Não dá pra não falar

Falar do Tottenham nos últimos anos é sempre arriscado. Quando começa bem, o time acaba caindo no final – como em 2006, quando metade do elenco teve uma diarréia antes do jogo contra o West Ham que, se vencido, teria feito o time acabar em quarto, à frente do arqui-rival Arsenal. E, nos últimos anos, os Spurs vinham era começando mal, mesmo, e passando o ano em recuperação.
O Tottenham é bom lembrar, é uma das equipes mais tradicionais da Inglaterra. Além de ser o maior rival do Arsenal, por serem ambos do norte londrino, o time é um dos maiores vencedores de FA Cup (6º) e League Cup (3º), e tem em seu currículo o primeiro “double” da Inglaterra no século 20, conquistado em 1961. É também famoso por jogar bonito. Durante muitos anos, como lembra Harry Harris no Soccernet, os torcedores dos Spurs podiam dizer que o Arsenal ganhava mais, mas quem jogava o futebol mais vistoso era o Tottenham. Isso até o advento de Arsène Wenger.
A chegada de Wenger alterou profundamente o “jeito Arsenal de ser”, transformando um time que era raçudo e jogava na base do empurrar a bola para a frente em uma das equipes mais estilosas do mundo. Mais do que isso, ganhou títulos, não poucos. Para completar a desgraça dos Spurs, na mesma época a equipe viveu um dos piores períodos de sua história, motivado por contratações equivocadas, problemas de gestão e, às vezes, como no caso citado de 2006, azar, mesmo.
Por isso, quando a temporada 09/10 começou com os Spurs bombando, todo mundo com juízo na cabeça segurou o ímpeto. Até mesmo este escriba (como diria Felipe dos Santos Souza), que admite sua simpatia pelo conjunto de White Hart Lane, hesitou. Não há hesitação, entretanto, que resista a um 9 a 1. 9 a 1. Quando vi a notícia me confundi. Achei que tinha sido 1 a para o Wigan, mas isso não combinava com a foto do sorridente Defoe. Sim, era um 9, e não um 0. A segunda maior diferença de gols desde o começo da Premier League. A maior derrota da (breve) história do Wigan. E, se não é suficiente para cravar que os Spurs finalmente chegarão à Champions League, pelo menos uma coisa é certa: o time está jogando bem de novo. E jogando bonito.
O Tottenham é atualmente o quarto colocado, e ninguém espera que a equipe possa superar os três que vão à sua frente – Chelsea, Man United e Arsenal. A derrocada do Liverpool, porém, permite supor que existe uma vaga em aberto para a principal competição da Europa. E, do jeito que as coisas vão, os Spurs tem tantas condições quanto qualquer dos concorrentes – Liverpool, Aston Villa e Manchester City – para chegar lá.
Uma breve olhada para o elenco dos londrinos mostra um time forte no meio, e com bons recursos na frente – e ter Pavlyuchenko no banco é um bom sinal disso. Seus maiores valores estão no ataque, onde despontam os pequenos Lennon, ala pela direita, e Defoe, prováveis integrantes do time inglês em 2010. E há bom valores no meio, como Jenas e o hondurenho Palácios. Atrás, porém, o quadro é um pouco diferente.
Os Spurs têm em sua zaga um dos melhores zagueiros do mundo que não pode jogar bola, Ledley King. King sofre de um problema no quadril que o impede de treinar, e que faz com que não possa atuar sempre. Quando joga, o capitão dos Spurs é quase sempre perfeito. Mas não pode jogar muito. Assim como Jonathan Woodgate, seu parceiro de zaga, que depois de um bom período com poucas contusões voltou à rotina de ficar mais no departamento médico que em campo. Outro que, além de não ser grande coisa, se machuca demais é Michael Dawson. O que faz com que a equipe tenha que atuar muitas vezes com improvisações na zaga. Isso sem falar em Gomes, ótimo debaixo das traves mas uma calamidade saindo do gol.
O Tottenham vinha se notabilizando por gastar muito dinheiro – o time é rico – e não ganhar nada. Depois, porém, da gastança do meio da temporada passada, quando precisou gastar para fugir da queda, no começo do atual campeonato o time quase não gastou. Chegaram Crouch e o zagueiro Bassong e, depois da contusão de Modric, Kranjcar. A defesa, entretanto, segue precisando de cobertura.
Os Spurs têm no banco alguns jogadores, como o já citado Pavlyuchenko, que não fariam faltam e que poderiam render os necessários recursos para reforços. Independentemente disso, parece claro que, como sempre, o futuro do time depende da cabeça. Harry Redknapp, que levou o Portsmouth ao título da FA Cup há duas temporada, pode não ser um gênio tático, mas seu perfil “boleiro” parece estar funcionando. Se conseguir manter sua equipe com os pés no chão e a confiança em alta ao mesmo tempo, pode ser que a temporada que vem leve a White Hart Lane os maiores do mundo.
Como de costume, porém, para falar do Tottenham é sempre bom ter cautela. Tenhamos.



