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Por essa eu não esperava. Cheguei até a brincar com a declaração mais famosa da sua entrevista coletiva de apresentação no – “É isso que eu faço, eu venço” -, principalmente porque lhe faltava um pouco de realidade. nunca conquistou títulos importantes e não vencia com frequência desde o fim da sua passagem pelo Everton. Percebeu o pretérito imperfeito? Pois é. David Moyes está vencendo. Está vencendo tanto que são reais as chances de levar o West Ham às competições europeias da próxima temporada.

Exatamente o quanto está vencendo? Desde meados de julho, na sexta rodada após a retomada do futebol inglês, levou 48 pontos de 84 em disputa em 28 partidas. Um bom aproveitamento de 57%. Ganhou metade desses jogos, suficiente para escapar do rebaixamento na última Premier League e aparecer em quinto lugar na atual, empatado em pontos com o Chelsea, quarto colocado. Ainda pode ser ultrapassado pelo Everton ou pelo Aston Villa, ambos com duas rodadas a menos.

A pré-temporada – se é que dá para chamar disso aquelas semanas entre uma e outra – não dava sinais de que seria assim. Olhando para todos os candidatos, era possível até imaginar uma segunda briga consecutiva contra o rebaixamento porque, embora tenha muito talento em seu elenco, o clima mais uma vez era péssimo. Não havia contratado reforços de nota (o que acabou sendo para o bem, como mostraremos a seguir) e o vestiário estava irritado com a diretoria pela venda considerada precoce da promessa Grady Diangana ao West Brom.

Começou a campanha com uma derrota por 2 a 0 para o Newcastle que gerou mais preocupações porque havia mostrado pouco futebol e espírito de luta. Perdeu para o Arsenal no jogo seguinte, e Moyes passou um tempo afastado por ter contraído Covid-19. Mas, desde então, todos os seus revezes foram contra times do famoso Big Six: dois para o Liverpool, um para o Manchester United e outro para o Chelsea.

É verdade que esses foram os únicos duelos do período contra os grandes. O maior teste virá nas próximas rodadas – sempre parece que os jogos difíceis são aglomerados na tabela do West Ham. Segura essa sequência: Tottenham, Manchester City, Leeds, Manchester United e Arsenal, seguidos por Wolverhampton e Leicester, que também não são molezinhas. Terá a chance de revanche contra o Newcastle e logo em seguida já enfrenta o Chelsea.

Caso tenha sérias ambições em jogar competições europeias, talvez até a Champions League porque nada é impossível em uma temporada estranha como esta, terá que mostrar serviço nessa leva de confrontos diretos e se manter na briga para tentar uma arrancada nas cinco rodadas finais – Burnley, Everton, Brighton, West Brom e Southampton.

Falando menos do futuro e mais do presente, quais são os pontos fortes deste West Ham? Como chegou até esta posição? Vamos um por um.

A melhor versão de David Moyes

David Moyes apresentado no West Ham (Foto: divulgação/West Ham)

Ninguém é ruim o tempo inteiro, muito menos alguém que foi escolhido a dedo por Alex Ferguson para herdar o seu reinado. Olhando para o geral da carreira de David Moyes, mesmo que ele não conseguisse mais nenhum bom trabalho, o saldo ainda seria positivo pelo que fez à frente do Everton. Com orçamento baixo, quase zerado, manteve o seu time na parte de cima da tabela e conseguiu até arrancar uma vaga na Champions League. Falando naquela história de vencer, ganhou 221 jogos pela Premier League, atrás apenas de Alex Ferguson, Arsène Wenger e Harry Redknapp. Foi dez vezes eleito o melhor treinador do mês.

Não era o cara para assumir o Manchester United e parece ter entrado em uma espiral negativa depois disso. Não tomou boas escolhas também: a Real Sociedad era um choque cultural muito grande para quem nunca havia trabalhado fora da ilha e ninguém dá certo no Sunderland há muito tempo. A sua primeira passagem pelo West Ham havia sido razoável. Também salvou-o do rebaixamento. A diretoria não ofereceu um novo contrato a ele porque queria trazer um nome mais glamouroso. Quando Manuel Pellegrini fracassou, o respectivo rabo foi colocado entre as respectivas pernas e Moyes foi convocado para operar mais um resgate.

O West Ham sempre foi uma boa oportunidade para quem soubesse aproveitá-la. Com todos os problemas extra-campo, alguns até místicos, tem capacidade de investimento suficiente para atrair jogadores talentosos. Quem conseguisse transformá-los em um time coeso se destacaria. Moyes está sendo o primeiro com sucesso nessa missão em muito tempo.

Na maioria dos jogos, todos correm, todos estão concentrados, todos sabem o que fazer. O West Ham é o time da Premier League com mais gols de bola parada (12), o que costuma ser um produto de muito trabalho nas sessões de treinamento – e é também o menos vazado nesse tipo de jogada, empatado com o Manchester City (2).

