O busca uma reconstrução que atrai interesses em todo o planeta. A simpatia se dá não apenas pela tradição dos Black Cats ou por sua torcida apaixonada, mas também pela sensação de proximidade garantida pela série ‘Sunderland ‘Til I Die’, da Netflix. Os planos de reerguer o clube à Premier League de imediato não vingaram e, atualmente, a equipe faz uma campanha mediana na terceira divisão inglesa. Ao menos, surgem esperanças com a chegada de novos donos ao Stadium of Light. Nesta quinta-feira, a Football League aprovou o negócio feito por , herdeiro de uma fortuna bilionária que, aos 23 anos, se tornou o acionista majoritário da agremiação.

O drama do Sunderland começou em 2016/17, com o rebaixamento à Championship após uma década na Premier League. Existia a expectativa de que o retorno à primeira divisão fosse instantâneo, mas os Black Cats foram ainda piores em 2017/18 e sofreram o segundo rebaixamento consecutivo. Desde então, o time luta na League One, tentando alcançar o acesso. Depois de perder a final dos playoffs contra o Charlton em 2019, os alvirrubros sequer alcançaram a fase final na temporada passada. E fazem igualmente uma campanha mediana nesta edição da terceirona, ocupando o sétimo lugar, a um ponto da zona dos playoffs. A chance de uma comemoração, por enquanto, se restringe ao EFL Trophy, mata-mata que concentra times da League One e da League Two. Os alvirrubros farão a decisão contra o Tranmere Rovers em Wembley, no dia 14 de março.

Paralelamente, o Sunderland perdia estabilidade nos bastidores. Ellis Short foi o dono do clube ao longo da década vivida na Premier League, conseguindo alguns desempenhos razoáveis e a manutenção na elite. Ele ficaria no cargo até abril de 2018, quando os dois rebaixamentos consecutivos e as enormes dívidas o levaram a vender os Black Cats para o consórcio presidido por Stewart Donald. Os novos donos não melhoraram o desempenho em campo e logo passaram a lidar com a insatisfação dos torcedores. Menos de um ano depois, Donald fazia declarações públicas de que desejava vender a agremiação o quanto antes e procurar novos proprietários. Ao menos, os débitos foram reduzidos durante as últimas temporadas, com uma situação menos caótica aos interessados.

Kiril Louis-Dreyfus apareceu em cena no final de 2020, como um possível comprador do Sunderland. O jovem é filho de Robert Louis-Dreyfus, antigo CEO da Adidas e que comprou o Olympique de Marseille em 1996. O magnata foi importante para a reconstrução dos celestes, após o banimento de Bernard Tapie e o rebaixamento do clube por manipulação de resultados. Conseguiu a recuperação gradual da potência francesa e permaneceu no controle até seu falecimento, em 2009, por mais que não tenha ocupado sempre o cargo de presidente.

As ações do OM ficariam com a viúva de Robert, Margarita, e os marselheses reconquistariam a Ligue 1 em 2010. A família permaneceu no controle do Olympique até 2016, quando vendeu a maior parte de seu percentual no clube, mas ainda manteve 5% das ações. Robert Louis-Dreyfus também foi dono do Standard de Liège, deixando o posto pouco antes de sua morte. Além disso, investigações posteriores indicaram que o CEO da Adidas esteve envolvido no Fifagate, com o suborno de dirigentes para que a Alemanha sediasse a Copa do Mundo de 2006.

Nascido na Suíça, Kyril Louis-Dreyfus herdou parte dos bens de seu pai e possui uma fortuna estimada em £2 bilhões. Apesar da experiência de Robert na gestão esportiva, Kyril tinha apenas 12 anos quando o pai faleceu e não passava dos 18 anos quando a mãe decidiu vender o Olympique de Marseille. Assim, sua capacidade na gestão do Sunderland ainda é uma incógnita. Em dezembro, quando acertou a compra das ações, o bilionário assinou um comunicado em que prometia uma “estratégia de longo prazo que integra as orgulhosas tradições do Sunderland com uma estrutura moderna e novas abordagens”. Pregava também a inovação, para aprimorar o desenvolvimento dos jogadores e o próprio estilo de jogo da equipe. Já nesta quinta, veio o sinal verde da Football League na transação.

Kyril Louis-Dreyfus assume imediatamente como novo presidente do Sunderland. O consórcio presidido por Stewart Donald permanece como acionista minoritário dos Black Cats. “Gostaria de agradecer a Stewart, ao Conselho de Administração e à Football League por sua diligência e apoio ao longo do processo recente. Tenho orgulho de me tornar guardião desta estimada instituição, mas também reconheço a significativa responsabilidade que vem com isso. O dia de hoje marca o início de um novo capítulo empolgante na história do Sunderland e, embora o cenário atual que o futebol enfrenta indique que existam desafios a superar, estou confiante de que juntos podemos enfrentar a tempestade atual e criar bases sólidas para trazer sucesso de longo prazo para o clube”, afirmou o novo presidente, na nota oficial.

Por enquanto, a missão de Kyril Louis-Dreyfus é bem mais braçal. A principal urgência é recuperar o moral de um clube combalido e conseguir livrá-lo o quanto antes da League One, para um crescimento gradual na Championship. A fortuna do bilionário é bem-vinda nesta tarefa, mas não basta, quando os Black Cats dependem de uma restruturação mais consistente. Precisa se cercar de outros profissionais competentes e também entender os anseios da torcida. Além disso, as limitações geradas pela pandemia também representam um obstáculo se o suíço quiser solidificar uma gestão sustentável, sem que fique tão dependente ao seu dinheiro. Resta saber se ele apenas deseja um brinquedo novo após ver Netflix, um palco para aparecer na televisão ou se herdou também as habilidades de seu pai na administração esportiva.