InglaterraPremier League 2026/27

O futuro é agora

Em uma Premier League cada vez mais previsível na disputa pelo título, o entretenimento começa a se concentrar nos detalhes. E um dos maiores deleites é notar o alto nível atingido por alguns daqueles que sempre foram vistos com grandes expectativas dentro da liga. Gareth Bale e Jack Wilshere fazem as melhores temporadas de suas carreiras e não seria surpreendente ver a dupla indicada ao prêmio de melhor jogador da competição.

É verdade que o protagonismo de ambos não é inédito. Em 2010/11, os jovens conquistaram dois dos mais importantes prêmios oferecidos pela Associação de Jogadores Profissionais (PFA): Bale foi escolhido o melhor jogador da temporada, enquanto Wilshere foi apontado como principal revelação. Ainda assim, a dupla aparece degraus acima quando considerados os feitos registrados nos últimos meses.

Bale se agigantou

O protagonismo crescente de Bale começa a ser explicado justamente pela derrocada do Tottenham no primeiro semestre de 2012. O meia acabou pagando o pato pela ausência dos Spurs na Liga dos Campeões. Viu o clube se desfazer de Luka Modric e Rafael van der Vaart, isolando-se ainda mais no posto de estrela do elenco.

A responsabilidade, no entanto, não pesou nenhum pouco para ele. Mesmo no momento em que os londrinos sofriam com a falta de referências ofensivas, com a lesão de Jermain Defoe e a ausência de Emmanuel Adebayor, o galês passou a chamar o jogo para si. As três vitórias e o empate do Tottenham nas últimas quatro partidas foram garantidos pelo camisa 11, autor de todos os seis gols da equipe no período.

Os recorrentes problemas dos Spurs no ataque passaram a exigir um poder de definição maior de Bale. Somente Luis Suárez finaliza mais que o meio-campista na Premier League. A insistência resultou em 17 gols, já a melhor marca da carreira em uma temporada. Fruto da confiança para tentar jogadas individuais, bem como da precisão nas cobranças de falta – que resultaram em quatro tentos.

E, embora arrisque mais a gol, o galês segue como um bom garçom. As nove assistências alcançadas até o momento ainda são inferiores às marcas registradas nos últimos dois anos. Em compensação, o jogador dá 2,3 passes para finalização por partida, décima maior média na Premier League, enquanto é o sexto que mais efetua cruzamentos – comprovando que continua eficaz nas investidas rumo à linha de fundo, ainda que nem sempre conte com um centroavante capaz de aproveitar as oportunidades criadas.

Wilshere renasceu

A evolução de Wilshere, por sua vez, é amplificada por sua ausência durante toda a temporada passava. Enquanto era de se esperar uma evolução gradual após tantas lesões, o camisa 10 retomou rapidamente o posto de titular no Arsenal. A carência de astros no time de Arsène Wenger também ajuda a aumentar seu destaque, mas não macula a boa sequência apresentada pelo meio-campista.

Wilshere parece um jogador bem mais maduro depois do longo período no estaleiro. O talento na construção de jogo e no posicionamento continuam intactos, contrariando os temores sobre os 15 meses longe da bola. E o jogador de 21 anos parece mais “casca grossa” na composição do meio de campo, aliando força e técnica na marcação.

O empenho do camisa 10 também reflete na confiança de Arsène Wenger. Desde que reestreou na Premier League, em 27 de outubro, o garoto não esteve no 11 inicial da competição apenas duas vezes – uma por suspensão e na outra, poupado. Os diferentes predicados ainda permitem a variação no posicionamento, escalado tanto como volante quanto como armador e se combinando bem com qualquer companheiro do elenco.

Como resultado, seus números são até mais consistentes do que em 2010/11, quando estourou e se firmou como titular do Arsenal. Com menos da metade dos jogos, já registra duas assistências a mais do que naquela temporada. Está entre os 20 melhores da Premier League em dribles, faltas sofridas, passes por jogo, passes para finalização e enfiadas de bola por jogo.

Objetivo: o Top Four

Pelo menos nessa temporada, as pretensões de Bale e Wilshere se limitam à conquista de uma vaga na Liga dos Campeões. Os esforços do galês podem colocar o Tottenham na terceira colocação, diretamente na fase de grupos do torneio de continental. Já a regularidade do inglês, por enquanto, é insuficiente para impulsionar o Arsenal ao Top Four, com o cambaleante Chelsea de Rafa Benítez mantendo sua posição entre os primeiros.

Pelo nível atingido nestas últimas semanas, contudo, não será difícil imaginar voos mais altos para a dupla. Wilshere volta a ser nome de peso na seleção inglesa, enquanto Bale deve brilhar por mais um tempo em White Hart Lane se os Spurs forem mesmo à LC. Dois jovens que, agora, não deixam dever a boa parte dos craques desta Premier League – talvez só Van Persie e Rooney apareçam em um patamar acima nesta temporada, pelo poder de decisão. E, até mesmo pela idade, Bale e Wilshere têm margem para crescer ainda mais.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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