Inglaterra

Uma entrada violenta pode trazer sequelas para a vida

Em tempos que a violência dentro dos gramados não é punida com o devido rigor, exemplos de jogadores que têm suas carreiras comprometidas ou encerradas por graves lesões ainda são notícia.

É impossível citar contusões sérias sem lembrar dos casos de Zico/Márcio Nunes, Eduardo da Silva/Martin Taylor e Aaron Ramsey/Ryan Shawcross. Ainda que no caso de Ramsey a falta cometida pelo zagueiro do Stoke não tenha sido intencional, o galês quebrou a perna e até hoje ainda tem dificuldades para apresentar um bom futebol.

Dentro desse contexto está a história de John Thompson, zagueiro irlandês que passou por Nottingham Forest, Oldham Athletic e Mansfield Town. Pelo Mansfield da quinta divisão inglesa, em 2011, sofreu uma lesão que lhe causaria um grande trauma. Num amistoso diante do Ilkeston, da oitava divisão, John levou uma cotovelada brutal do adversário Gary Ricketts e precisou ser hospitalizado com uma fratura no nariz, além de levar 60 pontos no local.

A cena foi tão forte que o treinador Paul Cox, do Manfield, pediu aos árbitros que encerrassem a partida, que ainda tinha 17 minutos restantes. Detalhe, antes de Thompson, outros dois atletas se lesionaram em divididas com Ricketts. Em especial Martin Riley, que guarda uma cicatriz medonha na testa, também por uma cotovelada do atacante do Ilkeston naquela ocasião.

Em entrevista à BBC, Thompson anunciou sua aposentadoria e explicou as razões que teve para tomar tal decisão, dois anos depois de começar a conviver com algumas sequelas: “Foi algo que nunca deveria ter acontecido num campo de futebol. Fiquei com quase 60 pontos no rosto, quebrei o nariz, lesionei meu ombro e ainda desloquei um dedo. Também passei por uma operação delicada no nariz para que pudesse respirar normalmente. Para piorar, só conseguia me alimentar por meio de um canudo por quase um mês”, conta.

A rotina foi dura após o ocorrido e mesmo recuperado fisicamente, o irlandês precisou abandonar o ofício por carregar muitos traumas, mais do que imaginava: “Quando eu finalmente voltei a jogar e superei os problemas físicos, não demorou a perceber que estava fazendo coisas que nunca faria em condições normais no campo. Ataques de pânico eram comuns e eu não conseguia dormir antes de cada jogo. Minha confiança dentro e fora dos gramados foi abalada. Fiz tudo que pude, até visitar um psiquiatra pagando do meu próprio bolso. A recuperação ainda está acontecendo, e certamente estes foram os dois anos mais difíceis da minha vida”.

Cada um com o seu destino

Gary Ricketts foi punido por duas semanas em 2011 e foi multado em dinheiro pelo próprio Ilkeston pela conduta quase selvagem diante dos rivais. Se Thompson e Riley ostentam as cicatrizes e lembranças de uma tarde que deveria transcorrer normalmente, Ricketts segue normalmente sua carreira. Aos 37 anos, o atacante continua no Ilkeston, disputando a oitava divisão.

A sensação que fica é a da impunidade, já que Gary não precisou ter nenhum tipo de acompanhamento ou atenção especial como Thompson, vítima de um ato que não foi tão isolado e nem acidental. Evidente que seria pedir demais um gancho de seis meses ou banimento vitalício do esporte, mas é preciso se repensar um pouco como essas atitudes impensadas podem gerar um impacto gigantesco na vida de um atleta.

Duas semanas passaram rápido para Ricketts. Mas as noites de sono perdidas por John e o filme da agressão que insiste em passar na sua cabeça estão longe de ter um fim.

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Felipe Portes

Felipe Portes é editor-chefe da Revista Relvado, zagueiro ocasional, ex-jornalista, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

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