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Manchester United está certo em não ficar com Falcao, mas El Tigre não está acabado

O Manchester United anunciou neste domingo que não contratará Falcao García em definitivo. Após um ano de empréstimo ao clube inglês, o colombiano deverá retornar ao Monaco – ou ser negociado com outra equipe durante a janela de transferências. Tanto o clube inglês quanto o atacante tinham tudo para funcionar juntos, mas futebol não é matemático, e diversos fatores podem influenciar significativamente o desempenho de um atleta em uma determinada equipe. E vários deles ajudam a explicar o fracasso do Tigre na Inglaterra.

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Para ter Falcao por empréstimo, o Manchester United pagou 16 milhões de libras. Entre outras coisas, o acerto foi uma forma de dar perspectiva para os torcedores de que, depois da temporada decepcionante com Moyes, os novos rumos com Van Gaal buscariam o retorno imediato ao patamar ao qual Ferguson levou o clube, em questão de competitividade. Arsenal e Manchester City disputavam o atacante, o Real Madrid era frequentemente dado como o futuro do colombiano, mas, no último dia da janela, no início de setembro, o United costurou o acordo. Se quisesse permanentemente o atacante, precisaria pagar 43 milhões de libras. Valor clara e absurdamente caro para o que o atacante apresentou nesta temporada.

Os primeiros meses de Falcao foram hesitantes porque o colombiano vinha de lesão grave no joelho. Some a isso o fato de que o time passava por uma reestruturação imensa, não chegou a emplacar uma sequência de boas atuações coletivas, e você tem parte da resposta para o insucesso do colombiano. Além disso, esses primeiros meses de dificuldade contribuíram para uma clara falta de confiança do atleta em alguns dos jogos, errando passes curtos, deixando de finalizar em situações em que, nos tempos de Porto e Atlético de Madrid, provavelmente teriam acabado com a bola na rede. O lado psicológico é importante para que um atleta triunfe, e Falcao claramente teve problemas nesse sentido, como sugere o episódio em que Silvano Espindola, seu antigo agente, revelou que conversava por telefone com o atacante, que, chorando, lamentava o momento pelo qual passava.

Os números ajudam a ilustrar o tamanho da decepção que foi Falcao no Manchester United. Entre 2009 e 2014, o colombiano fez por merecer o status de um dos maiores atacantes do mundo. Seus números por Porto e Atlético de Madrid, principalmente, não encontravam concorrência facilmente. Em Portugal, balançou as redes 72 vezes em 87 jogos, média de 0,83 por partida. Na Espanha, 70 gols em 90 partidas, 0,77 a cada duelo. Já pelos Red Devils, mesmo se não houvesse essa comparação com os números anteriores, o fracasso ficaria claro. Foram 29 jogos, 17 deles como titular, e apenas quatro gols marcados – média de 0,13 por partida. Mesmo número de gols alcançado pelo zagueiro Smalling.

Um dos momentos emblemáticos da passagem de Falcao pelo United foi a partida disputada pelo time sub-21, mais pelo simbolismo do que pelo fato em si. O caso foi repercutido de maneira desproporcional, já que se tratava apenas de uma opção de Van Gaal para manter o atleta em ritmo de jogo, alternativa possibilitada pelas regras de inclusão de três atletas acima da idade limite na Premier League da categoria. Entretanto, por ter ficado o tempo todo no banco um dia antes, durante a eliminação do clube para o Arsenal pela Copa da Inglaterra, e por não ter se destacado mesmo entre os garotos, não foi poupado das críticas – e do escárnio – da imprensa.

Além das questões de reconstrução do time e de falta de confiança do atacante, o jogo duro da Premier League também parece ter afetado o jogo. A constante pressão para que correspondesse às expectativas tiveram também seu peso na tentativa do atacante de se adaptar ao futebol inglês. Se, por um lado, a torcida se mostrou mais paciente e compreensiva, embora frustrada, a imprensa do país não é conhecida por pegar leve.

No fim das contas, a escolha do United em não exercer seu direito de compra em definitivo é correta. Depois do desempenho tão decepcionante, não deveria haver na diretoria ou na comissão técnica de mantê-lo. Mesmo que houvesse uma confiança de que com mais tempo o atacante poderia render tudo aquilo pelo que ficou famoso nos anos anteriores, a missão de justificar o pesado investimento para torcedores e imprensa seria dificílima, e as pancadas não seriam poucas. Isso, no entanto, não significa que Falcao não pode mais render daqui para  frente. Uma lesão como a pela qual o Tigre passou sempre coloca uma interrogação sobre o futuro de um jogador, é verdade, mas Falcao atuou muito tempo em altíssimo nível no futebol europeu para que façamos a análise fatalista de que ele está acabado. Uma temporada ruim não é suficiente para tanto.

Já se fala na Inglaterra que o atacante gostaria de permanecer na Premier League e estaria disposto a aceitar um salário menor do que os 300 mil semanais que recebia no Manchester United. Existem interessados em sua contratação, não apenas na Inglaterra, e provavelmente o centroavante terá uma oportunidade em uma liga de grande evidência na próxima temporada. Além disso, o jogador tem toda a Colômbia como suporte. Seu país ainda acredita muito naquilo que ele é capaz de fazer. O Falcao que conhecemos até pouco antes da Copa do Mundo do ano passado pode ter virado apenas memória, mas é cedo demais para decretar seu fim.

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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