Não era o Felipão

A demissão de Felipão pelo Chelsea no começo do ano passado calou fundo em nosso orgulho nacional. Mesmo entre os trivelistas, normalmente cínicos e céticos para quase tudo, a chance de ver Scolari treinando um grande europeu parecia excelente, e sua derrocada, e a velocidade com que ela ocorreu, deixaram os analistas um pouco confusos.
Como Guus Hiddink assumiu o time e ele logo decolou, faltou fôlego aos que pretendiam reclamar de preconceito contra o brasileiro. Parecia, de fato, que o gaúcho nunca conseguira ter o elenco na mão, que suas táticas estava desatualizadas, ou no mínimo, eram muito diferentes das do futebol inglês.
Hiddink chegou e se foi, como já era combinado, e chegou o “Senhor Liga dos Campeões”, obsessão de Roman Abramovich. Carlo Ancelotti, com dois títulos como jogador, dois como treinador e mais uma final na bagagem, parecia o cara certo para chegar onde nem José Mourinho conseguira.
Pois bem: parecia, mas não era, pelo menos não em sua primeira temporada. Terminada a partida em que o Chelsea foi derrotado pela Inter – de Mourinho – nas oitavas de final da Liga, poucos pensaram nisto, mas o fato é que, por mais erros que tenha cometido em sua passagem por Londres, e Felipão certamente os cometeu, o time que ele tinha nas mãos não era tão bom quanto todos quiseram fazer crer com sua saída.
Não vale a pena analisar o Chelsea peça por peça, até porque por este critério a equipe talvez fosse melhor do que adversários que a derrotaram nas LCs recentes. Melhor é se debruçar sobre dois aspectos: a supervalorização da qualidade de alguns jogadores; e a maneira como funciona a cabeça de alguns jogadores-chave do elenco azul.
No primeiro caso, fica claro que o Chelsea tem algumas posições nas quais só pode contar com seus titulares, e as lesões de Essien, no ano passado, Cech e Ashley Cole nesse deixaram isso escancarado. Além disso, jogadores como Kalou, Malouda e Anelka parecem em alguns momentos estarem prontos para explodir, mas isso nunca acontece de fato.
O problema de atitude, entretanto, parece mais grave, e seu símbolo maior é o capitão da equipe. John Terry vem falhando há tempos, e, ultimamente, se vê em campo claramente um jogador desequilibrado psicologicamente – o atropelamento de um funcionário do clube depois da última partida só deixa claro que isto extrapola os gramados.
Para completar o “momento crise”, os Blues só empataram com o Blackburn fora de casa, e ficaram a quatro pontos do United, ou seja, agora a vantagem dos vermelhos é real. Os londrinos ainda dependem só de si mesmos para ser campeões, mas, para isso, terão de vencer os rivais em Old Trafford.
O Chelsea tem um elenco caro, mimado e incompleto, e isso já acontecia no ano passado. Felipão não tem toda a culpa pelo insucesso, assim como Ancelotti não o terá se não conseguir chegar ao título.
Os Blues precisam começar de novo, de preferência lembrando que em sua primeira onda de sucesso não havia nenhuma estrela milionária – e que jogadores como Duff, hoje no Fulham foram importantes. Que um eventual título inglês não os desvie disso.



