Inglaterra

Não é a tática o problema inglês

Nos meses e dias que antecederam a Copa de 2010, identificava-se três grandes problemas na seleção inglesa: 1- o goleiro não era confiável; 2- ninguém conseguia fazer Lampard e Gerrard jogarem juntos; e 3- não havia um companheiro de ataque para Rooney. Problemas que, como se sabe, não foram resolvidos – e o time inglês segue, praticamente até hoje, cambaleando em direção ao próximo fracasso.

O que parece não acontecer quando se lê a mídia inglesa, mesmo a de mais qualidade, depois de um triunfo. Bastou uma boa atuação para todos esquecerem que o time estava empatado com Montenegro, e que não vinha jogando nada. Que esta boa atuação tenha sido contra a Bulgária desfalcada – não que fosse mudar algo – pouco importa. E, se quando tudo dá errado a culpa é do técnico, como se supõe que deu certos méritos vão para ele também.

A análise feita pela maioria é de que duas coisas mudaram no time: o esquema funciona melhor; e Rooney está jogando melhor – o que também a atribuído aos poderes mágicos deste milagroso transformador de times de futebol, o esquema. Falemos um pouco sobre ele então, mas partidno das três questões acima levantadas: 1- a Inglaterra tem hoje em Joe Hart um goleiro confiável; 2- continua não havendo maneira de fazer Lampard e Gerrard atuarem juntos no meio; e 3- com um esquema 4-5-1 ou 4-2-3-1 elimina-se a necessidade de arrumar um atacante para jogar ao lado de Rooney – os meias farão esse papel.

Faz sentido filosoficamente falando, embora a “mudança” que todos indicam não seja tão radical. Seu principal componente, na verdade, é que, pela primeira vez em muito tempo, a Inglaterra joga com dois homens de contenção no meio-campo. Consideremos que isto de fato ocorre pelo fato de que Parker e Barry ainda não tinham atuado juntos, e de que Wilshere, embora também atue na mesma faixa de campo, não tem o mesmo poder de marcação.

À frente desta linha, Capello colocou três jogadores: Stewart Downing pela esquerda, Theo Walcott pela direita e Ashley Young pelo meio. À frente dos três, Rooney isolado no ataque. Não é, neste caso, a primeira vez que o time joga com apenas um atacante: Bent jogou isolado contra a Suíça no empate em 2 a 2 em Wembley, embora isto tenha ocorrido mais por falta de alternativa. Desta vez, foi uma opção do italiano. E funcionou. A questão é saber se funcionará de novo, principalmente quando precisar, nos momentos decisivos das competições.

Em tese, com dois homens atrás a zaga ganha proteção não só contra a fraca Bulgária. Parker é ótimo marcador, embora Barry seja mais um dsitribuidor de bola do que um “cão de guarda”. Neste caso, se o que importa é o sistema, e não as peças, há alternativas – Huddlestone, Carrick – embora nenhuma delas seja de fato um Essien.

Também o sistema de ataque pode funcionar bem, ainda mais livre da obirgação de marcar o tempo todo. E, para o setor, há numerosas alternativas: Millner, Johnson, Lennon e mesmo Wilshere, embora o meia do Arsenal em geral atua mais atrás. E aparece aí a primeira questão a desafiar o “esquema perfeito”: se todos concordam que Jack Wilshere é um dos pilares sobre os quais se deve construir o novo time, como fazê-lo em um esquema que não o favorece. E, para além disso: o que fazer com o esquema que não acolhe Lampard e Gerrard? Aposentar ambos? Aposentar apenas Lampard? E por quê?

É fato que Lampard pode atuar bem na  posição onde jogou Young. Assim como é fato que é esta a melhor posição para Gerrard. E que , no momento, Young está melhor do que ambos.  Se o problema fosse só tático, teríamos aí três alternativas para uma só função, e com o detalhe de que Young pode jogar aberto sem perda de qualidade, e de que o próprio Gerrard pode jogar pela direita, embora não seja seu habitat natural. Wilshere, porém, não tem cacoete para jogar por ali. Nem tem poder de marcação para atuar na linha de trás. Nem tem trinta anos, ou seja, não pode ser deixado de lado. Configura-se aí, portanto, um primeiro desafio ao “esquema perfeito”. Com um agravante: questionado sobre Lampard, Capello comparou o meia do Chelsea a Barry, ou seja, para ele é na linha de trás que o meia deve brigar por posição.

Se Capello fosse Dunga, fincaria o pé no esquema que funcionou, tentaria encaixar nele os jogadores citados e, se não funcionasse, levaria todos para um passeio pela Polônia/Ucrânia embora não os fosse colocar para jogar. O italiano, porém, não nasceu em Ijuí, e não terá o sossego que o gaúcho teve. Mídia e torcida vão clamar por Gerrard e por Wilshere – e até por Lampard se ele voltar a jogar bem no Chelsea, o que parece improvável neste momento.

Não há solução fácil para o problema, mas o que parece evidente neste momento é que a solução para a Inglaterra está longe de ser só tática. Há um problema de personalidades e atitudes que, contra a Bulgária, pode não atrapalhar, mas que numa Euro ou Copa do Mundo, tende a levar o time a enveredar pelo mesmo caminho das últimas competições.

Capello não se livra de Terry, e quando constatamos que quem joga a seu lado é Lescott podemos até tentar entender. (Um parêntese: ainda deveria ser tempo para testar Kyle Wlaker na direita para poder ter Smalling disponível para jogar pelo meio da zaga. E Dawson é muito, mas muito melhor do que Lescott). Se também não conseguir se olvrar de Lampard, pode esperar que tudo vá pro agua abaixo de novo.

O problema tático parece solucionado, pelo menos esse, ainda que com injustificável atraso quando se fala de um suposto mestre do assunto. O de formação de grupo, entretanto, não parece estar. Formar um grupo jovem, sem os medalhões que só levaram o time ao fracasso, poderia ter efeito, desde que isso tivesse começado ainda no ano passado. Agora, o jeito é apostar no equilíbrio tênue que as vitórias permitem. E esperar que uma derrota ou um jogo ruim não ponha tudo por água abaixo. Em resumo: fazer o que todos os técnicos recentes da Inglaterra tiveram que tentar fazer. E não conseguiram.

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Equipe Trivela

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