Kasper Schmeichel honrou o pai e as lendas do gol do Leicester para eternizar seu próprio feito
“Pai de um campeão da Premier League”. A postura de um pai coruja poderia definir centenas de anônimos que viram seus filhos campeões na Inglaterra. Mas surpreende quando vem de alguém que já ergueu a taça. Mais do que isso, de um dos maiores goleiros da história. Peter Schmeichel não escondeu o orgulho pela façanha de Kasper na meta do Leicester. Transformou a frase em sua biografia no twitter. Diz muito sobre a importância da conquista e do carinho com o rebento que seguiu os seus passos. Que conseguiu triunfar, como ele.
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Kasper Schmeichel se acostumou a lidar com a sombra do sobrenome ao longo da carreira. Afinal, o que seu pai fez sob as traves do Manchester United e da Dinamarca, principalmente, o alçou ao status de lenda. O garoto cresceu em Old Trafford e, enquanto o veterano pendurava as luvas no Manchester City, ele dava os seus primeiros passos nas categorias de base. Longa caminhada para se firmar, até mesmo pelas comparações recorrentes. O camisa 1 se profissionalizou nos Citizens, mas pouco jogou. Antes disso, rodou pelas divisões inferiores da Inglaterra. O fato de atuar nas equipes menores da seleção dinamarquesa não ajudou muito em sua vida nos clubes, tantos deles medíocres.
Apenas em 2009/10, aos 23 anos, é que Kasper assumiu a titularidade: no histórico Notts County, então na quarta divisão. Campeão e eleito o melhor do torneio, ganhou uma chance de defender o Leeds na Championship. Outra vez provou o seu valor, se firmando como uma das referências da equipe. Até que seu “tutor” no futebol o levou ao Leicester, em 2011/12. Sven-Göran Eriksson já havia trabalhado com o dinamarquês no Manchester City e no Notts County. Levou o arqueiro ao Estádio King Power como nome de confiança para o elenco que começava a estruturar. Não decepcionou, logo eleito o melhor jogador do clube naquela temporada, na segunda divisão.

Com o Leicester, Kasper pôde apresentar todos os ensinamentos que recebeu com Peter. Quando garoto, chegava até mesmo a participar dos treinamentos com o pai. E se gabava com os amigos. “Ele ia treinar com os profissionais do Sporting e contava de quem tinha defendido os chutes. Adorava mostrar o que o pai lhe ensinava, aquela saída com os pés que só eles fazem. Só eles sabem fazer. Era a cópia do Schmeichel”, afirma Pedro Silva, com quem Kasper jogou nos juvenis do Estoril, em entrevista ao português Observador. Técnica que costuma se ver jogo a jogo das Raposas, também pelos milagres que faz nos chutes à queima-roupa – como era tão constante a Peter.
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Entretanto, assumir a meta do Leicester trazia também uma responsabilidade extra a Kasper. Dois dos melhores goleiros da história da Inglaterra também passaram por lá, no antigo estádio de Filbert Street. Lendas que são imprescindíveis quando se resgata o passado do clube. O primeiro deles foi Gordon Banks, trazido aos 22 anos, após iniciar a carreira no modesto Chesterfield. Contudo, foi nas Raposas que o camisa 1 se impulsionou como um dos melhores do mundo. Em 1962/63, Banks era peça fundamental na campanha que fez a equipe sonhar com o título do Campeonato Inglês, mas derrapar nas últimas rodadas.
De qualquer forma, como guardião dos “Reis do Gelo”, acumulando atuações espetaculares nos campos pesados do inverno rigoroso de 1963, Banks chegou à seleção inglesa. Não saiu mais, sendo o único na história a conquistar uma Copa do Mundo como jogador do Leicester. No entanto, o craque de luvas não permaneceria por tanto tempo em Filbert Street. Acabou se transferindo ao Stoke em 1967, diante de uma oferta financeira bem mais vantajosa no Estádio Britannia.

A lacuna deixada por Banks ganhou um substituto a altura. Nascido na cidade, Peter Shilton estreou na equipe principal ainda em 1966, aos 16 anos. Tornou-se titular com a venda do veterano, para despontar também como um dos melhores goleiros da Inglaterra. Aos 21 anos, ajudando o Leicester no acesso à elite, ganhou sua primeira convocação. Para se tornar nome absoluto na seleção. Shilton passou dos 300 jogos na equipe, permanecendo em Filbert Street até 1974/75, quando ganhou o primeiro de seus dez prêmios de melhor goleiro do Campeonato Inglês. Foi vendido ao Stoke, antes de viver seu auge no Nottingham Forest. Depois disso, o Leicester chegou a contar com outros goleiros de nível de seleção, como Kasey Keller e Tim Flowers. Mas ninguém que fizesse tanta diferença quanto Schmeichel.
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Kasper viveu toda a frustração na Championship 2012/13, quando um gol aos 52 do segundo tempo, na sequência de um pênalti perdido, culminou na eliminação nos playoffs diante do Watford. Independente disso, recebeu o prêmio de melhor goleiro da liga. E repetiu a honraria na temporada seguinte, desta vez dono da taça e sem sofrer gols em 18 jogos da campanha do acesso. A esta altura, também tomava a posição na seleção dinamarquesa, recorrente nas convocações de Morten Olsen. Terceiro goleiro na Euro 2012, firmou-se como titular a partir de meados do ano seguinte.
Enfim titular na Premier League, Schmeichel sofreu em boa parte da trajetória em 2014/15, mas ofereceu grande contribuição na salvação da reta final. Não sofreu gols em cinco das últimas sete rodadas, o suficiente para evitar o rebaixamento do Leicester. E, no épico sob as ordens de Claudio Ranieri em 2015/16, se posicionou entre os melhores goleiros do futebol inglês. Suas atuações, sobretudo no segundo turno, foram fabulosas. Acumulou defesas impossíveis e dominou de maneira soberana a sua área – muito graças às saídas providenciais. Nas últimas 18 partidas, terminou com sua meta invicta em 12. Possibilitou que as vitórias apertadas das Raposas mantivessem a equipe no topo até a confirmação do título. Em especial, uma defesaça justamente em Old Trafford permitiu que o duelo emotivo contra o Manchester United se tornasse o jogo decisivo. Aos 29 anos, como o pai, ergueu a taça da liga pela primeira vez.

De certa forma, o título da Premier League serve de resposta a Kasper. É sua própria história sendo escrita, sua própria façanha. Uma conquista irrefutável para jogar na cara de quem insiste em compará-lo com seu pai – algo que já encheu a paciência da família Schmeichel, conforme o arqueiro do Leicester contou em entrevista ao Daily Mail. Há alguns meses, pai e filho jantavam quando um fã chegou e disse ao veterano: “Você é uma lenda, amigo. Seu filho está se saindo bem, mas nunca será tão bom quanto você”. Peter respondeu: “Só vai embora. Você vem aqui, insulta meu filho e acha que vai ficar por isso mesmo?”. Não só protecionismo, como também reconhecimento ao que o rebento faz. Que Peter tenha sido mesmo superior, a trajetória de seu pupilo também começa a se eternizar.
Kasper e Peter têm suas histórias a compartilhar. Agora, também os feitos para um se orgulhar do outro. E, se o nome do pai faz-se honrado pelo filho, o jovem também guarda o legado de Banks e Shilton sob as traves Leicester. O peso da responsabilidade não é problema para o camisa 1. Não à toa, se manteve firme ao longo da campanha fantástica das Raposas para terminar como um dos grandes heróis. Coloca-se ao lado dos grandes sem qualquer motivo para menosprezo nas comparações.