Jornalistas ingleses que o acompanham mais de perto identificam que ele recuperou aquele brilho no olhar, após anos em que parecia mais abatido com sua carreira saindo dos trilhos. O West Ham tem conseguido destravar a melhor versão de David Moyes, uma versão que estava escondida há quase dez anos. E essa versão dá um bom treinador.

Poucas e boas contratações

Benrahma é apresentado pelo West Ham (Foto: Divulgação)

Um dos pontos de atrito no começo da temporada foi a ausência de reforços. O West Ham acostumou sua torcida com nomes famosos, salários altos, potenciais craques que nunca se firmavam. Deve ter alguns sobrando ainda se alguém quiser arriscar. A para esta temporada, mesmo que parcialmente obrigada por restrições financeiras, foi diferente. Foram reforços que não estavam tanto no radar, nem custaram muito dinheiro. Mas foram certeiros.

Dois dos destaques do West Ham foram emprestados por times da segunda divisão. O zagueiro Craig Dawson, cedido pelo Watford, virou titular no fim de dezembro e tem formado uma dupla sólida com Angelo Ogbonna. Saïd Benrahma é a energia que sai do banco de reservas no segundo tempo. Ainda estava vinculado ao Brentford, mas foi contratado em definitivo para abrir espaço ao negócio temporário por Jesse Lingard, que, ainda com poucos jogos, parece outro acerto – os clubes da Premier League podem ter no máximo dois empréstimos domésticos ao mesmo tempo.

Esses reforços têm o mesmo perfil de Jarrod Bowen, que chegou do Hull City em janeiro para forçar o seu lugar entre os titulares dos Hammers. Antes de Benraham, o maior investimento era por Vladimir Coufal, do Slavia Praga, que assumiu a lateral direita e tem sido um dos melhores da posição na Premier League. No fim, não é que o West Ham acabou contratando muito bem?

Quem precisa de um atacante?

Michail Antonio chuta para marcar contra o Norwich (Reprodução/Twitter)

E inclusive resistiu à tentação de tentar pela milésima vez encontrar um centroavante. A busca é antiga e já envolveu todo tipo de jogador, de Chicharito Hernández a Jonathan Calleri. O último fracasso foi tão frustrante que talvez tenha levado a diretoria a desistir de tentar. Sébastien Haller parecia um golaço pelo que havia feito pelo Eintracht Frankfurt, mas não trouxe nem a sombra para a Inglaterra. Já está realocado no Ajax.

E também foi encontrada uma solução caseira que tem dado muito certo. Michail Antonio faz um excelente trabalho liderando o ataque do West Ham, mesmo que não tenha tantos gols para mostrar – apenas cinco na Premier League. Na sua ausência, contra o Sheffield United, Moyes centralizou Bowen e também gostou dos resultados. Quem precisa de um atacante, no fim das contas?

Uma espinha dorsal

Tomas Soucek comemora seu gol pelo West Ham contra o Everton (Reprodução)

Com tanta rotatividade, nem sempre foi fácil escalar o time do West Ham. Agora, mais da metade está na ponta da língua: Fabianski é o goleiro, Coufal, Ogbonna, Dawson e Cresswell formam a linha de defesa, eventualmente com três zagueiros, como contra o Sheffield United, e Declan Rice e Tomas Soucek formam uma das duplas de volante mais competentes da Inglaterra. Quando está saudável, Antonio é o centroavante. Sobram três posições na linha de armação em que Moyes roda um pouco mais os seus recursos.

Bowen costuma sempre jogar. É o sétimo do elenco em minutos na Premier League. Pablo Fornals também é bastante frequente entre os onze primeiros. Para a outra vaga, há inúmeros candidatos. Yarmolenko vinha apenas saindo do banco de reservas antes de lesionar os ligamentos do joelho. Benhrama e Lanzini também são mais usados a partir do banco de reservas e às vezes Moyes improvisa Ryan Fredericks. Quem parece à frente neste momento é Jesse Lingard, que impressionou em seus primeiros três jogos.

Ausência de torcedores

Torcida do West Ham no London Stadium (Getty Images)

Este ponto é um pouco mais polêmico, mas não pode ser ignorado. O clima é péssimo nos jogos do West Ham desde a mudança para o Estádio Olímpico. Muitos torcedores ainda não engoliram a decisão de abandonar o Upton Park e nem estavam contentes com a condução dos donos David Sullivan e David Gold. Quando não havia protestos nas arquibancadas, havia frieza e distanciamento, acentuado pelo fato de que o campo fica mais longe no estádio que serviu à Olimpíada de 2012.

Nos quatro anos de casa nova, o West Ham nunca foi um grande mandante: 16º em 2016/17, 11º em 2017/18, nono em 2018/19 e 16º em 2019/20. Em contraste, teve a sétima melhor campanha em casa na última temporada no Boleyn Ground.

Atualmente, tem a quarta, atrás apenas de Chelsea, Liverpool e Manchester City. E, como todo jogo é praticamente em campo neutro, tem a quinta como visitante, também a melhor desde aquele time liderado por Dimitri Payet. É claro que pode ser apenas coincidência.

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