‘Era tentador’: Como Mourinho quase convenceu Gerrard a sair do Liverpool
Relato do ex-capitão dos Reds detalha bastidores, dúvidas internas em Anfield e o peso da abordagem do técnico português no auge da carreira
Steven Gerrard voltou a abordar um dos momentos mais sensíveis da sua trajetória no Liverpool ao revelar como esteve perto de deixar o clube após a conquista da Champions League.
Em entrevista a Ally McCoist, da “TNT Sports”, o ex-capitão lembrou que o assédio de José Mourinho, então técnico do Chelsea, coincidiu com um período de grande rendimento individual, mas também com o início de questionamentos sobre o seu papel no projeto esportivo dos Reds.
O primeiro sinal do interesse surgiu de maneira inesperada, num contexto em que Gerrard se sentia plenamente estabelecido como referência técnica da equipe. A abordagem destacou-se pela forma direta e pelo momento escolhido, aumentando o impacto da proposta num jogador que vivia seu auge dentro de campo.
— Um número de telefone que não reconheci no meu celular (foi como soube do interesse do Chelsea). Eu passava por um momento muito bom e me sentia confiante. Estava jogando de forma consistente e sentia que podia enfrentar qualquer adversário. Havia algumas equipes mostrando interesse através do meu agente, mas essa proposta chegou e foi (tentadora).
Apesar do sucesso esportivo, a situação contratual e o ambiente interno do Liverpool passaram a pesar na tomada de decisão. Mesmo após a histórica final europeia contra o Milan, Gerrard revelou que não se sentia completamente seguro quanto ao seu futuro, sobretudo pela forma como o clube e a comissão técnica lidavam com a sua permanência a médio prazo.
— Isso foi em 2004 e eu estava muito feliz onde estava, mas depois da final da Champions League (em 2005), quando vencemos, eu ainda tinha três anos de contrato.

Gerrard relembra ruídos internos e a influência de Mourinho
O desgaste aumentou à medida que a relação com Rafael Benítez, então treinador do Liverpool, se mostrava funcional somente no plano esportivo. Gerrard explicou que, diferentemente do período sob Gerard Houllier, sentia falta de proximidade e clareza na gestão do grupo, o que alimentava incertezas sobre o seu estatuto no plantel.
— O clube estava começando a falar com pessoas que tinham mais três anos de contrato, mas eu sentia algo diferente por parte do clube e do Rafa (Benítez). Certo ou errado, a minha relação com o Rafa era forte do ponto de vista futebolístico, mas muito fria em termos de gestão de pessoas, em comparação com Houllier.
— Eu tinha conversas com o Rafa, nas quais ele dizia: “Sei que o teu agente está falando com o Real Madrid, o Bayern e o Chelsea”. O que não era verdade, aliás. Ele me dizia: “Tem certeza de que quer ficar aqui?”. E eu comecei a ter dúvidas.
Foi nesse cenário de incerteza que a figura de José Mourinho ganhou ainda mais peso. O treinador português apresentou um discurso claro, centrado no protagonismo esportivo, e exerceu forte influência em um jogador que buscava segurança e reconhecimento dentro de um projeto vencedor.
— Mourinho me ligou. Indiscutivelmente o melhor treinador do mundo na altura. E quando ele fala contigo, a sua capacidade de persuasão e o seu jeito com as pessoas são de alto nível. Era tentador, claro que era. Financeiramente, eles oferecem o dobro do dinheiro, mas para mim o importante era continuar a ser um dos melhores meias da Premier League e manter o meu lugar na seleção inglesa. Era isso que me passava pela cabeça.

Mais do que a questão financeira, Gerrard revelou que a dúvida central era esportiva: sentir-se, ou não, o eixo de uma equipe. A ausência dessa garantia no Liverpool contrastava com o discurso recebido do exterior, ampliando o conflito interno num momento decisivo da carreira.
— Será que o Rafa realmente me quer? Será que ele quer construir (a equipe) à minha volta? Porque, se não for esse o caso, estou sendo informado por um dos melhores treinadores do futebol mundial que serei o principal jogador. Agora, se ele falou a sério ou não, isso é outra conversa, mas ele (Mourinho) foi certamente convincente e me fez sentir assim.
No desfecho, Gerrard optou por permanecer no clube que o formou, decisão que encerrou um período de dúvidas, mas não apagou a consciência de que esteve perto de sair. O ex-meia reconheceu que a situação exigiu reflexão e admitiu que flertou com a mudança antes de bater o martelo.



