Inglaterra

No 20° lugar há três meses, o Bolton viveu seu milagre e arrancou para alcançar um incrível acesso à terceirona

O Bolton encara uma crise imensa e sofreu dois rebaixamentos em sequência, mas escapou da queda à quinta divisão e volta à League One

O Bolton é um dos fundadores do Campeonato Inglês, possui quatro títulos na Copa da Inglaterra e inaugurou Wembley. Seu lugar na história do futebol inglês é inegável e, mesmo nas décadas recentes, o clube fez bons papéis na Premier League. Porém, a falta de compromisso com a instituição e as mudanças de donos levaram os Wanderers ao limbo. Foram dois rebaixamentos nas duas últimas temporadas, que derrubaram a equipe à quarta divisão pela primeira vez em 32 anos. Em meio ao caos, o Bolton flertou com mais um descenso em 2020/21 e poderia se ausentar da Football League pela primeira vez em sua história. Porém, a maltratada torcida viveria uma redenção fantástica, ainda que pequena à tradição da camisa. Com uma arrancada impressionante, os Whites subiram 17 posições em 12 rodadas e disputarão a terceirona em 2021/22.

Ao longo de 2019, o Bolton atravessou a crise mais grave de sua história. O clube já vinha lidando com as dívidas crescentes desde antes, que resultaram num embargo no mercado de transferências. Caíram à terceirona, mas voltaram em 2017, num sucesso esportivo que significava pouco diante dos problemas na gestão. Mas nada comparado à bomba que estourou ao final da temporada 2018/19. Os Whites ficaram próximos de declarar falência, por não cumprirem seus compromissos com os credores. Viram seu CT ser fechado porque não podiam pagar os certificados de segurança. Entraram em administração externa, foram rebaixados e viram os entraves institucionais se alastrarem. Depois do descenso, os jogadores organizaram uma greve para expor a situação de atrasos salariais. Até W.O. o time levou.

O Bolton estava abandonado antes que a temporada 2019/20 começasse. O clube chegou a ficar sem água potável em suas dependências. Ken Anderson, o pouco compromissado presidente dos Wanderers, procurava novos donos e montou o elenco às pressas para a League One. O grupo basicamente não tinha jogadores contratados, depois que vários atletas rescindiram por conta dos atrasos. Somente sete futebolistas estavam inscritos na terceirona durante o início da competição e a equipe precisou recorrer à base para não tomar outros W.O.’s. Neste momento, a preocupação da torcida era escapar da falência e até o técnico Phil Parkinson, à frente dos Whites desde 2016, deixou o barco por falta de condições.

Em agosto de 2019, enfim, o Bolton ganhou um novo caminho. Novos donos chegaram e trouxeram reforços para a League One. Nada que gerasse tantas esperanças de salvação na tabela. Em outubro, depois de 15 rodadas, aconteceu a primeira vitória na terceirona. Até houve o esboço de uma reação no final de 2019, mas o máximo que o time conseguiu foi deixar a lanterna por uma rodada. Os resultados voltaram a degringolar em 2020 e houve menos tempo que o previsto para tentar um milagre. Em março, por conta da pandemia, a League One foi encerrada antecipadamente e o Bolton caiu à quarta divisão. Faltavam ainda nove rodadas, mas o time estava a 21 pontos de deixar o Z-3 – fruto também de uma punição referente à temporada anterior, que custou 12 pontos na contagem.

Se a queda à League Two era dolorosa, pelo menos poderia significar um recomeço. Um novo elenco foi montado praticamente do zero, enquanto Ian Evatt se tornou o novo treinador. Nada que facilitasse tanto o início da nova campanha na quarta divisão. Os Whites só venceram uma das primeiras oito rodadas, rondando o novo rebaixamento. Deixar a Football League, a qual fundaram, parecia mesmo o fundo do poço. A recuperação na sequência do primeiro turno até levaria a equipe ao 11° lugar, mas não duraria tanto. Foram apenas sete vitórias nas primeiras 23 rodadas. Na virada do ano, o Bolton encarou um jejum de sete partidas sem ganhar. Na 25ª rodada, a segunda do returno, o clube era o 20° de 24 participantes, seis pontos acima do Z-2. Ian Evatt não só se mantinha firme como treinador, como também ganhou novas incumbências após a saída do gerente de futebol.

O ponto de virada do Bolton aconteceu em 17 de fevereiro, contra o Mansfield Town. E nem parecia que a reviravolta ocorreria naquela tarde, depois que o time da casa abriu dois gols de vantagem aos 27 do segundo tempo. Ainda assim, os Whites buscaram a virada e ganharam por 3 a 2. Ali, começou uma sequência de oito vitórias consecutivas. Nos sete jogos seguintes, o time sequer sofreu gols. Saltou ao sexto lugar e já entrou na zona de playoffs de acesso. O Bradford City foi capaz de romper a série com o empate por 1 a 1. Mas, com mais quatro triunfos depois disso, os Wanderers entraram no G-3 e se consolidaram na zona do acesso direto.

A reta final da campanha não seria tão linear. O Bolton oscilou um pouco, mas as vitórias ainda vinham. Um momento essencial aconteceu na antepenúltima partida, quando os Whites derrotaram fora de casa o Morecambe, que vinha um ponto abaixo e era a maior ameaça ao acesso. O Bolton voltou a perder o jogo seguinte, contra o Exeter City, quando poderia confirmar a subida antecipada. Com isso, permitiu que o Morecambe voltasse a reduzir a diferença para um ponto antes da última rodada. Mas, neste sábado, os Wanderers não deram sopa ao azar. A equipe recebeu o Crawley Town, goleou por 4 a 1 e carimbou a promoção. A quem temeu a quinta divisão, voltar à terceirona parece um belo negócio.

Além do Bolton, também subiram o campeão Cheltenham e o vice Cambridge United. Sem dúvidas, as atenções maiores se voltam aos Whites, pelo peso de sua camisa e pela epopeia em sua reconstrução. A chegada de novos donos não necessariamente garante um futuro seguro, mas pelo menos indica um compromisso maior com a gestão. A caminhada tende a ser longa e a tradição não deve garantir as conquistas automaticamente, como outros clubes históricos que precisaram se reerguer bem mostram. Mas, considerando as memórias que o Bolton suscita e o saudosismo atrelado à sua camisa, mais gente estará disposta a ajudar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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