Futebol inglês

O americano bonzinho

Stan Kroenke é um americano rico. Fez sua fortuna no ramo imobiliário: já era rico e já tinha feito sua fortuna nesta área, mas quando se casou com uma das herdeiras do Wal Mart passou a desenvolver as zonas comerciais em volta das lojas da rede.

Evidentemente, ficou muito mais rico. É, atualmente, dono do Denver Nuggets, Colorado Rapids, Colorado Avalanche e St. Louis Rams.

Stan Kroenke é o novo dono do Arsenal. Ao comprar as participações de dois ingleses, passou a deter cerca de 62% do capital da equipe – antes era o principal acionista individual, mas não tinha o controle. Kroenke era o favorito de todos para evitar que o cliube caísse nas mãos do russo Alexander Usmanov – que agora terá a opção de vender ao americano os cerca de 30% que detém da equipe.

Usmanov, na realidade, é um dos grandes responsáveis pelo alívio com que os torcedores do Arsenal recebem Kroenke. Um russo do “modelo Abramovich”, ou seja, um cara que ficou rico ganhando de presente esquemas de antigas estatais, imaginava-se que, caso se tornasse dono do time, compraria 100% de suas ações e o trataria como Abramovich trata o Chelsea – ou seja, como o quintal de sua casa (mansão, no caso).

Se Kroenke o tratará diferente ainda é algo que se verá. Até aqui, entretanto, o americano foi hábil, e conquistou a confiança dos antigos proprietários (algumas famílias com muitas décadas de ligação ao clube) e da torcida. É, por exemplo, um dos incentivadores de que o fundo dos torcedores tenha ações do clube.

Há dúvidas, entretanto, sobre se tem dinheiro “no bolso” para comprar o Arsenal. Suas propriedades são, afinal, imobiliárias, ou seja, ou ele paga em shopping centers ou terá que pegar dinheiro no banco para pagar. E é aí que reside o perigo do americano bonzinho.

Ao contrário dos outros grandes clubes ingleses, o Arsenal vinha sendo dirigido por um grupo de donos, um conselho que envolvia os maiores acionistas – Kroenke, acionista desde 2005, entre eles. O americano era, ao lado de Danny Fiszman, um dos que ditavam o rumo da coisa. O inglês, entretanto, era considerado o “protetor” do clube: foi durante um bom tempo seu maior acionista com poder de veto, liderou o processo que levou o clube a construir o Emirates e foi o principal responsável por impedir que Usmanov se aproximasse co comando do time.
Kroenke estava afinado com Fiszman desde sempre. Não há nada que impeça, entretanto, que a proximidade tenha sido apenas uma estratégia comercial. E que, ao “se ver livre” de Fiszman – e de Nina Braceweel Smith, outra grande acionista, esta sim com ligações com a propriedade do time desde a Segunda Guerra – o americano comece a “se render ao mercado”.

Não há dúvidas de que a gestão do clube enquanto sob a influência de Fiszman pbteve extremo sucesso, levando os Gunners a um novo patamar de sucesso dentro e fora de campo. A transição para onovo estádio se deu sem que o clube passasse por um período de vacas magras financeiras profundo ou duradouro. Fiszman, entretanto, vinha doente há algum tempo, o que pode ter levado o clube ao atual período de “leseira”.

Os Gunners precisam de um “chacoalho” há duas temporadas. O modelo de comprar jogadores jovens e esperar eles ficarem bons não funcionou, e parece não haver alternativa a ele. O histórico de Stan Kroenke como dono de time pode inspirar otimismo: em sua primeira temporada no comando do Avalanche, a equipe ganhou a Stanley Cup. Nos Nuggets, pouco depois de sua chegada o time draftou Carmelo Anthony, e desde então não deixou de pensar grande.

É bem melhor ter Stan Kroenke à frente do que ter um russo que ganhou sua fortuna de presente. Assim como é melhor do que não ter ninguém no comando, o que parecia estar acontecendo pelo menos nas duas últimas temporadas. O legado da gestão Fiszman é fantástico em todos os aspectos, e o simples fato de que os principais rivais estão se aproximando de momentos de quebra de modelo (aposentadoria de Sir Alex, Abramovich cansando de brincar de perder Champions League) pode significar muitos anos de dominância para os Gunners.

Tudo, porém, tem que começar com uma polida no modelo. O Arsenal precisa gastar melhor, e em jogadores consagrados. No Avalanche Kroenke participou da construção de uma dinastia que começava com Patrick Roy, um goleiro. Quem sabe não começa sua gestão no Arsenal com os mesmos fundamentos. Seria um ótimo começo.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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