Inglaterra

Liverpool respira

  Nada pode ser mais complicado que enfrentar um dérbi de rivalidade feroz logo após uma eliminação inesperada na Liga dos Campeões. Tudo bem que o Everton anda devendo na temporada, mas o Liverpool certamente preferia não ter que visitar Goddison Park nessa situação. Por outro lado, é claro, uma vitória com um quadro desses é sempre inspiradora. E foi justamente o que conseguiram os Reds no último final de semana.

A situação limite, é verdade, passou há algumas semanas, mais precisamente em 4 de novembro, quando, ao não superar o Lyon em Lyon a equipe colocou nas mãos da Fiorentina seu futuro europeu. O que se diz na Inglaterra, entretanto, é que se é problemático para os Reds sair da LC ainda na fase de grupos, a catástrofe mesmo viria se o time não se classificasse para a competição no ano que vem.

Com a vitória diante do Everton, o Liverpool é o quinto, e se coloca a apenas três pontos do Tottenham, e a dois do Arsenal, que tem um jogo a menos. É evidente que se não começar a jogar melhor, o time não vai chegar a lugar algum, porém nunca é demais lembrar as diversas campanhas recentes dos “quatro grandes” em que um deles, mais notória e recentemente o Arsenal, flerta com a perda da vaga, mas, no final, o “outsider” perde o gás e tudo fica como antes.

O negócio é que, apesar da vitória, os Reds não foram bem. E vale também lembrar que, depois do último resultado do tipo, a vitória sobre o United em 25 de outubro, a equipe foi batida pelo Fulham, e freou a reação que parecia estar começando.

Os problemas de Rafael Benítez continuam parecidos: falta fluidez e consistência ao meio-campo, e sua equipe depende demasiadamente de Gerrard e Torres, cuja forma física nem sempre é das melhores. Se em outros tempos o time poderia pensar em se reforçar na janela do meio da temporada, a situação financeira impedirá que isso aconteça. O que faz com que a única alternativa à dupla seja o improvável rápido florescimento de algum dos jovens que enchem o elenco vermelho – como N’Gog. Por outro lado, o time vai ganhando entrosamento, e a cada partida a ausência de Alonso tende a pesar menos.

O resultado mais imediato da vitória, entretanto, é um alívio na pressão sobre Rafael Benítez. Se é verdade que a paciência dos clubes europeus com os treinadores costuma ser maior do que a que se vê por aqui, também é verdade que a pressão por resultados principalmente financeiros tem mudado esse quadro. E vale a pena não esquecer que os donos do Liverpool são americanos.

Benítez está na história do Liverpool. Deve isso, porém, principalmente à LC de 2005. Tem inegáveis virtudes, e o fato de o Liverpool ter voltado a ser membro “congelado” dos quatro primeiros desde sua chegada é a prova disso. Há, porém, quem especule que, como o dinheiro que tem nas mãos, já deveria ter feito mais. A atual temporada era aquela na qual a equipe deveria brigar pelo título, para, assim, remover a última barreira do espanhol.

Como isto dificilmente vai acontecer, resta a Benítez engrenar uma reação que coloque a equipe rapidamente entre os quatro, e sem risco de perder a vaga. Se a equipe começar a se aproximar de uma nova situação limite, os donos não vão pensar duas vezes antes de se livrar do “herói nacional”.

Em Londres

A derrota do Arsenal diante do Chelsea dentro de casa não pode ser chamada de “chocante”, mas evidencia algumas coisas sobre a primeira parte deste campeonato que precisam ser notadas. A começar pela forma inacreditável de Drogba e Anelka, que parecem ter nascido jogando bola juntos, e bem.

No Emirates neste final de semana, porém, até Ashley Cole resolveu mostrar seu melhor futebol. E os Gunners, apontados aqui há algumas semanas como possíveis candidatos ao título, mais uma vez mostraram que não têm a menor condição de superar a perda de um jogador como Robin van Persie – perda que, infelizmente, é freqüente.

A briga pelo título, parece, terá dois participantes, e um deles está “manco”, o Manchester United, que vence os jogos obrigatórios, mas não parece ainda ter descoberto sua consistência pós-Cristiano Ronaldo. O que pode indicar uma tranqüilidade para o Chelsea maior do que a esperada.

No Emirates, além da preocupação imediata com a perda do atacante e suas conseqüências para o resto do campeonato, o papo do momento é a investida do milionário americano Stan Kroenke, que pode ser obrigado a fazer uma proposta pelo controle do clube em breve.

Kroenke, que fez fortuna no ramo imobiliário, é dono de diversos times profissionais nos EUA, como o Denver Nuggets, onde joga Nenê, e o St. Louis Rams. Por enquanto, detém pouco menos que os 29,99% que o obrigariam a fazer a oferta. Suas cotas são parte do grupo de controle, que detém 45% das cotas do clube.

As investidas de Kroenke, que no começo causaram preocupação, depois acabaram usadas como um “antídoto” ao bilionário russo Alisher Usmanov, que tem 25% das cotas e deixa claro que gostaria de ser o dono de tudo. Usmanov é um bilionário no modelo Abramovich, ficou rico ao virar dono de uma empresa de mineração que era estatal – ou pelo menos que cresceu na base de negócios com o estado russo.

O que se depreende das declarações de Kroenke é que, pelo menos por enquanto, o americano não pretende adquirir o time inteiro. Para isso, teria que convencer todo o “board” do time, em que há um acordo de preferência entre os membros para comprar as cotas dos outros membros. Se Usmanov, entretanto, ameaçar se mexer, é provável que os ingleses prefiram ver seu time nas mãos de um americano do que na de um russo.

Preconceito? Pode ser, e o sucesso do Chelsea comparado com o “fracasso” do Liverpool mostra que, pelo menos no curto prazo, a nacionalidade do investidor não garante nada. No caso de americanos bem sucedidos, como os Glazer, do United, as dívidas que carregam consigo ameaçam o clube tanto quanto uma eventual “pirada” de Abramovich ameaça o Chelsea.

É, certamente, a maior armadilha contida no modelo da Premier League. Só se obtém sucesso com muito dinheiro, e só se obtém muito dinheiro vendendo a alma (no caso, o clube) para quem o tem. Em 90% das vezes, esse “quem tem” não tem nenhuma identidade com o clube. Ou, mesmo que tenha, como é o caso do dono do Newcastle, não vai pensar duas vezes se tiver que sacrificar o clube me nome de seus interesses de negócios.

É o enigma da esfinge. E ninguém parece ter a chave para decifrá-lo.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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