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O Leicester destroçou o City em Manchester para provar que pode e merece ser campeão

Em 2008/09, o Manchester City começava a viver sua bonança financeira. O Xeique Mansour comprava o clube e despejava o seu dinheiro em contratações, dando continuidade à administração de Thaksin Shinawatra – que já gastara € 40 milhões em Robinho. O Leicester, por sua vez, brigava na terceira divisão, após ser rebaixado na temporada anterior. As histórias correram paralelamente. Sete temporadas depois, no entanto, se cruzam no topo da Premier League. E quem apostaria que o Leicester estaria nas atuais condições? Que bateria de frente com os Citizens? Que, mais do que isso, daria uma sova nos bilionários dentro de sua fortaleza, o Estádio Etihad. As Raposas bateram os Citizens por 3 a 1, em uma atuação emblemática de quem pode e merece ser campeão.

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Olhando para os números, o Manchester City dominou a partida durante a maior parte do tempo. A posse de bola, que chegou a ser de mais de 70% em meados do primeiro tempo, terminou em 63%. Teve 50% a mais de finalizações, 21 a 14. Contudo, o jogo do Leicester não se resume no controle. As Raposas fazem o seu melhor com a bola queimando em seus pés, em ataques fulminantes. E, assim, destroçaram os Citizens em Manchester. O gol de Robert Huth logo aos três minutos, a partir de uma bola parada, ajudou bastante a equipe de Claudio Ranieri a desenvolver o seu esquema, diante de 15 minutos intensos fora de casa. Depois, pôde manter a solidez no campo defensivo, segurando a insistência dos Citizens pelo empate. E à espreita de uma chance, matou o jogo no segundo tempo.

A jogadaça individual de Riyad Mahrez ampliou a margem logo aos três minutos da segunda etapa. Já aos 15, o cruzamento perfeito de Christian Fuchs terminou em mais um tento decisivo de Huth nesta campanha. E o placar poderia ter sido ainda mais amplo, não fossem as defesas de Joe Hart nas tentativas de Jamie Vardy. Nos minutos finais, o City partiu para uma intensa pressão. Agüero até diminuiu, mas o time da casa, desperdiçou chances em excesso, diante da entrega dos visitantes. No fim, o placar serviu para dimensionar a diferença em eficiência dos dois times.

Mais decisivo do que qualquer outro jogador nesta Premier League, Mahrez merece todos os elogios por essa vitória decisiva. O argelino acabou com a defesa do Manchester City. No primeiro tento, teve participação dupla: em uma jogadaça de linha de fundo, arranjou a falta que ele mesmo cobrou para Huth completar. Já no segundo, deu uma prova enorme de sua qualidade técnica, ao deixar Otamendi no chão e fazer Demichelis de bobo com suas pedaladas. Com o caminho aberto, ficou fácil para vencer Hart. Visão de jogo, capacidade nos dribles, qualidade na finalização: o camisa 26 vive uma fase fabulosa, completo como poucos jogadores neste momento. Se é passageiro ou não, não dá para saber (embora não pareça), mas já se faz suficiente para marcar a temporada.

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Entretanto, destacar apenas Mahrez seria injusto agora, após aquela que se põe como a vitória mais emblemática em um eventual título. Não se pode menosprezar o encaixe do ataque, com Vardy e Okazaki também servindo à rapidez e à precisão nas investidas. Ou mesmo a coesão defensiva de um time no tradicional “4-4-2 à inglesa”. O camisa 14, N’Golo Kanté, deu uma aula na proteção neste sábado, além da saída de jogo – com os sempre seguros Albrighton e Drinkwater ao seu lado. Huth reescreve sua história dando firmeza na zaga, mas também com seus gols decisivos, enquanto Fuchs dá grande contribuição nas bolas paradas. E, no gol, ainda há Kasper Schmeichel vivendo uma fase esplendorosa, a exemplo do milagre operou quando a diferença ainda era de dois gols.

Se for para escolher apenas um nome, que seja o de Claudio Ranieri. Afinal, ninguém pode personificar melhor a reviravolta do que o treinador. Especialmente após o péssimo trabalho com a Grécia, muitos já davam o italiano acabado para o futebol – este que vos escreve, inclusive. Mas Ranieri contrariou a maioria, fazendo o inimaginável com um time modesto, mas já em ascensão desde as sete vitórias que o livraram do rebaixamento nas nove últimas rodadas de 2014/15. O técnico aperfeiçoou o sistema de jogo, criando uma máquina em consistência e eficiência. Que, em 25 rodadas, sofreu apenas duas derrotas e já abre seis pontos de vantagem na liderança.

Ainda há muita água para rolar. Nada garante a taça com o Leicester. Mas, neste momento, as Raposas assumem o favoritismo para uma conquista que seria histórica. Em uma temporada ímpar na Premier League, especialmente pelos novos acordos televisivos, os líderes ajudam a passar uma mensagem: não há diferença econômica que não possa ser diminuída com trabalho e empenho. Quando a disparidade para os bilhões dos Citizens se reduziu, o time de Ranieri os superou na bola. Independente de quem levantar o troféu, o Leicester já é campeão. Mas é lógico que, depois de conquistar a terceirona em 2009 e a segundona em 2014, seria muito mais legal vê-lo completando a “tríplice coroa” de maneira tão brilhante.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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