Inglaterra

O Telê deles

Para um brasileiro – e eu não fujo à regra –, é meio difícil entender a “moral” que tem Bobby Robson na terra da rainha. Pra começar, o cara é “sir” sem nunca ter ganho nada de relevante. A ponto de, há algum empo atrás, eu ter me surpreendido ao descobrir que Sir Bobby não fez parte da Inglaterra de 66 – embora tenha feita da de 58 e tivesse sido selecionado para a de 62, na qual não jogou por ter se contundido.

Como jogador, o atacante Bobby Robson atuou pelo Fulham e pelo West Brom: começou na equipe londrina em 1950, deixou-a pelos Baggies em 1956, e voltou para Craven Cottage em 1962, e lá permaneceu até 1967 – quando teve seu último ano de carreira nos Vancouver Royals, da estreante North American Soccer League. Jogou 20 vezes pela Inglaterra, marcando quatro gols.

Sua carreira de treinador começou por lá mesmo, logo após a volta do Canadá, mas a primeira tentativa foi curta: Robson assumiu com o Fulham mal na primeira divisão, e acabou rebaixado. Foi demitido em novembro, antes da metade da segunda temporada. No ano seguinte, Robson assumiu o Ipswich, naquela que seria sua experiência mais longa e marcante como treinador em seu país.

Embora não fosse nem naquele momento, nem antes nem depois, um cluube “grande”, o Ipswich havia ganho o título de 1962, guiado por ninguém menos que Alf Ramsey – que, para quem não está ligando o nome aos fatos, foi o técnico do English Team em 1966. Robson ficou na equipe por mais de uma década, até 1982, mas não conseguiu repetir o feito. Por outro lado, levou os Blues à FA Cup de 78, e, mais importante, à Copa Uefa de 1981, maior título da história do clube – eliminando, no caminho para o título, o Saint-Etienne de Michel Platini.

Em 1982, Robson assumiu o English Team. Na qualificação para a Euro de 1984, ficou a um ponto da Dinamarca de Laudrup e Elkjaer, que começava sua melhor fase e acabou chegando à semifinal, na qual perdeu nos pênaltis para a Espanha. Na Copa de 1986, o carrasco foi Diego Maradona – com a “mão de Deus”. Na Euro de 1988, classifica a equipe para as semifinais, mas a Inglaterra acaba em último no grupo com três derrotas, inclusive uma diante da Irlanda.

Robson classifica a equipe para a Copa de 1990 como segunda melhor segunda colocada entre três – a eliminada acabou sendo a Dinamarca – e chega à Itália sob fortes críticas da mídia e torcida inglesas. Na primeira fase, obtém apenas uma vitória, sobre o Egito, mas acaba se classificando em primeiro no grupo. Nas oitavas e nas quartas, precisa de prorrogação para passar por Bélgica e Camarões. E, na épica semifinal, acaba eliminado pela campeã Alemanha nos pênaltis.

Mais do que chegar mais longe do que se esperava quando começou o torneio e obter o melhor resultado da Inglaterra em Copas do Mundo depois de 1966, o que marcou a reputação de Bobby Robson foi o sucesso que obteve depois disso. O país, que o “detonara” antes do torneio, termina a Copa com Robson em alta conta, mas o treinador, que já sabia que não teria seu contrato renovado, já assinara com o PSV. Em Eindhovem, ganhou dois títulos em seus dois primeiros anos – o artilheiro do time era Romário, cujo “estilo” nunca conquistou o inglês.

De lá, Robson foi para Portugal, primeiro no Sporting, onde inicia outra de suas importantes contribuições para o futebol: seu intérprete, depois levado para o Porto e para o Barcelona, chamava-se José Mourinho. Em Alvalade, é metido com o time na ponta da tabela, e prontamente contratado pelo rival Porto. No Porto, ganha mais dois títulos nacionais. De lá para Barcelona, onde ganha apenas uma Copa do Rei e uma Recopa – mas, por outro lado, toma a decisão de contratar Ronaldo, do PSV.

Em 1999, Robson finalmente se deixa seduzir pela Inglaterra novamente, e assume o posto de treinador do Newcastle. No norte inglês, nunca conseguiu ganhar um título, mas, durante suas quatro temporadas, os Magpies ficam em 11º, quarto, terceiro e quinto lugares. Mesmo assim, e, diz-se, muito por causa de seu estado de saúde, que já não ia bem, Robson acaba demitido em 2004.

Bobby Robson, na Inglaterra, nunca ganhou nada. Seu sucesso internacional e os bons resultados obtidos com a Seleção, entretanto, lhe garantiram, em 2002, o título de “Sir”. Até que sua luta contra a doença se tornasse pública, é verdade, Robson não era uma unanimidade – o que lembra, por aqui, o ex-governador Mário Covas. A força de vontade com que lutou contra o câncer, entretanto, fizeram saltar aos olhos dos ingleses as muitas virtudes de seu ex-técnico, e deixaram para trás seus defeitos.

Depois de sua morte, o estádio de St. James Park foi inundado por homenagens torcedores de todo o país – até do arqui-rival Sunderland. Jornalistas e ex-jogadores enchem os meios de comunicação com homenagens e loas ao ex-jogador e treinador, descrito por grande parte deles como “a alma dO futebol inglês”.
Nas vitórias e nas derrotas, Bobby Robson nunca deixou de ser cortês. Nem quando sua equipe foi eliminada por um gol de mão de Diego Maradona o inglês perdeu a classe. Sua esportividade é hoje festejada até como uma contraposição ao mercantilismo que tomou conta do futebol.

Com todo o sucesso obtido na Holanda, Portugal e Espanha, na Inglaterra Bobby Robson “nunca ganhou nada”. E ainda assim, seu nome é cantado pelo país todo. Como Telê Santana, que em 1982 “não ganhou nada” mas depois se redimiu com inúmeros títulos pelo São Paulo. Como Telê Santana, um grande técnico, mas, principalmente, um grande homem.

Pensando bem, não é nem um pouco difícil de entender a moral que tem Bobby Robson na Inglaterra.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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