou mais questionamentos do que conclusões definitivas.

Após investigação, a liga concluiu que o clube esteve envolvido em práticas de “engano e ocultação”, com mais de 30 violações relacionadas a cerca de 47 milhões de libras em pagamentos não declarados em transferências de jogadores, incluindo nomes como Eden Hazard, Willian, David Luiz e Nemanja Matić.

Apesar da gravidade, a punição aplicada foi relativamente branda: multa de 10,75 milhões de libras e um embargo de transferências suspenso, que só entra em vigor em caso de reincidência nos próximos dois anos.

Impacto mínimo ao Chelsea e sensação de impunidade

Na prática, o impacto esportivo e financeiro tende a ser quase irrelevante para o Chelsea. Isso porque o atual grupo controlador, liderado pela Clearlake Capital, incluiu uma cláusula de retenção de 150 milhões de libras no acordo de compra do clube. O valor funciona como um “colchão” para cobrir eventuais penalidades relacionadas à gestão anterior.

Ou seja: as punições aplicadas até aqui mal arranham o caixa, especialmente quando comparadas aos ganhos esportivos e financeiros do período investigado, no qual o clube conquistou títulos importantes, incluindo a Champions League.

Abramovich, ex-dono do Chelsea
Abramovich, ex-dono do Chelsea (Foto: ITAR-TASS/Imago)

Para Stefan Borson, especialista em finanças do futebol, a postura da liga levanta dúvidas:

“A abordagem da Premier League é surpreendentemente conivente”, disse, em entrevista ao jornal inglês “The Guardian”.

A crítica ganha peso quando comparada a outros casos recentes, em que clubes sofreram punições esportivas mais severas, como perda de pontos, por violações financeiras consideradas menos graves.

“Eles claramente contrataram jogadores [como Willian e Hazard] em situações competitivas pagando 47 milhões de libras por fora, o que, de acordo com o acordo de sanções por escrito, foi deliberado e envolveu engano e ocultação. À primeira vista, são questões graves que se relacionam ao desempenho esportivo. Uma conduta admitida tão flagrante como esta normalmente resultaria em sanção esportiva.”

“Só porque você vendeu um negócio não significa que os vínculos com o passado foram cortados”, reforça Borson. Ele faz o paralelo com o caso de um rival: “Se os donos do Manchester City vendessem o clube amanhã, ninguém esperaria que as [acusações de violação de regras] desaparecessem.”

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Autodenúncia e investigações paralelas à Premier League

Parte da “leniência” pode ser explicada pela colaboração do próprio Chelsea. A atual gestão comunicou voluntariamente algumas das irregularidades, o que costuma pesar a favor em processos desse tipo.

Ainda assim, o próprio relatório indica que a investigação foi além das informações fornecidas pelo clube, o que reforça a percepção de que o caso poderia justificar sanções mais duras. E a história está longe de acabar.

A Football Association (FA) ainda conduz uma investigação paralela, na qual o Chelsea já foi acusado de 74 violações. Diferentemente da Premier League, a entidade tem poder para aplicar punições esportivas, incluindo perda de pontos.

A própria decisão da liga menciona explicitamente as possíveis sanções da FA, o que abre duas leituras: ou a Premier League optou por uma punição mais leve esperando que a FA seja mais rígida, ou acredita que a tendência é repetir o padrão de sanções financeiras.

Enquanto isso, há também o risco de novas revelações, especialmente após as denúncias divulgadas pelo The Guardian em 2023, ampliarem o escopo do caso.

Por ora, o sentimento em Stamford Bridge é de alívio, mas com prazo de validade indefinido. Porque, embora o Chelsea tenha escapado de um golpe mais duro agora, o jogo ainda não terminou fora de campo.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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